Mino Carta e os garotos de recado

(Mino trabalhando na redação de CartaCapital)

Há mais ou menos um mês, sintomaticamente desde que se rememorou o aniversário de 50 anos do golpe militar de 1964, um preposto da Folha de S.Paulo tem atacado Mino Carta sem tréguas, e Mino tem respondido diretamente a ele em seus editoriais de CartaCapital, o que eu considero um equívoco. Como proprietário de um meio de comunicação, Mino deveria debater com os donos dos veículos que o atacam, e não com subordinados. Valente que é, porém, optou por defender a si próprio.

Até por isso, ele não me deu esta tarefa, mas eu vou tomá-la para mim apenas pelo desejo de demonstrar a desonestidade intelectual de um colunista que se diz intelectual. Não foi só na Folha; o “exquerdista” arrependido fez o mesmo em outros veículos: alugou sua pena para acusar Mino de, como fundador e diretor de redação de Veja nos primórdios, ter apoiado a ditadura militar, com base em trechos pinçados de editoriais da revista que apoiam a ditadura. Como é possível que gente que vocifera contra Stalin por recriar a história a seu bel-prazer tente fazer o mesmo com a reputação de alguém?

Me dirijo principalmente aos leitores que não conhecem a fundo o jornalismo. Entendam uma coisa: jornalistas sozinhos podem até apoiar golpes militares, mas não possuem o poder de levar um veículo a apoiá-los. Quem apoia golpes são os donos dos jornais, patrões dos jornalistas. Quando dirigiu Veja, por mais liberdade editorial que tivesse (e tinha muita, tanto é que a revista foi censurada várias vezes sob sua batuta, nunca depois), Mino era empregado dos Civita, assim como o colunista da Folha é empregado dos Frias.

Editoriais são a voz do dono. O que está escrito lá é o que o dono pensa. Ainda mais na Veja, onde até os os textos jornalísticos são modificados pelos editores ao sabor do pensamento dos donos, ainda que mantidas as assinaturas dos repórteres (leia aqui sobre minha péssima experiência na revista; estes textos que não escrevi também foram usados contra mim nas redes sociais).

Em minha opinião, dizer que todos aqueles editoriais de Veja correspondiam ao que Mino Carta pensava é uma falsidade, uma mentira. Só alguém que não conhece o funcionamento de uma revista seria capaz de dizê-lo –a não ser que seja alguém sem escrúpulos, disposto a imprimir mácula em quem não tem, talvez porque julgue Mino por si mesmo ou porque sua sede de agradar os donos dos jornais seja maior do que seu caráter. Bajuladores estão mesmo no patamar mais baixo da raça humana.

Dizer que um jornalista tem poder sobre a voz do dono (o editorial) seria o mesmo que dizer que o articulista da Folha é capaz de intervir nas posições editoriais do jornal. Não é. Nem mesmo o diretor de redação da Folha é capaz de modificar um editorial, simplesmente porque o que está ali é a tradução do pensamento do patrão, e o jornalista, não importa quão alto seja seu cargo, nada mais é que um funcionário. Assim como o redator-chefe de CartaCapital não tem nenhum poder de modificar o que o Mino escreve, porque ele  –desculpa, Mino, você deve odiar a palavra– é nosso patrão.

Aos 80 anos, Mino Carta é, concorde-se ou não com ele, um dos maiores jornalistas do Brasil. E um dos homens mais coerentes que já conheci. Merece respeito. É perfeitamente legítimo o desprezo de Mino (ou o meu, ou o seu) pela grande mídia, que se incomoda com ele ao ponto de mandar subordinados cutucá-lo, tentando justamente deslegitimá-lo no direito que tem de exercer esta postura anti-donos do poder. Isto sim é incoerência: ao mesmo tempo que se dizem defensores da liberdade de expressão, tentam intimidar uma das poucas vozes dissonantes contra a meia dúzia de famílias que dominam os meios de comunicação em nosso País.

É também perfeitamente legítimo que os proprietários de veículos da chamada “grande” imprensa, desancados por Mino como apoiadores da ditadura que foram, respondam às suas críticas. Mas considero covarde que, em vez de fazê-lo de próprio punho, recorram a garotos de recado.

P.S.: Não falo em nome de Mino Carta. Apesar de estar hospedado no site de CartaCapital, este blog reflete apenas a minha opinião pessoal. Para ler os textos de Mino sobre sua passagem por Veja, clique aqui.

