Dicas literárias para um Natal vermelho III

Como já é tradição, as dicas de compras de fim-de-ano do blog. Se é para consumir, consumam livros! Vejam a lista do ano passado aqui e a do retrasado, aqui. (É possível que até o Natal esta lista seja atualizada, não percam.)

LANÇAMENTOS:

Infância Roubada – Editado pela Comissão da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva” e organizado pela jornalista Tatiana Merlino, o livro conta a história das crianças vítimas da tortura durante o regime militar. Foram colhidos 44 depoimentos de sobreviventes, hoje adultos, desse trauma absurdo. Tocante e revoltante, para não esquecermos jamais dos horrores da ditadura. O livro é distribuído gratuitamente pela comissão, mas o número de exemplares é limitado. Para conseguir um, escreva para comissaodaverdadesp@al.sp.gov.br ou baixe um exemplar gratuitamente aqui.

casa

A Casa da Vovó – Durante dez anos, o jornalista Marcelo Godoy ouviu os agentes da repressão para contar a história do famigerado DOI-Codi, em São Paulo, principal centro de tortura da ditadura militar. “Casa da vovó” era como os policiais chamavam o lugar, palco de choques elétricos, paus-de-arara, afogamentos e outras técnicas horripilantes. Foi lá que morreram “suicidados” o operário Manoel Fiel Filho e o jornalista Vladimir Herzog (na verdade, torturados até a morte). Alameda Editorial, 612 págs., R$69.

irmao

O Irmão Alemão – Confesso a vocês que, como romancista, acho Chico Buarque um excelente compositor. Os livros dele nunca me conquistaram. Benjamim, por exemplo, talvez seja uma das piores coisas que já li na vida. A história do irmão alemão de Chico, porém, sempre me deixou curiosíssima. Sempre tive vontade de fazer essa reportagem: Sergio Buarque, pai de Chico, teve um filho na juventude, na Alemanha, de quem ninguém nunca ouviu falar. Chico Buarque foi atrás do irmão desaparecido e escreveu um livro. Vamos ver se ele é melhor repórter que ficcionista (que me perdoem os fãs). Companhia das Letras, 240 págs., R$39,90.

bandido

Bandido Raça Pura – Reunião de perfis de celebridades, anônimos e até animais escritos pelo jornalista Fred Melo Paiva para diversas publicações. Com seu texto leve e despretensioso, Fred escolheu os textos do livro, publicados em diversos veículos, por um critério único: só entraram os seus favoritos. Ideal para ler na praia. Arquipélago Editorial, 256 págs., R$29,90.

trotsky

Trotsky e a Revolução Permanente – Considerado um dos maiores especialistas brasileiros na obra de Leon Trotsky, Carlos Eduardo Rebello de Mendonça “biografa”, neste livro, o conceito de revolução permanente do revolucionário russo. Garamond, 224 págs., R$29,40.

mascarados

Mascarados – O livro de Esther Solano, Willian Novaes e Bruno Paes Manso revela quem são os black blocs, os mascarados demonizados pela mídia que se integraram às manifestações de junho de 2013 e até hoje são processados criminalmente. Através de relatos dos próprios black blocs, tenta-se desmistificar o ativista detrás da máscara e explicar sua estratégia. Também foi ouvido o coronel da PM agredido em uma das manifestações. Geração Editorial, 336 págs., R$34,90.

CLÁSSICOS:

bunuel

Meu Último Suspiro – Provavelmente a melhor autobiografia jamais escrita. Lembrei deste livro outro dia, ao ver os energúmenos que andam por nosso Congresso Nacional dizendo barbaridades impunemente. Buñuel dizia que algumas discussões se resolvem melhor com um belo soco na cara. E não é verdade? A Cosac&Naif recentemente relançou o livro, mas você pode achá-lo no sebo Estante Virtual a partir de R$9,80. Ou baixá-lo grátis, em espanhol, aqui.

dickens

Tempos Difíceis – Sou apaixonada por Charles Dickens desde a infância, quando li Um Conto de Natal, uma fábula sobre avareza e ternuraNeste livro, de 1854, o autor inglês faz uma crítica às condições de vida dos trabalhadores ingleses de então, ao contar a história de Thomas Gradgrind e sua família. Em uma cidade cinza, operários sendo explorados até à exaustão e até mesmo crianças sendo obrigadas a trabalhar. Que bem fez ao mundo o surgimento do socialismo… Boitempo, 336 págs., R$54.

O folclore negro do Brasil AF

O Quilombo dos Palmares – Um dos maiores estudiosos do negro no Brasil, o baiano Edison Carneiro (1912-1972) foi o primeiro a se debruçar sobre o Quilombo dos Palmares, desfazendo mitos sobre seu líder, Zumbi, neste livro editado pela primeira vez em 1947 (escrevi sobre ele aqui). É possível lê-lo grátis na internet (aqui), comprar no sebo Estante Virtual a partir de R$15 ou comprá-lo novo nesta edição da Martins Fontes por R$46,70.

