Galeano: “Eu não seria capaz de ler de novo ‘As Veias Abertas…’, cairia desmaiado”

(Galeano em Brasília. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Em 1998, entrevistei a escritora Rachel de Queiroz (1910-2003) e ela me confessou sentir “antipatia mortal” por O Quinze, o clássico da literatura brasileira que publicou aos 20 anos, em 1930, e que, desde então, seria sua “obra mais importante e mais popular” (tudo quanto é enciclopédia se refere assim ao livro). O mesmo acontece com As Veias Abertas da América Latina e o escritor uruguaio Eduardo Galeano.  Publicado em 1971, quando Galeano tinha 30 anos, a obra até hoje o persegue. É sempre nomeado como “o autor de As Veias Abertas…“, o que, pelo visto, o incomoda mesmo porque tem mais de 30 livros além dele.

Na entrevista coletiva que deu na sexta-feira 11 em Brasília, onde veio para ser o escritor homenageado da 2ª Bienal do Livro e da Leitura, Galeano ouviu provavelmente a milionésima pergunta sobre Veias Abertas. “Faz 40 anos que você escreveu As Veias Abertas da América Latina. Quais são as veias abertas hoje em dia?” E ele, em um português bastante razoável: “Seria para mim impossível responder a uma pergunta assim, especialmente porque, depois de tantos anos, não me sinto tão ligado a esse livro como quando o escrevi. O tempo passou, comecei a tentar outras coisas, a me aproximar mais à realidade humana em geral e em especial à economia política porque As Veias Abertas tentou ser um livro de economia política, só que eu ainda não tinha a formação necessária. Não estou arrependido de tê-lo escrito, mas é uma etapa superada. Eu não seria capaz de ler de novo esse livro, cairia desmaiado. Para mim essa prosa de esquerda tradicional é chatíssima. O meu físico não aguentaria. Seria internado no pronto-socorro… ‘Tem alguma cama livre?’, perguntaria.” Risadas.

Aproveito e emendo: mas o que você achou de Chávez dar o livro para o Obama? Obama entenderia As Veias Abertas…? “Nem Obama nem Chávez”, responde Galeano para gargalhada geral. “Claro, porque ele entregou a Obama com a melhor intenção do mundo Chávez era um santo, cara mais bondoso que esse eu não conheci, mas deu de presente a Obama um livro em uma língua que ele não conhece. Então, foi um gesto generoso, mas um pouco cruel.”

Eu nunca tinha visto o grande escritor uruguaio de perto. É mais baixo do que imaginava, cerca de 1m70. Bastante frágil, aparenta ter mais do que seus 73 anos. Ele mesmo comenta que a maioria dos escritores é de esquerda e, como tal, chegados a uma boemia e isso não faz bem à saúde… Uma menina pergunta: “A idade não é boa para os jogadores de futebol. E para os escritores?” Galeano discorda. “Depende. Tem velhos muito mais jovens que os velhos velhíssimos e tem velhos que você acha que estão esperando a morte e surpreendentemente acabam ganhando uma partida por 8 a zero. Não depende da biologia nem do prognóstico dos profetas. Não depende de ninguém. O melhor que o futebol tem como esporte a festa que o futebol é, a festa das pernas que jogam, a festa dos olhos é a capacidade de surpresa, de assombro. Na verdade ninguém sabe o que vai acontecer. E menos ainda os especialistas. Aqueles doutores do futebol são seres temíveis, perigosíssimos para a sociedade e o mundo em geral.”

Outro jornalista espeta: “Por que a esquerda não deu certo na América Latina?” Galeano não se faz de rogado: “Algumas vezes deu certo, algumas vezes, não. A realidade é mutável, a realidade política e todas as outras por sorte. Senão seríamos estátuas, estaríamos congelados no tempo. Não é verdade que a esquerda não deu certo. Deu certo e muitas vezes foi demolida por ter dado certo, por ter tido razão, porque o que a esquerda predicou, em certo momento na América Latina, resultou ser a verdade, então foi punida. Punida pelos golpes de Estado, ditaduras militares, períodos prolongadíssimos de terror de Estado, crimes horrorosos cometidos em nome da paz social, do progresso. Da convivência democrática, imaginem! Que democracia e que convivência são essas? Tinham que perguntar: ‘do que está falando, senhor?’ As coisas são muito mais complexas do que parecem. Em alguns períodos, também, a esquerda comete erros gravíssimos e em outros, não, faz o que deve ser feito da melhor maneira, até além do que o próprio movimento de massas estava esperando. A realidade sempre tem esse poder de surpresa. Te surpreende com a resposta que dá a perguntas nunca formuladas. E que são as mais tentadoras. O grande estímulo para a vida está aí, na capacidade de adivinhar possíveis perguntas não formuladas.”

Galeano está cansado, foram muitas horas de viagem para chegar à capital federal, e quer encerrar a entrevista. Eu protesto: “Mas e Mujica? Você não vai falar de Mujica?” Ele não resiste e se senta de novo. “Estou meio cansado, estou fatigado de falar de Mujica, porque todo mundo fala dele! Até em outros planetas se fala de Mujica. Em Marte, Júpiter… É incrível a capacidade de ressonância que Mujica tem. E ele é muito meu amigo, já faz muitos anos. A única coisa que posso fazer para incorporar um grão de areia a esta praia imensa de Mujica caminhando pelo mundo seria contar uma piccola história que dá ideia da qualidade humana do personagem.”