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Brasília deu certo

(Uma das “tesourinhas” de Brasília. Fotos: José Maria Palmieri)

Tenho um amigo que costuma fazer galhofa dizendo que Brasília não deu certo. Acho hilário, mas é calúnia. A capital de Juscelino Kubitschek, Oscar Niemeyer e Lucio Costa não só funciona enquanto cidade como desenvolveu até esquinas. Brasília também tem quebradas, tesourinhas e nomes bizarros de “bairros” como Setor de Diversões Sul ou Setor Terminal Norte. Sinal que possui uma lenda própria. Existe. Deu certo.

“Sou de Brasília, mas juro que sou inocente”. A máxima do poeta candango (nascido em Cuiabá) Nicolas Behr resume o dilema dos habitantes da capital federal: ser xingado e culpado pelos males causados ao País pelos maus políticos. Trata-se, porém, de um paradoxo. Brasília é criticada por gente que não mora aqui por causa dos malfeitos de gente que tampouco mora aqui. Talvez seja este o pecado original, não obrigar os detentores de mandatos a morar onde trabalham, em vez de usar a cidade como dormitório.

(Placa do cine Drive-In, único no Brasil)

Como a “corte” não se transferiu de fato para a nova capital, Brasília não virou uma metrópole, e nem era isso que pretendiam seus criadores. Lúcio Costa pensou numa cidade com 600 mil habitantes no século 21. Não tinha em mente uma cidade grande, e Brasília cresceu até demais: as satélites, que Lúcio pensou que surgiriam só no ano 2000, apareceram antes da inauguração, em 1960, e hoje são 19. A explosão populacional trouxe o trânsito, problemas com o transporte público, violência urbana e falta de planejamento às satélites. E não trouxe vida noturna. Tudo fecha cedo, como se tivéssemos um país para salvar na manhã do dia seguinte.

Por outro lado, a capital cumpriu com louvor o destino de cidade jardim. Nas entrequadras, árvores frutíferas (mangueiras, goiabeiras, amoreiras, abacateiros) e, na grande avenida que corta a cidade de Norte a Sul, o Eixão, ipês se exibem em sequência: primeiro os amarelos, depois os cor-de-rosa, os roxos… por último os brancos. Na verdade, Brasília é uma cidade do interior ampliada. Tem quase tudo que uma cidade grande tem, sendo pequena. Por isso mesmo, o forte da capital é o dia: no começo, mesmo antes de ser traço, Brasília foi um céu. É um céu. A cidade planejada pelo homem está abaixo dele.

(O Beijódromo de Darcy, na UnB)

Vim morar pela primeira vez na capital em 1989, quando os principais personagens do rock Brasília já tinham pegado o caminho de volta ao litoral. Renato Russo do Legião Urbana, Herbert Viana do Paralamas do Sucesso e Dinho Preto do Capital Inicial não moravam mais aqui quando cheguei. Só Cássia Eller. Pertenço mais, portanto, à “Geração Baré-Cola” do que à “Geração Coca-Cola”. Explico: trata-se do documentário de Patrick Grosner, em breve nas telas de cinema, sobre a geração roqueira seguinte, da década de 1990, com bandas como Raimundos, Little Quail and The Mad Birds, Maskavo Roots, Oz. Baré é o nome da tubaína que fez a alegria da infância dessa moçada, hoje entre os 38 e os 46 anos.

(Trailer do documentário Geração Baré Cola, de Patrick Grosner)

Os anos 1990 foram uma época bem animada na capital. Havia um inacreditável bar punk instalado em frente ao Palácio do Planalto, conhecido como “buraco da bandeira” ou “buraco da Marly” –em homenagem à digníssima esposa do então presidente José Sarney. Também havia festas a escolher, vernissages receptivos a penetras descolados e várias casas noturnas que abriam e fechavam rapidamente.

Fiquei fora de Brasília 12 anos e, quando voltei, em 2008, tinha ocorrido um milagre: despoluíram o lago Paranoá, que se tornou um mix de piscinão de Ramos com Angra dos Reis sem nota fiscal –recentemente a PF apreendeu um iate avaliado em 5 milhões de reais, com duas suítes. No lago, bóias de pneu e colchões de ar convivem com barcos, stand up paddles, caiaques e jet skis. Também dá para pegar sol em clubes bacanas, há cachoeiras nas proximidades e um belo parque público com piscinas de água mineral, o Parque Nacional.

(A ciclovia novinha)

Dizem que Brasília é ruim para andar a pé, mas é uma meia verdade. De bicicleta, por exemplo, dá. A cidade é plana e tem ciclovias novinhas –até 2014 serão 600 quilômetros de faixas exclusivas. Muitos hotéis oferecem bikes aos hóspedes gratuitamente. Skatistas também amam deslizar pelo concreto liso e pelos grandes espaços niemeyerianos, sobretudo ao redor do Museu Nacional.

Me atrevo a dizer que o arquiteto só não acertou ao aproveitar pouco esta vocação solar da capital. Seus prédios menos interessantes são os que necessitam de luz elétrica o tempo inteiro, como o Panteão a Tancredo Neves ou o sorumbático Memorial JK, que nada tem a ver com a personalidade luminosa de Juscelino Kubitschek e está mais para tumba de faraó egípcio. As próprias cúpulas que abrigam os plenários da Câmara e do Senado perderiam o bolor se fossem iluminadas naturalmente. Fico pensando se o ar soturno daqueles lugares não favorece pensamentos igualmente soturnos…

(Em homenagem aos 54 anos de Brasília, republico este texto que saiu originalmente na revista Carta Capital em 21/11/2013)

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Juruna, o índio deputado

(Juruna e sua mulher Doralice no dia da posse. Foto: Orlando Brito)

Parece incrível, mas em 125 anos de República o Brasil só teve um parlamentar indígena: Mario Juruna (1942-2002). E nunca mais foi Dia do Índio no parlamento desde que ele saiu de lá –em vez disso, multiplicaram-se no Congresso os inimigos da causa indígena. No final da década de 1970, Juruna se tornara conhecido por empunhar um gravador onde registrava as falsas promessas feitas por altos funcionários do governo de devolver as terras dos Xavante. Dizia: “homem branco mente muito”. Acabou eleito deputado federal pelo PDT de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, com mais de 30 mil votos, na eleição de 1982.

Sua passagem pelo Congresso foi marcada pela tentativa de ridicularizá-lo e de transformá-lo num bufão. Jô Soares, em seu programa humorístico na Globo, logo criou um índio que mal sabia falar o português para que os telespectadores rissem dele. O general João Baptista de Figueiredo, último presidente militar, foi o primeiro a rosnar contra Juruna, dizendo que o Rio de Janeiro só tinha eleito “índios e cantores de rádio”. Seu ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Matos, verbalizou a definição inconfessável que estava em todas as cabeças da direita: “aculturado exótico”.

O líder xavante fora convencido a entrar na política por Darcy, que denunciou a campanha contra o índio deputado feita sobretudo pela imprensa. “Este índio novo, tão melhor armado para a sua própria defesa, provoca grandes antipatias. O seu símbolo maior, Mário Juruna, chega a desencadear ódios como se fosse um ser detestável. É profundamente lamentável que até a imprensa mais respeitável do país, a exemplo do Jornal do Brasil, tenha mantido, durante anos, uma campanha sistemática de desinformação contra o deputado Mário Juruna, através dos procedimentos mais antiéticos, indignos da sua tradição jornalística.” Segundo Darcy, foi “graças à mobilização que ele fez de todos os Xavantes e à declaração de guerra que impôs à sociedade brasileira, que recuperou para o seu povo mais da metade do território tribal, roubado com a conivência de funcionários da FUNAI”.

(Darcy Ribeiro e Juruna. Foto: Orlando Brito)

No dia da sua posse como deputado, em março de 1983, Juruna foi aplaudidíssimo, mais até que Ulysses Guimarães. Decidido a só fazer seu primeiro discurso no Dia do Índio, resolveu falar uns dias antes apenas para reclamar das alfinetadas de Figueiredo. “Estou muito revoltado. Este presidente da República tem que fazer serviço para garantir emprego ao povo brasileiro e não para fazer campanha de calúnia contra as pessoas. Eu sou contra a repressão, contra a violência e também contra a mentira e a sujeira. O presidente não pode falar besteira, que é contra a eleição, que é contra mim. Graças a Deus fui eleito pelo Rio de Janeiro. Os cariocas me deram oportunidade para vir a Brasília, onde existe pecado, existe treteiro, existe corrupto, para protestar contra o que está errado. O governo federal quer ganhar eleições em todos os Estados do Brasil, mas ele não vai ganhar a consciência do povo, do homem carecido. O presidente não pode meter o pau em nenhum companheiro, em nenhum deputado. Ele que salve o Brasil.”

No dia 19 de abril, como prometido, subiu à tribuna e voltou à carga, valente, criticando os ministros do governo militar e pedindo sua demissão. Em setembro de 1983, iria além e chamaria os ministros de ladrões. “Todo ministro é a mesma panelinha, é a mesma cabeça. Não tem ministro nenhum que presta. Pra mim todo ministro é corrupto, ladrão, sem vergonha e mau caráter. Não vou dizer que todo ministro é bom, legal e justo. Vou dizer que todo ministro é do mesmo saco que aproveita o suor do povo trabalhador”.