E começou a narrar, saborosamente, como é de seu feitio:

“Faz uns quatro anos não tenho interesse em lembrar direito a data fui operado de câncer. Foi um câncer sério, agudo. Tomei uma anestesia muito forte, dessas que não desaparecem rápido. E estava sozinho na cama do hospital, esperando que passasse o efeito da anestesia. Ou seja, mais dormido do que acordado. Sem saber muito o que acontecia, onde estava, delirando. E neste período, estando sozinho em uma cama sozinho, não, acompanhado pelo câncer, mas o câncer não é um amigo confiável. Não te recomendo. Bem, estava eu ali e volta e meia delirava. Como sou muito futeboleiro, um religioso da bola, tinha delírios futebolistas que me levaram aos anos de infância, quando jogava na rua, com bolas improvisadas, feitas com trapos velhos. E em uma dessas fugas, comecei a bater bola. Como se fosse uma múmia egípcia que tinha errado de domicílio, jogando futebol contra ninguém e sem bola nenhuma, só na imaginação. Chutava a bola e ela voltava, chutava e ela voltava. Tudo debaixo do lençol. E nada, a bola continuava, como se estivesse morta de riso da minha estupidez de achar que podia com ela. ‘Não, você não pode comigo’. Numa dessas, senti um peso em cima dos meus joelhos. Aí começo a recobrar a realidade e vejo alguém que conheço, uma voz que reconheço, de um amigo. E pergunto:

O que você está fazendo aqui?

E ele:

Isso é maneira de receber um amigo?

Não importa, quero saber o que você faz aqui. Está doente também?

Que é isso, estou saudabilíssimo. O enfermo é você.

Estou sabendo. Obrigado pela notícia, mas já estou sabendo.

O doente é você, está fodido, irmão. Eu vim te visitar. Agora, não sabia que se recebia um amigo assim, chutando-o, chutando-o e chutando-o. Não é muito educado.

Continuamos nessa até que eu falei:

Olhe, chega. Sua função não é estar aqui brincando comigo. Você é o presidente da Repoública e sua função é governar. Mujica, você é o presidente! Vai governar este país já! Estamos precisando de sua participação ativa, desinteressada, importantíssima para o nosso povo. Não perca mais tempo comigo.

Ah, bela maneira de ser amigo, hein?

Será bela ou será feia, mas é a única maneira para você. Você é o presidente! Além disso, para piorar, todo mundo gosta de você e quer que continue sendo presidente por uns 300 anos mais. Se você não gosta, foda-se.

E aí acabou.”

Na saída, consigo falar a Eduardo Galeano do enorme prazer que sinto em conhecê-lo pessoalmente e lhe conto que adoro O Livro dos Abraços. Ele olha para mim e diz: “Eu também”.

Ufa.

Em Camaradas

99 Comente
Vote This Post DownVote This Post Up
Loading ... Loading ...

Kubitschek, o provocador: “a escola pública é tão mal considerada quanto Valesca e o funk”

(O professor Antonio Kubitschek. Foto: Ana Rayssa/Correio Braziliense)

Depois de passar a terça-feira inteirinha dando entrevistas (até perdeu a conta de quantas deu), Antonio Kubitschek decidiu desligar o telefone. Era aniversário da mulher e ele, que nem Facebook tem, decidiu desconectar para se dedicar à família. O professor de filosofia do Centro de Ensino Médio 3, em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília, vive dias de celebridade desde que uma prova sua causou furor nas redes sociais: nela, a funkeira Valesca Popozuda aparece como “pensadora contemporânea”.

Choveram, é claro, ataques ao professor e ao colégio da rede distrital onde ensina. Um blogueiro da direita raivosa chegou a decretar o fim da escola pública: “morreu, foi para o ralo. Virou lixo”, espumou. Mas aí veio a explicação de Kubitschek. O professor fizera a questão justamente para provocar o quiproquó que causou. Sua intenção era mostrar de que tipo de carniça se alimentam os urubus da mídia. E eles caíram feito patinhos.

A própria Valesca, bem mais inteligente do que a blogueirada reaça, percebeu de cara a intenção de Kubitschek. “E se o professor colocou a questão dentro do contexto da matéria? E se o professor quis ser irônico com o sucesso das músicas de hoje em dia?”, publicou a cantora em seu Face, atribuindo o escândalo a preconceito com o gênero musical. E ainda tirou onda: “Diva, Diva sambista, Lacradora, essas coisas, eu já estou pronta, mas PENSADORA CONTEMPORÂNEA ainda não (mas prometo que vou trabalhar isso)”, escreveu. “Vou ali ler um Machado de Assis e ir treinando pra quem sabe um dia conseguir ser uma pensadora de elite!” Beijinho no ombro.

(reprodução do Face de Valesca, a Pensadora)

Professor da rede pública no Distrito Federal há 19 anos, Kubitschek, 43, é, ao contrário do retrato pintado pelos apressados, um professor bastante conceituado na cidade, admirado por colegas e ex-alunos. Sua intenção era cumprir uma das principais tarefas do educador: estimular o debate entre os jovens. E conseguiu. O blog fez um pequeno pingue-pongue com o professor, que não tem parentesco algum com o presidente Juscelino. O Kubitschek, na verdade, é segundo nome. Uma homenagem do pai dele ao criador de Brasília.

(reprodução do Facebook)

Socialista Morena – Como foi que isso tudo começou?

Antonio Kubitschek – Nós tínhamos organizado uma exposição de fotografias dos alunos da escola, com 1300 fotos feitas pelos estudantes com o tema “Olhares”. Cada turma escolhia o que iria abordar a partir daí e saía fotografando. Avisamos a imprensa toda, porque era algo positivo e as fotos ficaram muito bonitas. Ninguém apareceu. Discutimos isto em classe e chegamos à conclusão que a imprensa só viria à escola em uma situação negativa. Vamos provocar?, disse a eles. Mas eu não podia colocar a imagem da escola em risco, porque ela faz um trabalho decente. Então decidi, de surpresa, sem avisá-los, colocar a questão da Valesca na prova, uma cantora que eu via todo mundo comentando e falando mal. Como eu sabia que os meninos compartilham tudo no Facebook, imaginei que ia haver repercussão, mas achei que fosse só a imprensa local. Nunca imaginei que viraria assunto no país inteiro.

SM – O que você acha do funk?