Figueiredo, furioso, chegou a pedir a cassação de Juruna, mas o deputado acabou recebendo apenas uma censura por parte da Mesa. Em 1985, Mário Juruna denunciaria a tentativa de Paulo Maluf de comprar seu voto no colégio eleitoral. Devolveu o dinheiro e votou em Tancredo Neves. Desgostoso com a política após não conseguir se reeleger em 1986, Juruna morreu em 2002, vítima de diabetes. O único índio deputado morreu pobre e esquecido.

Neste Dia do Índio tão pouco lembrado, reproduzo trechos daquele primeiro discurso histórico de Juruna como deputado federal. Triste constatar como muitas das críticas que ele fazia continuam atuais. Quando vai surgir um novo Juruna no Congresso?

***

Por Mário Juruna, 19/04/1983, Congresso Nacional

Eu quero apresentar exemplo com minha candidatura, porque hoje já podia ter deputado índio. Podia ter deputado aqui no Brasil mas nós não somos culpados. Quem é culpado, é responsável, é essas pessoas que não dão oportunidade pra índio. É por isso que nós só aprende, só estuda o primário.

Então primeiro eu quero falar em nome do companheiro trabalhador, porque vocês é a mesma coisa como índio, como posseiro, é a mesma coisa como lavrador e é a mesma coisa como a tribo. Esse pessoal que está lá em cima, que a gente sofre repressão da autoridade, esse pessoal é o filho do empresário, o filho do deputado, o filho do senador. Esse resto que é o pessoal filho de pobre, eu quero considerar mais ainda esse pessoal que leva sacrifício, pessoal que sofre muito mais que a gente que está vivendo muito bem aqui na Câmara Federal.

E muita gente que achava, quando eu entrei na política, muita gente falava contra Juruna, falava: “Imagina como que Juruna vai entrar no plenário, imagina, o índio, o que é que vai resolver no plenário, como é que índio vai representar índio?” E eu quero saber: imagina, o que é que o branco pode? Talvez índio pode representar melhor do que qualquer deputado, qualquer senador e qualquer da República.

Juruna é o primeiro índio que está representando brasileiro, porque o governo brasileiro não dá oporunidade pra índio, porque ele quer continuar tutelar toda vida índio. E nós não somos tutelados, somos responsáveis, nós somos gente, nós somos ser humano.

Quem não tem consciência, me trata como objeto, me trata como boneca. E quando eu passo aqui dentro de plenário e alguns companheiros à frente de mim e diz cara emburrada é ridículo. Eu não vim aqui fuxicar com ninguém, eu vim aqui pra trabalhar, pra defender povo, eu vim aqui pra lutar. Eu quero que gente começa a respeitar nome de Juruna. Eu quero que gente trata índio brasileiro o mais possível dentro do melhor.

Cada um de nós tem consciência e cada um de nós tem capacidade. Ninguém tem menos capacidade. Todos nós tem capacidade e todos nós tem inteligência e todos nós tem a vontade para assumir onde que existe poder. Eu acho esse já é fruto está nascendo aqui dentro do Brasil, esse já é sinal está nascendo aqui dentro do plenário. Único índio que tá falando hoje, único deputado que tá falando hoje: não é terceiro, não é quinto deputado, não é cinquenta deputado. Se tiver ao menos mais cinquenta Juruna, o Juruna já tinha mudado o Brasil.

Governo da República não pode ser indicado por uma pessoa. Presidente da República tem que ser mais votado com povo brasileiro. Até eu me lembro muito bem que antes de 64 Brasil tinha muito ouro, era muito sagrado e hoje Brasil não tem mais muito ouro não. Está estragado. O Brasil não tem mais ouro. Quem está estragando o Brasil é o próprio governo federal, é este presidente da República que está estragando nosso Brasil, junto com Delfim, esse responsável pelo Brasil.

Quero falar problema do Brizola. O Brizola é homem, foi cassado, como acontece com o índio, por isso eu apoio Brizola e por isso quero dar liberdade para Brizola, porque, como acontece com o posseiro, como acontece com o índio, o Brizola foi expulso do Brasil sem necessidade. E por que o governo não expulsa outro agora? Expulsa todo o ministério, tira todo o ministério! Bota na rua todo mundo!

Se o governo federal, ele tem capacidade, ao lado do povo, se o governo federal assume, como homem, tira meia dúzia de ministro que atrapalha o nosso Brasil. Tirava meia dúzia, o presidente da República, qualquer um de nós apoiava ele. Nós apoiamos o presidente da República e nós levava para crescer mais ainda o nome dele. Desse jeito, ninguém vai apoiar o presidente. Ninguém pode apoiar sujeira. Eu mesmo não pode apoiar sujeira porque eu quero que o presidente muda o nosso Brasil. Porque o presidente é responsável da Nação, o presidente é juízo do povo, o presidente é o pai do povo, o pai do Brasil. Agora, como está hoje, o presidente é o pai do povo? Não existe pai do povo, não. Aqui não tem pai do povo, não.

O presidente foi eleito com empresário, presidente foi compromisso com multinacional, com fazendeiro, com empresário e grande empresário. Se presidente pai do Brasil, presidente segurava toda barra que está acontecendo no Brasil. E aqui gente tá morrendo. E por quê? Porque não tem presidente, não tem autoridade. E toda autoridade é comprada, toda autoridade está se vendendo, quer o dinheiro, quer ganhar dinheiro.

Às vezes, presidente é bom e assessor diretor quem engana o presidente, assessor que não leva verdade para presidente. Por isso que presidente passa mal assessorado. Se tiver assessor bom, se tiver diretor bom que levava recomendação do povo, eu acredito que presidente atendia pedido do povo.

Sou homem do povo, sou homem de campo, quando me criei não encontrei nem um branco, não encontrei nem um avião, nem automóvel, nem estrada; onde me criei era sertão, eu só escutava canto do passarinho, e hoje eu encontro muito pressão contra índio, e invasor, e estrada. A gente está recebendo muita pressão.

Quando eu tive na Holanda, é país pequeno, todo holandês vive igual. Aqui Brasil é muito grande e muita gente tá precisando da terra. Aqui eu quero pedir a V.Excia., presidente, vamos pensar juntos, vamos reformar o nosso Brasil, viu? Vamos dividir, terra é para posseiro, é terra para fazendeiro, é terra para índio, vamos dividir a nossa terra.

Abaixo, trailer do documentário Juruna, o Espírito da Floresta, de Armando Lacerda (o filme será exibido hoje às 15h30 no Canal Brasil)

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Sejamos machos: falemos do medo de avião. Por Gabriel García Márquez

(Jorge Amado e Gabo, dois medrosos de avião, em Nice, 1974. Foto: Zélia Gattai)

Gosto de tudo que li de Gabriel García Márquez (1927-2014), dos textos jornalísticos aos romances –principalmente. Recomendo todos. Se você está se iniciando na arte de ler Gabo, aconselho que comece com Crônica de Uma Morte Anunciada. Se você prefere mergulhar de vez em emoções fortes, vá logo de Cem Anos de Solidão, uma obra-prima da literatura. García Márquez contagia com o vírus da fantasia, assim como o brasileiro José Mauro de Vasconcelos, tão maltratado pela crítica, contagia com ternura.

Conheci Cem Anos de Solidão no primeiro ano de faculdade, aos 17. Tive a sorte de, vinda do interior da Bahia, cair numa turma de malucos geniais na Escola de Comunicação da UFBA. Um deles me contou que, enquanto estava lendo o livro febrilmente, de um tirão só, na Residência dos Estudantes (lindo casarão no corredor da Vitória, em Salvador, que a especulação imobiliária adoraria arrancar da Universidade), caiu uma ratazana do teto bem no meio das páginas. Cataploft. Imediatamente comprei Cem Anos de Solidão, e a saga dos Buendia me hipnotizou. É inesquecível.

Mas tem um texto menos ambicioso de García Márquez que me divertiu muito e tampouco consegui esquecê-lo. Li em um exemplar da revista Nossa América, do Memorial da América Latina, em 1991. E me lembro perfeitamente até hoje. Nele aparecem alguns coadjuvantes brasileiros que também sofriam de pavor de voar: Niemeyer, Jorge Amado… Traduzi do texto texto original, publicado pelo jornal espanhol El Pais em 1980. Para curtir já com saudades do nosso colombiano favorito. Gracias, maestro.

***

Sejamos machos: falemos do medo de avião

Por Gabriel García Márquez

O único medo que nós, latinos, confessamos sem vergonha e até com um certo orgulho machista é o medo de avião. Talvez porque seja um medo diferente, que não existe desde nossas origens, como o medo do escuro ou o próprio medo de que se perceba que sentimos medo. Pelo contrário: o medo de avião é o mais recente de todos, pois só existe a partir do momento que se inventou a ciência de voar, há apenas 77 anos. Eu padeço dele como ninguém, com muita honra, e além disso com uma gratidão imensa, porque graças a ele pude dar a volta ao mundo em 82 horas, a bordo de todo tipo de aviões, e pelo menos dez vezes. Não; ao contrário de outros medos que são atávicos ou congênitos, o de avião se aprende. Lembro com nostalgia os vôos líricos da época do segundo grau, naqueles aviões de bimotores que viajavam entre os pásaros, espantando vacas, assustando as florzinhas amarelas do campo com o vento de suas hélices, e que às vezes se perdiam para sempre entre as nuvens, se espatifavam e era preciso sair à meia-noite buscar suas cinzas do modo mais natural: no lombo de uma mula.