AK – É uma expressão da sociedade, de uma classe social. Tem gente que gosta e tem gente que não gosta. Particularmente, não é meu estilo de música favorito, não é o que eu coloco para tocar no carro, mas não tenho preconceito.

SM – Você acha mesmo que Valesca é uma pensadora?

AK – Sim. Ela é uma pensadora do funk, do ritmo dela. E algumas coisas que ela coloca têm a ver com a liberdade da mulher. Se as pessoas não concordam com a forma como ela diz isso, é outra história. Segundo Deleuze, aquele que cria um conceito é um pensador. Ela criou um conceito, portanto é uma pensadora, sim.

SM – O principal alvo de sua provocação foi a mídia. Por quê?

AK – A mídia tem um papel importante, que é o de trazer informação. Mas, por outro lado, é parte de um sistema que exige a vendagem, que se aproveita daquilo que pode vender. Ou seja, vive um dilema eterno entre o papel social que tem e o que será vendável. Vejo muitas críticas, por exemplo, a essa imprensa que vive à caça de fofocas sobre a família real, mas a mídia toda age da mesma maneira, só que não de forma assumida. Como se o que faz fosse algo mais sério, e não é. A imprensa de fofocas pelo menos assume que faz o que faz.

SM – Os blogueiros de direita só faltaram te amarrar a um poste virtual…

AK – Essa provocação foi feita exatamente para eles, porque, no fundo, eles têm preconceito com a escola pública. A escola pública é tão mal considerada quanto a Valesca e o funk. Para uma sociedade elitizada, que é quem estes blogueiros representam, ela não é considerada necessária.

SM – E a direção da escola, como reagiu?

AK – A direção me apoiou desde o primeiro momento. A secretaria de Educação, no começo, quando foi cobrada pelos veículos, me procurou pedindo explicações: “O que você vai fazer?” E eu disse: “Vou responder à mídia”. Depois que eu expliquei a proposta, creio que houve uma mudança na opinião pública e a secretaria também me apoiou.

SM – Percebe-se que o primeiro alvo dos que atacam a escola pública é o professor.

AK – E tem cada professor bom! Cada trabalho bem-feito! O que acontece é que o professor não é bom marqueteiro. É o ritmo dele. O professor normalmente pensa: “meu papel é educar, não fazer propaganda do que eu fiz”. Mas é uma categoria fantástica.

SM – Como você avalia a escola pública hoje?

AK – Tem melhorado, mas ainda está muito longe do que é necessário. Os governos precisam investir mais nas condições dos prédios, em segurança. A sociedade também precisa dar apoio, acreditar na escola pública. A classe média coloca seus filhos nas particulares porque elas dão mais oportunidades a seus filhos, mas o dia em que a classe média voltar para a escola pública e passar a cobrar, participar, ela também vai poder oferecer estas oportunidades. Melhorar a remuneração do professor também é importante, até para ele deixar de ouvir a frase: “Você é professor? Coitado!”

SM – Seus alunos também deram entrevistas estes dias, entraram no “circo da mídia”. Como é que você vai fazer para discutir este efeito colateral da provocação?

AK – (Risos) É, não vamos conseguir fugir de debater isso também.

***

UPDATE: Olhem abaixo o texto de um aluno de Kubitschek que está circulando no Facebook e julguem vocês mesmos o nível de educação que ele está transmitindo. E como sua incitação ao pensamento FUNCIONOU. Faço questão de colocar na íntegra:

“Olá pessoal. Sou um dos alunos do CEM 03 de Taguatinga, onde a prova foi aplicada. E queria dizer que é extremamente divertido ver a reação do público controlado pela mídia. Pessoas abaixo dizendo que ele é um cretino, babaca, só tem o diploma na parede… Que “esse é o motivo da educação estar tão ruim”.

Acontece que esta foi uma das 12 questões da prova bimestral de filosofia, onde o professor colocou esta questão (nº 11) por motivos que ele mesmo explicou na entrevista.

Mas não é aí onde quero chegar, e sim no fato de que o público, controlado pela mídia, tende a ver somente o que é exposto e julgar indiscriminadamente sem antes avaliar a situação como um todo. Isso entra em um dos assuntos que nos foram explicados pelo professor recentemente, sobre Kohlberg. A matéria dada pelo professor Antônio tratava a respeito da Teoria do Desenvolvimento Moral. Eu não vou explicar isso aqui, pois se acham-se no direito de julgarem um professor de filosofia, creio eu que devem ter conhecimento a respeito do assunto. No entanto, um dos tópicos foi o dilema de Heinz, proposto por Kohlberg. Ele diz que Heinz estava com a esposa doente, e o remédio que a salvaria custava mil dólares. Como não podia comprá-lo do farmacêutico que detinha a fórmula, após esgotadas as tentativas de obtê-lo de modo honesto, roubou-o. Kohlberg pergunta se o marido fez bem ou não em ter roubado, e analisa as respostas dadas, identificando o nível moral do entrevistado através destas. (texto retirado do livro Filosofando, ARRUDA, Maria Lúcia de; e MARTINS, Maria Helena Pires, com adaptações). O que acontece nesta situação é o mesmo. É possível “analisar” as diversas respostas do público em relação à questão da prova e identificar seus níveis morais. “Não devia ter colocado a questão na prova pois é um professor e isso é errado.” (nível convencional, terceiro estágio – pertencimento ao grupo). Quando suas respostas a isso, como adultos, deveriam estar no nível pós-convencional, destacando o conflito entre a ética profissional e o direito que cada pessoa tem de exercer a própria vida, ou no sexto estágio do nível pós-convencional. Mas, infelizmente, como diz Kohlberg, nem todos os adultos atingem este nível, devido à educação e vida que recebem, em condições diferentes.