Uma vez, sendo repórter de um jornal de Bogotá, numa época irreal em que todo mundo tinha 20 anos, me mandaram, com o fotógrafo Guillermo Sánchez, perseguir uma má notícia em um daqueles Catalinas anfíbios que tinham sobrado da guerra. Voávamos sobre a selva de Urabá sentados em cima de sacos de vassoura, porque assentos não havia naquele sepulcro voador, nem uma aeromoça de consolação a quem pedir o número do telefone no paraíso, e logo o avião se meteu por onde não era e se extraviou em um aguaceiro bíblico. Não só chovia fora, como também dentro. Agarrando-se a duras penas, o co-piloto nos levou um jornal para que cobríssemos a cabeça e vimos, com assombro, que mal podia falar e que suas mãos tremiam.

Esse dia aprendi algo muito alentador: os pilotos também sentem medo, só que neles, como nos toureiros, não se nota tanto no tremor das mãos quanto nas superstições. Um amigo espanhol –tão temeroso de avião que nunca viajava sentado– descobriu isso numa noite ruim de inverno em que o convidaram a presenciar a decolagem na cabine de comando. Era em Nova York, durante uma tempestade de neve, e a tripulação permaneceu muito serena na cabeça da pista, até que deram a ordem de decolar. Então, como se fosse um requisito técnico imprescindível, todos fizeram o sinal da cruz ao mesmo tempo. Meu amigo, compreendendo que, no fundo da alma, também os pilotos têm medo, perdeu para sempre o medo de avião.

Eu tive uma prova ainda mais sutil voando entre as estrelas sobre o oceano Atlêntico. Falando de tudo, perguntei ao comandante por outro piloto amigo que havia sido meu companheiro de escola. Eu ignorava, claro, que ele havia se espatifado no aeroporto de Tenerife quando tentava aterrissar no meio de uma borrasca. O comandante me contou de outra maneira, mais reveladora:

–Se retirou da companhia faz três anos, nas ilhas Canárias.

No entanto, o bom medo de avião não tem nada a ver com as catástrofes aéreas. Picasso disse muito bem: “Não tenho medo da morte, e sim do avião”. Digo mais: muitos medrosos perderam o medo de avião depois que sobreviveram a um desastre. Eu o contraí como uma infecção incurável voando à meia-noite de Miami a Nova York, em um dos primeiro aviões a jato. O tempo era perfeito e o avião parecia imóvel no céu, levando a seu lado essa estrela solitária que acompanha sempre os bons aviões, e eu a contemplava pela janela com a mesma ternura com que Saint-Exupéry via as fogueiras do deserto do seu avião de alumínio. Então, na lucidez da vigília, tive a consciência da impossibilidade física de um avião se sustentar no ar, e jurei a mim mesmo nunca mais voar.

Cumpri a promessa durante dez anos, até que a vida me ensinou que o verdadeiro medroso de avião não é o que se nega a voar, mas o que aprende a voar com medo. É uma espécie de fascinação. De todos os temerosos célebres que conheço, o único que não voa de jeito nenhum é o arquiteto Oscar Niemeyer. Já o seu compatriota Jorge Amado, que é um timorato aéreo dos grandes, teve a audácia poética de voar em um Concorde de Paris até Nova York, para ali pegar um navio até o Rio de Janeiro. O escritor venezuelano Miguel Otero Silva e o diretor de cinema brasileiro Ruy Guerra, por diferentes caminhos, chegaram à conclusão que a única maneira de combater o medo de avião é voando com medo, e o combatem quase todos os meses. Carlos Fuentes, que não voou durante quinze anos e fazia umas viagens épicas de oito dias, mudando de trens, do México até Nova York, não só voltou a voar como, na semana passada, foi fazer uma conferência na Universidade de Indiana em uma avioneta monomotor. Não há, porém, entre os grandes especialistas do medo de avião, nenhum melhor que dom Luis Buñuel, que aos 80 anos continua voando impávido, mas morto de medo. Para ele, o verdadeiro terror começa quando tudo está perfeito no vôo, e, de repente, aparece o comandante em mangas de camisa e recorre a aeronave em passos lentos, saudando cada um dos passageiros com um sorriso radiante.