Se chegou a ler até aqui, gostaria de ressaltar apenas algumas informações importantes sobre o conteúdo da prova. As demais 9 questões da prova tratavam de ética, moral, valores, e níveis de moralidade. Caso tenham alguma dúvida, podem pedir à direção da escola para liberar o resto do conteúdo da prova. Estes conteúdos que citei acima, foram todos tratados e explicados em sala pelo professor, conteúdos que também estão presentes no livro que nos foi dado pela escola e no componente curricular da terceira série do Ensino Médio. Então, para aqueles que gostam de dizer que o professor é incompetente por causa de uma única questão e que não estamos aprendendo nada em sala, saibam que estamos sim aprendendo, e não somente um ou dois alunos, mas a grande maioria.

E, para finalizar, posso dizer que apenas me sinto mal por vocês adultos que ainda se encontram no Estágio Intuitivo ou Simbólico de Piaget. Esse é aquele estágio em que a criança possui uma inteligência egocêntrica, sendo assim ela sente, pensa e age a partir de si mesma e não se coloca no lugar do outro. Digo isso porque, ao invés de avaliarem a situação corretamente, baseado em todo o contexto do ocorrido, simplesmente julgam o professor por sua questão sem avaliar o contexto todo, como se fossem perfeitos ou pudessem fazer melhor. Acontece que, olha só para o que estão fazendo: criticando, atrás de uma tela de computador, usando de argumentos incoerentes, palavras ofensivas e tudo o mais. Acham mesmo que pessoas nesse nível são capacitadas pra julgar a ética e moral dos outros?

Obrigado pela atenção, e BEIJINHO NO OMBRO PRO RECALQUE PASSAR LONGE.
Gabriel Guilherme, 3º G #39 CEM 03 de Taguatinga.

Em Blog

165 Comente
Vote This Post DownVote This Post Up
Loading ... Loading ...

Darcy: “Jango caiu porque era uma ameaça inadmissível às classes dominantes”

(O ministro da Casa Civil Darcy Ribeiro e o presidente João Goulart na entrega ao Congresso do projeto das Reformas de Base em 1964. Foto: Fundação Darcy Ribeiro)

Quem melhor do que Darcy Ribeiro, grande inspirador deste blog e ministro da Casa Civil de João Goulart, para falar sobre o golpe de 1964?

***

O GOVERNO JANGO

O governo Jango não caiu por seus defeitos –um dos principais seria minha presença no posto-chave de chefe da Casa Civil–, ele caiu por suas qualidades. Essencialmente porque representava uma ameaça inadmissível para as classes dominantes. Quem viveu aqueles últimos meses de tensão recordará tanto a animosidade e o ódio que se alastraram por toda a casta de privilegiados contra o governo nacionalista e sindicalista, como o entusiástico apoio popular ao governo trabalhista e reformista.

Jango assume a presidência com a vocação de ser um poder conciliatório que só aspirava realizar reformas sociais indispensáveis e inadiáveis pelo caminho da persuasão. De fato, o governo de Jango surge e se define desde a primeira hora como uma alternativa à revolução cubana num mundo marcado pela presença de J. F. Kennedy e de João 23. Por desgraça, o Santo Papa morre, Kennedy é assassinado e João Goulart se vê sozinho no seu intento conciliatório.

***

A velha classe infecunda –dos que não plantam nem deixam plantar– que infelicitou nosso País ao longo da História, impedindo que o povo brasileiro realizasse suas potencialidades, só queria perpetuar a velha ordem. Vale dizer, este estilo de prosperidade não generalizável aos trabalhadores que, no passado, dava nominalmente a negros que duravam menos de 10 anos no eito a renda per capita mais alta do mundo. Este mesmo estilo que, perpetuado e ampliado, faz do Brasil de hoje um grande produtor de soja, reduzindo simultaneamente de forma tão drástica a produção de alimentos que condena o povo à fome. Para perpetuar os interesses desta velha classe é que Goulart foi derrubado e se impôs a política econômica oposta, no curso da qual se ampliavam exorbitantemente os latifúndios. Em lugar de milhões de pequenos proprietários rurais, o que se viu foi multiplicarem-se superlatifúndios de milhões de hectares.

***

Derrubado o governo trabalhista de Jango, com ele caem a democracia e a ameaça de uma reforma agrária e de uma lei de controle das multinacionais, bem como toda uma política de defesa dos recursos nacionais e das conquistas sociais dos trabalhadores.

A derrubada do governo de João Goulart foi o primeiro movimento decisivo da nova estrutura mundial de poder, comandada pelas empresas multinacionais. Ao golpe de 1964 no Brasil seguiram-se outros que, mediante conspirações urdidas internacionalmente, desestabilizaram todos os governos nacionalistas e democráticos –sobretudo os de pendor socialista– da América Latina. Implantou-se, assim, desde Washington, a nova safra de ditaduras militares latino-americanas, todas elas de caráter regressivo no plano social e repressivo no plano político.

(trechos do artigo 1964: Um Testemunho, publicado na Folha de S.Paulo em março de 1982)

***

A PROPAGANDA ANTI-JANGO

O pequeno expediente da Câmara de Deputados se converte numa campanha diária de denúncia do suposto golpismo do governo e de advertência contra o projeto de Jango, que queria rasgar a Constituição e levar o Brasil ao comunismo. Os discursos parlamentares eram reproduzidos por conta do Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), por estações de rádio do país inteiro, criando um clima de pânico. A certa altura a campanha era tão alarmista que mandei quebrar as máquinas de gravação e transmissão instaladas por José Bonifácio no corredor que liga a Câmara ao Senado. É de assinalar que essa campanha milionária foi montada e executada precisamente pelos deputados udenistas, que pretendiam rasgar a Constituição e implantar a ditadura, como, de fato, o fizeram.

A Comissão Parlamentar de Inquérito criada para examinar os negócios do Ibad consegue provar, apesar de todo o escamoteio, que entre os principais financiadores estavam a Texaco, Shell, Ciba, Schering, Bayer, GE, IBM, Coca-Cola, Souza Cruz, Belgo-Mineira, Herm Stoltz e Coty.

***

A direita vai à guerra. Frente à maré montante do movimento pelas reformas de base e convencida de que não podia manter a velha ordem desigualitária através de eleições que perdia sucessivamente, a direita unificada contra o governo reformista do presidente João Goulart opta pela guerra civil. Procura e alcança, para isso, o apoio do governo norte-americano de Lyndon Johnson, que não só ordena a organização e o financiamento do golpe para derrubar Goulart, como admite que se chegue até à guerra civil, aceitando o risco de abrir, no Brasil, um novo Vietnã, pela invasão de nosso país por suas tropas, para dar apoio, aqui, aos velhos aliados e aos gestores de suas empresas, cujos interesses estavam ameaçados.

Brizola expressa a Jango a conviccão da esquerda radical de que, tendo fracassado a política de concliliação do chamado caminho brasileiro, paralisado, cumpria assumir o comando do movimento popular e partir para a revolução. Jango retruca: “Não assumo a responsabilidade de lançar o país numa revolução inconsequente”.

San Thiago Dantas tenta em vão articular uma Frente que unifique esquerdistas e progressistas para enfrentar a sedição das direitas e efetivar as reformas de base.

A sedição é articulada tecnicamente, em Washington, com vasto assessoramento científico, como a primeira operação complexa de desestabilização de governos sul-americanos. A operação tem início com campanhas milionárias de difamação do governo pelos jornais, pelo rádio, pela televisão, com o objetivo de apavorar as classes médias contra o aparente continuísmo de Jango e, sobretudo, contra sua suposta orientação sindicalista e pró-comunista. Simultaneamente, se desencadeia a batalha psicológica através de procissões político-religiosas, montadas espetacularmente pelos governos de vários estados, chamando grandes contingentes das classes médias, sobretudo as mulheres, para uma posição ativa de oposição ao governo. A operação é coroada com uma série de provocações militares programadas para indispor a oficialidade contra o governo.

ESQUERDA X ESQUERDA

(1963)

Almino Afonso, afastado por Jango do ministério do Trabalho, procura ativar no PTB o Bloco Compacto, a partir do qual criaria, com apoio comunista, um novo partido de esquerda sindicalista, hostil ao governo. Com uma inflação superior a 80% e a consequente insatisfação dos assalariados, a manobra era preocupante.

A luta ideológica divide as esquerdas. San Thiago Dantas começa a falar de esquerda positiva e de esquerda negativa, distinguindo os reformistas dos radicais. Estes últimos contestam que o importante a diferençar é a esquerda fisiológica e oportunista, encarnada pelo próprio San Thiago, da esquerda ideológica e combativa, representada por Brizola, Arraes e Julião.

Carvalho Pinto, também candidato à presidência, ameaça demitir-se do Ministério da Fazenda, diante da suposição de que o governo daria o 13º salário para os funcionários públicos. Afinal, se demite por outras razões, principalmente por intrigas juscelinistas. Começa então a campanha tão inesperada quanto insensata de exigir de Jango a nomeação de Brizola para o Ministério da Fazenda. Miguel Arraes, igualmente insensato, preferia que o ministro da Fazenda fosse eu.

Paulo de Tarso, ministro da Educação, se demite porque o governo não seria suficientemente esquerdista para o seu gosto. A Frente de Mobilização Popular publica nota dizendo que sua “posição é de total independência em relação à política de conciliação do presidente da República e em relação a todo o esquema de poder vigente. É a tal doença infantil.

As esquerdas se radicalizam rapidamente.

(1964)

Tento, em vão, convencer líderes de esquerda –inclusive Prestes e Arraes– de que não há qualquer risco de continuísmo por parte de Jango. O que está em marcha, dizia eu, é um golpe da direita. A informação não passa. É inverossímil demais.

As esquerdas entram em desvario. Até Prestes destrambelha, dizendo que Jango é o porta-bandeira da revolução brasileira, e ameaçando: “Não há condições para o golpe reacionário, e se os golpistas tentarem, terão suas cabeças cortadas”.

Juscelino Kubitschek e o general Amaury Kruel propõem ao presidente uma virada total para a direita, expressa através do fechamento da UNE e da CGT, seguida da demissão de Raul Riff e Darcy Ribeiro.

San Thiago Dantas e Samuel Wainer aconselham o presidente João Goulart a não resistir. O primeiro informando que o ataque ao Palácio do governador Carlos Lacerda provocaria a invasão da baía de Guanabara por navios da armada norte-americana, que já estariam em nossos mares. O segundo insinuando que sua saída seria como a de Getúlio, a premissa necessária a um retorno vitorioso. Para ambos e para muitos companheiros mais, o pior era Jango ficar e implantar as “reformas de base”, disputando o poder com as esquerdas radicais.

O GOLPE

Os candangos reunidos aos milhares, no teatro de Brasília, em vigília para defender Jango, foram dispersados pelas tropas do general Fico, que prometeu defender a legalidade mas aderiu na última hora, rendendo-se a uma ordem telegráfica de Costa e Silva. Brigamos.

As primeiras prisões foram de líderes da CGT, que tentavam, às pressas, improvisadamente, resistir ao golpe. A verdade é que ninguém, nem eu, esperava golpe antes de 1º de maio. Depois, sim, ele era certo. Ainda creio que (o general) Mourão foi uma “fagulha saltada”.

Três dias depois, Waldir Pires –procurador-geral da República– e eu voamos num aviãozinho monomotor, conseguido por Rubens Paiva –morto anos depois, assassinado pelos torturadores da Base Aérea do Galeão –, para irmos ao encontro de Jango. Acabamos em Montevidéu. Era o exílio.

Para o povo, o golpe foi cruento. Principalmente para os camponeses das ligas de Julião, assaltados e assassinados em seus ranchos, em atos de pura cureldade, pelas polícias regionais e pelos jagunços dos senhores de engenho, a fim de demonstrar ao povo nordestino que seu destino é o cambão.