Minha mãe não voou mais que duas vezes em sua longa vida. Nunca sentiu medo, mas conhece muito bem o de seus filhos –que são doze–, de modo que mantém sempre uma vela acesa no altar doméstico para proteger a qualquer um de nós que esteja no ar. Sua fé é tão grande, que faz pouco tempo a escavadeira de um de seus filhos –engenheiro civil– caiu numa vala. Minha mãe ouviu falar que o resgate podia custar mais de 100 mil pesos, e disse a meu irmão que não gastasse nem um centavo, pois ela ia acender uma vela para tirar a escavadeira do buraco. Meu irmão a repreendeu: “Só mesmo a senhora para achar que uma vela pode tirar uma escavadeira de uma vala”. Minha mãe, impassível, lhe respondeu:

–Como que não pode tirar, se consegue segurar um avião no ar!

Em Camaradas

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Galeano: “Eu não seria capaz de ler de novo ‘As Veias Abertas…’, cairia desmaiado”

(Galeano em Brasília. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Em 1998, entrevistei a escritora Rachel de Queiroz (1910-2003) e ela me confessou sentir “antipatia mortal” por O Quinze, o clássico da literatura brasileira que publicou aos 20 anos, em 1930, e que, desde então, seria sua “obra mais importante e mais popular” (tudo quanto é enciclopédia se refere assim ao livro). O mesmo acontece com As Veias Abertas da América Latina e o escritor uruguaio Eduardo Galeano.  Publicado em 1971, quando Galeano tinha 30 anos, a obra até hoje o persegue. É sempre nomeado como “o autor de As Veias Abertas…“, o que, pelo visto, o incomoda mesmo porque tem mais de 30 livros além dele.

Na entrevista coletiva que deu na sexta-feira 11 em Brasília, onde veio para ser o escritor homenageado da 2ª Bienal do Livro e da Leitura, Galeano ouviu provavelmente a milionésima pergunta sobre Veias Abertas. “Faz 40 anos que você escreveu As Veias Abertas da América Latina. Quais são as veias abertas hoje em dia?” E ele, em um português bastante razoável: “Seria para mim impossível responder a uma pergunta assim, especialmente porque, depois de tantos anos, não me sinto tão ligado a esse livro como quando o escrevi. O tempo passou, comecei a tentar outras coisas, a me aproximar mais à realidade humana em geral e em especial à economia política porque As Veias Abertas tentou ser um livro de economia política, só que eu ainda não tinha a formação necessária. Não estou arrependido de tê-lo escrito, mas é uma etapa superada. Eu não seria capaz de ler de novo esse livro, cairia desmaiado. Para mim essa prosa de esquerda tradicional é chatíssima. O meu físico não aguentaria. Seria internado no pronto-socorro… ‘Tem alguma cama livre?’, perguntaria.” Risadas.

Aproveito e emendo: mas o que você achou de Chávez dar o livro para o Obama? Obama entenderia As Veias Abertas…? “Nem Obama nem Chávez”, responde Galeano para gargalhada geral. “Claro, porque ele entregou a Obama com a melhor intenção do mundo Chávez era um santo, cara mais bondoso que esse eu não conheci, mas deu de presente a Obama um livro em uma língua que ele não conhece. Então, foi um gesto generoso, mas um pouco cruel.”

Eu nunca tinha visto o grande escritor uruguaio de perto. É mais baixo do que imaginava, cerca de 1m70. Bastante frágil, aparenta ter mais do que seus 73 anos. Ele mesmo comenta que a maioria dos escritores é de esquerda e, como tal, chegados a uma boemia e isso não faz bem à saúde… Uma menina pergunta: “A idade não é boa para os jogadores de futebol. E para os escritores?” Galeano discorda. “Depende. Tem velhos muito mais jovens que os velhos velhíssimos e tem velhos que você acha que estão esperando a morte e surpreendentemente acabam ganhando uma partida por 8 a zero. Não depende da biologia nem do prognóstico dos profetas. Não depende de ninguém. O melhor que o futebol tem como esporte a festa que o futebol é, a festa das pernas que jogam, a festa dos olhos é a capacidade de surpresa, de assombro. Na verdade ninguém sabe o que vai acontecer. E menos ainda os especialistas. Aqueles doutores do futebol são seres temíveis, perigosíssimos para a sociedade e o mundo em geral.”