(Aos Trancos e Barrancos – Como o Brasil Deu no que Deu, editora Guanabara)

***

O que se pretendia era uma reforma estrutural de caráter capitalista. Elas foram, porém, vistas como revolucionárias em razão do caráter retrógrado do capitalismo dependente que se implantou no Brasil sob a regência de descendentes de senhores de escravos e testas-de-ferro de interesses estrangeiros. Jango dizia e eu repetia até à exaustão que com milhares de pequenos proprietários a propriedade estaria mais defendida e muito mais gente poderia comer e educar os filhos. O apoio popular a este programa não podia ser mais entusiástico. Nem mais fanática a oposição a ele por parte dos latifundiários e agentes dos interesses estrangeiros. Unidos eles montaram a maior campanha publicitária que se viu no País, para convencer as classes médias que o governo marchava para o comunismo.

O ambiente de odiosidade que se criou dividiu as forças armadas e pôs o Brasil sob ameaça de invasão pelos Estados Unidos, a pedido do governo de Minas Gerais. Nestas circunstâncias, João Goulart teve de optar entre deixar-se derrubar ou resistir, permitindo que se desencadeasse no país uma guerra civil que podia custar milhões de vidas.

Seguiu-se o golpe e se seguiu o regime militar de 1964, que passa a governar como um negativo fotográfico do programa de Jango. Em lugar de democracia e liberdade sindical, ditadura e arrocho salarial. Em lugar de milhões de pequenos proprietários, milhões de hectares para superproprietários. Em lugar do controle das multinacionais a entrega total do Brasil ao controle delas.

***

JANGO

Jango, com seu reformismo, foi o governo mais avançado que tivemos, aquele que lutou mais fundamente para implantar as bases de um Brasil novo, capaz de gerar uma prosperidade extensível a todo o povo. Embora reformista, ele foi percebido, sentido e temido como revolucionário, provocando uma contra-revolução preventiva para impedir a execução das reformas de base que estavam sendo levadas a cabo. A esquerdinha, em sua eterna ingenuidade, só admite uma revolução pronta e perfeita, como nunca sucedeu em parte alguma, dizem eles próprios. Enquanto não se alcança esta tola utopia, se opõem com horror a todo reformismo, preferindo entregar-se à direita como exóticos, mas fiéis serviçais da ordem.

Todos os grandes jornais, toda a imprensa falada e televisiva se mancomunaram para negar a história real e colocar no lugar dela uma ficção enobrecedora da ação golpista dos militares que se deixaram subornar pelos norte-americanos para dar o golpe anticonstitucional que interessava aos latifundiários e às empresas internacionais.

Tiveram êxito, sem qualquer dúvida. Tanto assim que se criou no Brasil uma geração de mulas-sem-cabeça que, desconhecendo o passado, flutua fora da história.

(Testemunho, Fundação Darcy Ribeiro)

Em Camaradas

13 Comente
Vote This Post DownVote This Post Up
Loading ... Loading ...

Os donos dos jornais: nós que amávamos tanto a “revolução”

As palavras sobram para falar sobre o apoio da imprensa brasileira ao golpe militar em 1964: os fac-símiles dos editoriais da época dizem tudo. Foi acachapante. Todos saudaram a “democrática” atuação dos homens de farda para derrubar João Goulart, ainda que ele fosse querido pelo povo. Os “defensores da Pátria” não estavam –como estão hoje– nem aí para a vontade popular. O Jornal do Brasil (acima) saudou os militares no poder como “a verdadeira legalidade” e os que apoiaram a quartelada de “verdadeiros brasileiros”. Afinal, quem melhor que a imprensa para apontar onde está a “verdade”, não é mesmo?

O Globo (acima), que este ano pediu desculpas pelo apoio à ditadura, chamou o golpe de “volta da democracia” e comparou os militares a anjos: “o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina”. O império Globo cresceu à sombra da ditadura militar e foi durante anos o principal porta-voz e propagandista do governo fardado. Beneficiado com concessões em todo o País, a Globo só se tornou o que é hoje por causa da ditadura. Em vez de pedir desculpas, deveria dizer “muito obrigado”. Acho até ingratidão.

Aqui, o documentário Muito Além do Cidadão Kane, que explora a proximidade da Rede Globo com a ditadura militar. A emissora conseguiu proibir a exibição do filme durante anos no Brasil. Até hoje não é possível transmiti-lo na TV aberta.

O Estado de S.Paulo também apoiou o golpe e conspirou em favor dos militares desde o primeiro momento, mas, depois, se tornaria “vítima” da censura. O que, segundo a historiadora Beatriz Kushnir, autora de Cães de Guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988, não impediu o jornal de continuar a colaborar com a ditadura, assim como fizeram todos. “Eu reviso essa ideia de resistência e mostro que houve, no lugar disso, um grande colaboracionismo”, explicou Kushnir a CartaCapital (leia mais aqui). “Se houve resistência, esta está nos veículos alternativos e não na grande imprensa”. A Globo, diz Beatriz no livro, chegou a contratar censores para atuar como funcionários, com o objetivo de aperfeiçoar a autocensura e evitar cortes que poderiam causar prejuízos econômicos.

A Folha de S.Paulo saudou os militares que derrubaram Jango como “exemplos de patriotismo e desprendimento”. Em 2011, o jornal reconheceu que apoiou a ditadura de forma deslavada, sem nenhuma crítica. “A partir de 1969, a Folha da Tarde alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares”, afirmou o jornal, confirmando que a redação da FT estava entregue “a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais)”. O grupo admitiu, inclusive, ser possível que automóveis do grupo tenham sido utilizados por agentes do DOPS para espionar a esquerda (leia mais aqui). Nos anos 1980, o jornal ganharia leitores ao encampar o apoio às eleições diretas. Estratégia editorial? É possível, porque nos anos recentes assistimos uma nova guinada da Folha à direita, chegando a alcunhar a ditadura de “ditabranda”.

Dos grandes jornais brasileiros, o único a apoiar Jango foi a Última Hora, de Samuel Wainer. E, obviamente, foi empastelado pelos ditadores, enquanto os outros floresciam. Não é à toa que, aos 50 anos do golpe militar, a imprensa brasileira tenta justificar o injustificável em editoriais onde enxerga “lados positivos” nos anos de chumbo. Claro, não se abandona um líder ferido na beira da estrada…

Assista aqui a um documentário sobre o papel da imprensa paulista no golpe. Veja mais manchetes dos jornais brasileiros apoiando o golpe militar aqui.

Em Blog

10 Comente
Vote This Post DownVote This Post Up
Loading ... Loading ...

Jango rompe o silêncio

(Jango é fotografado pela mulher Maria Tereza em seu exílio no Uruguai em 1964. Foto: acervo FGV)

Em agosto de 1964, deposto e exilado no Uruguai, João Goulart publicaria um manifesto numa revista de esquerda, a pretexto dos dez anos da morte de Getúlio Vargas. O texto acabou sendo lido na íntegra no plenário da Câmara dos Deputados por Doutel de Andrade, líder do PTB, o partido de Jango, o que foi considerado uma provocação pelo ministro da Guerra e futuro presidente Costa e Silva. Já naquela época, apenas por ler as palavras do ex-presidente, Doutel foi ameaçado de cassação, o que iria ocorrer dois anos depois, em 1966.

Instigado pelos milicos, o governo do Uruguai “advertiu os brasileiros no exílio, especificamente o presidente João Goulart, pela violação do direito de asilo político ao publicar documento considerado subversivo pelo governo brasileiro”, segundo um documento da diplomacia britânica. No texto, Jango destaca seu perfil “liberal” e “cristão” para se distanciar do estigma de comunista que tentaram lhe impingir.

“A subversão, fartamente denunciada e muito bem paga, na profusão de rádios, jornais e televisão, era o preparo da mentira do perigo comunista, que iria constituir o ponto de partida para concretização da quartelada, a fim de que, assim, pudessem esmagar as justas aspirações populares que o meu Governo defendia”, diz Jango, denunciando o papel da imprensa no golpe. É preciso destacar que, apesar do massacre midiático, o presidente contava com apoio popular quando foi derrubado e poderia ser reeleito em cinco capitais –inclusive no Rio de Janeiro do golpista Carlos Lacerda. “Hoje, lançam contra mim toda a sorte de calúnias. Sei que continuarão a injuriar-me. Mas o julgamento que respeito e que alguns temem é o do povo brasileiro”, escreveu Jango.

Este texto de João Goulart é muito pouco divulgado, talvez por ser tão esclarecedor do pensamento do ex-presidente e de suas convicções democráticas. Reproduzo-o aqui, na íntegra, para que a história lhe faça justiça.

***

Por João Goulart, agosto de 1964

Faz hoje dez anos que a Nação, traumatizada, assistiu ao supremo sacrifício de Getúlio Vargas. Nunca deixei de me dirigir a todos vós, neste dia, que está definitivamente incorporado à nossa história, marcando, no Brasil republicano, o instante heróico do saudoso estadista que empenhou a própria vida para conter as terríveis forças do obscurantismo e para que pudéssemos prosseguir na dura caminhada da libertação do nosso povo e da nossa Pátria. É, pois, a luta do povo pela liberdade e pela conquista das reformas estruturais profundas e cristãs da sociedade brasileira que, mais uma vez, conduz ao encontro dos vossos anseios e das vossas mais aflitas esperanças.

Deixo, assim, no exílio em que me acho, o silêncio a que me havia imposto para voltar à intimidade honrada dos vossos lares, muitos já violados, dos vossos sindicatos, oprimidos; das vossas associações, atingidas pelo ódio da reação, com uma palavra de advertência, mas, sobretudo, de fé inquebrantável no destino do nosso país. Esta palavra já não parte do Presidente da República. Não vos posso, também, dirigi-la da praça pública, onde tantas vezes nos encontramos. Dominam a Nação o arbítrio e a opressão.

A reconquista das liberdades democráticas deve constituir o ponto básico e irrenunciável da nossa luta, a luta corajosa do povo brasileiro para a emancipação definitiva do Brasil. Duas vezes preferi o sacrifício pessoal de poderes constitucionais à guerra civil e ao ensangüentamento da Nação. Duas vezes evitei a luta entre irmãos. Só Deus sabe quanto me custou a deliberação a que me impus e pude impor a milhões de patriotas.

Em 1961, tolerei as maquinações da prepotência e consenti na limitação de poderes que a Constituição me conferia, para, depois, restaurá-los democraticamente, pela livre e esmagadora deliberação da vontade popular. Nunca recorri à violência. Os tanques, os fuzis e as espadas jamais, historicamente, conseguiram substituir, por muito tempo, a força do direito e da justiça. A função que a Constituição lhes impõe é a defesa da soberania do país e de suas instituições e nunca a tutela do pensamento do povo, para suprimir e esmagar suas liberdades, como pretendem alguns chefes militares.

Este ano, depois de recusar-me à renúncia que nunca admiti, resolvi, pelo conhecimento real da situação militar, não consentir no massacre do povo. Não só porque contrariava minha formação cristã e liberal, mas porque eu sabia que o povo estava desarmado. Eu sabia que a subversão, fartamente denunciada e muito bem paga, na profusão de rádios, jornais e televisão, era o preparo da mentira do perigo comunista, que iria constituir o ponto de partida para concretização da quartelada, a fim de que, assim, pudessem esmagar as justas aspirações populares que o meu Governo defendia. Baniram, ditatorialmente, o direito de defesa; humilharam a consciência jurídica nacional; suprimiram o poder dos tribunais legítimos. Invadiram universidades, queimaram bibliotecas; não respeitaram sequer as mesmas igrejas onde antes desfilavam as contas de seus rosários. Trabalhadores, estudantes, jornalistas, profissionais liberais, artistas, homens e mulheres são presos pelo único crime da opinião pública, da palavra ou das idéias. Cassam centenas de mandatos populares. Porventura são trapos de papel os compromissos internacionais que assumimos na Declaração Universal dos Direitos do Homem e na Carta organizatória das Nações Unidas?