Outro jornalista espeta: “Por que a esquerda não deu certo na América Latina?” Galeano não se faz de rogado: “Algumas vezes deu certo, algumas vezes, não. A realidade é mutável, a realidade política e todas as outras por sorte. Senão seríamos estátuas, estaríamos congelados no tempo. Não é verdade que a esquerda não deu certo. Deu certo e muitas vezes foi demolida por ter dado certo, por ter tido razão, porque o que a esquerda predicou, em certo momento na América Latina, resultou ser a verdade, então foi punida. Punida pelos golpes de Estado, ditaduras militares, períodos prolongadíssimos de terror de Estado, crimes horrorosos cometidos em nome da paz social, do progresso. Da convivência democrática, imaginem! Que democracia e que convivência são essas? Tinham que perguntar: ‘do que está falando, senhor?’ As coisas são muito mais complexas do que parecem. Em alguns períodos, também, a esquerda comete erros gravíssimos e em outros, não, faz o que deve ser feito da melhor maneira, até além do que o próprio movimento de massas estava esperando. A realidade sempre tem esse poder de surpresa. Te surpreende com a resposta que dá a perguntas nunca formuladas. E que são as mais tentadoras. O grande estímulo para a vida está aí, na capacidade de adivinhar possíveis perguntas não formuladas.”

Galeano está cansado, foram muitas horas de viagem para chegar à capital federal, e quer encerrar a entrevista. Eu protesto: “Mas e Mujica? Você não vai falar de Mujica?” Ele não resiste e se senta de novo. “Estou meio cansado, estou fatigado de falar de Mujica, porque todo mundo fala dele! Até em outros planetas se fala de Mujica. Em Marte, Júpiter… É incrível a capacidade de ressonância que Mujica tem. E ele é muito meu amigo, já faz muitos anos. A única coisa que posso fazer para incorporar um grão de areia a esta praia imensa de Mujica caminhando pelo mundo seria contar uma piccola história que dá ideia da qualidade humana do personagem.”

E começou a narrar, saborosamente, como é de seu feitio:

“Faz uns quatro anos não tenho interesse em lembrar direito a data fui operado de câncer. Foi um câncer sério, agudo. Tomei uma anestesia muito forte, dessas que não desaparecem rápido. E estava sozinho na cama do hospital, esperando que passasse o efeito da anestesia. Ou seja, mais dormido do que acordado. Sem saber muito o que acontecia, onde estava, delirando. E neste período, estando sozinho em uma cama sozinho, não, acompanhado pelo câncer, mas o câncer não é um amigo confiável. Não te recomendo. Bem, estava eu ali e volta e meia delirava. Como sou muito futeboleiro, um religioso da bola, tinha delírios futebolistas que me levaram aos anos de infância, quando jogava na rua, com bolas improvisadas, feitas com trapos velhos. E em uma dessas fugas, comecei a bater bola. Como se fosse uma múmia egípcia que tinha errado de domicílio, jogando futebol contra ninguém e sem bola nenhuma, só na imaginação. Chutava a bola e ela voltava, chutava e ela voltava. Tudo debaixo do lençol. E nada, a bola continuava, como se estivesse morta de riso da minha estupidez de achar que podia com ela. ‘Não, você não pode comigo’. Numa dessas, senti um peso em cima dos meus joelhos. Aí começo a recobrar a realidade e vejo alguém que conheço, uma voz que reconheço, de um amigo. E pergunto:

O que você está fazendo aqui?

E ele:

Isso é maneira de receber um amigo?

Não importa, quero saber o que você faz aqui. Está doente também?

Que é isso, estou saudabilíssimo. O enfermo é você.

Estou sabendo. Obrigado pela notícia, mas já estou sabendo.

O doente é você, está fodido, irmão. Eu vim te visitar. Agora, não sabia que se recebia um amigo assim, chutando-o, chutando-o e chutando-o. Não é muito educado.

Continuamos nessa até que eu falei:

Olhe, chega. Sua função não é estar aqui brincando comigo. Você é o presidente da Repoública e sua função é governar. Mujica, você é o presidente! Vai governar este país já! Estamos precisando de sua participação ativa, desinteressada, importantíssima para o nosso povo. Não perca mais tempo comigo.

Ah, bela maneira de ser amigo, hein?

Será bela ou será feia, mas é a única maneira para você. Você é o presidente! Além disso, para piorar, todo mundo gosta de você e quer que continue sendo presidente por uns 300 anos mais. Se você não gosta, foda-se.

E aí acabou.”

Na saída, consigo falar a Eduardo Galeano do enorme prazer que sinto em conhecê-lo pessoalmente e lhe conto que adoro O Livro dos Abraços. Ele olha para mim e diz: “Eu também”.

Ufa.

Em Camaradas

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