Pessoalmente, tudo posso suportar, como parcela do meu destino na luta da emancipação do povo brasileiro. O que não posso é calar diante dos sofrimentos impostos a milhares de patrícios inocentes e do esmagamento das nossas mais caras tradições republicanas. Hoje, lançam contra mim toda a sorte de calúnias. Sei que continuarão a injuriar-me. Mas o julgamento que respeito e que alguns temem é o do povo brasileiro. É possível que haja cometido erros no meu Governo. Erros da contingência humana. Mas tudo fiz para identificar-me com os sentimentos do povo e da Nação e posso afirmar que assegurei a todos os brasileiros, inclusive a meus adversários, o exercício mais amplo das liberdades constitucionais. Deus não faltará com seu apoio à energia do povo para a reconquista de suas liberdades. Ninguém impedirá o povo de construir o desenvolvimento nacional e dirigir o seu próprio destino.

Tudo fiz por um Governo democrático e justo, no qual se processassem, pacificamente, com a colaboração dos órgãos legislativos, as transformações essenciais da sociedade brasileira; quis um Governo que incorporasse à família nacional, com acesso aos benefícios da civilização do nosso tempo, os milhões de patrícios humildes do campo e as áreas marginalizadas da população urbana; empenhei-me por um Governo que exprimisse os anseios legítimos dos trabalhadores, dos camponeses, dos estudantes, dos intelectuais, dos empresários, dos agricultores, do homem anônimo da rua para, todos juntos, travarmos a difícil luta contra a miséria, a doença, o analfabetismo, o desemprego e a fome. Sobre mim recaiu, então, todo o ódio dos interesses contrariados.

Promovi o reatamento de relações diplomáticas com as nações do mundo e assumi a responsabilidade de alargar nossos mercados, no interesse único da economia do país e do bem-estar do nosso povo. Executei uma política externa independente. Condenamos o colonialismo, sob qualquer disfarce, defendendo os princípios da não-intervenção e da autodeterminação dos povos. Nunca transigi com a dignidade do meu país e o respeito à sua soberania. Hoje, representantes estrangeiros interferem publicamente nos assuntos internos do país ou conhecidas organizações monetárias internacionais fixam, unilateralmente, condições humilhantes, em cláusulas de negociações, para ajudas ilusórias que, internamente, agravam o sofrimento do nosso povo e, externamente, aviltam os preços dos nossos principais produtos de exportação. E já se fala na execução de acordos que abrirão o caminho legal para a instalação, em nosso território, de importantes bases militares, sob o controle e o comando de outras nações.

Decretei, brasileiros, a regulamentação da lei de disciplina do capital estrangeiro. Decretei o monopólio da importação do petróleo e a encampação das refinarias particulares. Decretei a desapropriação de terras, objeto de especulação do latifúndio improdutivo. Decretei a implantação da empresa brasileira de telecomunicações. Lutei pela Eletrobrás. Decretei a limitação dos aluguéis, dos preços dos remédios, dos calçados, das matrículas escolares, dos livros didáticos. Hoje, os aumentos incontrolados do custo das utilidades indispensáveis à vida do povo atingem limites insuportáveis.

Promovi, por todos os meios, campanha intensiva de educação popular, para suprimir o analfabetismo em nossa Pátria. Estimulei os investimentos que promovessem maiores oportunidades de trabalho. Quis vencimentos dignos para todos os servidores públicos, civis e militares. Assegurei aos trabalhadores do campo o direito legal de organizarem seus sindicatos e defendi o salário real de todos os brasileiros, que deve acompanhar a elevação do custo de vida, respeitando a liberdade constitucional dos seus movimentos reivindicatórios legítimos.

Bati-me pelas reformas de base, para que o Congresso as votasse democrática e pacificamente. Muitas vezes pedi a colaboração de suas lideranças partidárias. Nada foi possível obter. Mas ninguém se engane. As reformas estruturais, que tudo empenhei por alcançar, rigorosamente dentro do processo constitucional, nenhuma força conseguirá detê-las e nada impedirá a sua consecução. Neste dia, brasileiros, longe de todos, o pensamento voltado para a memória de Getúlio Vargas, que tombou sacrificado pelas mesmas forças que hoje investem contra mim, reflito sobre as permanentes verdades que o admirável estadista denunciou em sua Carta-Testamento, e anima-se a confiança que tenho no futuro do meu país. Não posso concebê-lo presa da intolerância, da tirania, da ilegalidade, que são atitudes repudiadas pelos sentimentos generosos de nossa gente.

Sem ressentimentos na alma, sem ódios, sem qualquer ambição pessoal, conclamo todos os meus patrícios, todos os verdadeiros democratas, a família brasileira, enfim, para a tarefa de restauração da legalidade democrática, do poder civil e da dignidade das nossas instituições republicanas. Queremos um Brasil livre, onde não haja lugar para qualquer espécie de regime ditatorial, com uma ordem fundada no respeito à pessoa humana, no culto aos valores morais, espirituais e religiosos do nosso povo. Queremos um Brasil justo, progressista, capaz de assegurar confiança ao trabalho e à ação de todos os brasileiros. Queremos um Brasil fiel às origens de sua formação cristã e de sua cultura, libertado da opressão, da ignorância, da penúria, do atraso, do medo, da insegurança.

Deus guiará o povo brasileiro para os objetivos patrióticos de nossa luta.

Em Blog

24 Comente
Vote This Post DownVote This Post Up
Loading ... Loading ...