HQ

crumb

A Mente Suja de Robert Crumb – O norte-americano Crumb deve ser o quadrinista mais odiado pelas feministas que já existiu. Eu nem ligo. Crumb olha para as mulheres com avidez, as “objetifica”? Verdade. Mas também é verdade que ele vive aos pés delas… Além disso, sua crítica ao american way of life, ao homem branco limpinho norte-americano, é impagável. Neste volume, uma edição de luxo com suas mais escandalosas e polêmicas histórias. Veneta, 232 págs., R$69,90.

glauco

Sapos, Cobras e Lagartos – Morto precocemente aos 53 anos, em 2010, assassinado, o cartunista Glauco Villas Boas exibe neste livro sua faceta de chargista político. Aí estão reunidas 200 das mais de 3000 charges que Glauco fez para a Folha de S.Paulo, com personagens que ainda estão na política ou que entraram para a história. Olhares, 240 págs. R$45.

INFANTIL

4contos

4 Contos - Este foi, sem dúvida alguma, o melhor livro que li para o meu filho pequeno este ano. Escrito para a filha e o neto, é o único livro infantil que o poeta norte-americano e.e. cummings  escreveu. Pura fantasia e surrealismo, que as ilustrações de Guazzelli transformaram numa obra belíssima. Recomendo fortemente. CosacNaify, 48 págs., 39,90.

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Por um masculinismo CONTRA o machismo

menino

(Roger Mayne, 1957)

Tenho dois filhos homens com uma diferença de 17 anos entre eles. E sempre me esforcei por ser uma mãe que não reforça estereótipos sobre masculinidade nem reprime a sexualidade ou a personalidade de nenhum dos dois pelo menos, claro, não de forma consciente. Um dia, quando o maior tinha uns 8 anos de idade, resolvi lhe contar que quando eu era pequena os mais velhos viviam dizendo que homens não choram. Ele me olhou como se eu tivesse falado a coisa mais bizarra do mundo e disse:

– Sério? Nossa, que estranho.

Recentemente, resolvi repetir a “experiência” com o mais novo, de 6 anos. “Você sabia que quando eu era pequena diziam que homens não choram?”, perguntei. E ele respondeu:

– Mas eu não sou homem, sou uma criança!

Sim, houve um tempo em que homens adultos e mesmo as crianças do sexo masculino eram proibidos de chorar. Demonstrar dor ou tristeza através de lágrimas era considerado sinal de fraqueza, de “pouca macheza”. Coisa de “mulherzinha”. Na época do meu pai, também era malvisto que um homem manifestasse afeto fisicamente por outro, ainda que fosse seu filho. Pais não podiam abraçar e beijar os filhos homens (e, em alguns casos, nem as filhas mulheres). Que estranho, diriam meus guris hoje em dia.

Toda essa repressão foi a responsável por gerações inteiras de homens travados em termos afetivos, incapazes de fazer demonstrações de carinho públicas e privadas com seu amor (não excluo os gays) ou com seus filhos. Em efeito cascata, outros homens criados por estes homens também se tornariam assim, para sofrimento deles mesmos e de quem estava a seu redor. O fenômeno que vitimou estes homens, assim como vitima as mulheres, se chama machismo.

Sempre me impressionou como os homens, ao contrário de nós, mulheres, nunca procuraram refletir sobre si próprios. Talvez porque passar a pensar sobre a natureza masculina fosse considerado (e ainda é) “frescura”, coisa de homem “sensível”, o tipo mais desprezado entre todos, até mesmo pelas mulheres. Homem “de verdade” não encana com essas coisas. Machismo.

Como é que o homem aceita bovinamente os estereótipos sobre o que é ser homem? Nós, mulheres, estamos cada vez mais nos libertando deles, e os homens, não. Nem sequer questionam que um homem para “ser homem” precise “parecer homem”. Que não possa ter gestos ditos “femininos”. Que não possa admitir nunca vulnerabilidades e fraquezas porque isso é “ser frouxo”. Que tenha que se vestir de determinada maneira. Até as cores são um tabu para os homens: homem que é homem não usa cor-de-rosa. Que cor uma mulher não pode usar? Que roupa uma mulher não pode usar? Tem aspectos que somos mais livres do que eles… A diferença é que nós nos rebelamos. Eles não. Ainda não.

O mundo está mudando e vejo aparecer alguns homens se esforçando na tentativa de transformar seu destino. Li outro dia no El Pais que os espanhóis começam a se juntar em grupos para discutir como podem ser melhores pais, dividindo tudo com as mães em relação aos cuidados dos filhos, inclusive as tarefas domésticas. Estes homens não são nossos inimigos. São nossos parceiros.

No Brasil, há cada vez mais pais jovens que não aceitam o papel que lhes cabia na educação dos filhos, de serem os disciplinadores, os manda-chuvas, os responsáveis pela parte mais dura da criação. “Vou contar para o seu pai”, diziam as mamães de minha infância. Tínhamos medo de nossos pais. A maioria dos homens que eu conheço não quer ser esta presença amedrontadora e distante na vida de seus filhos. Quer ser amado por eles. Me contaram do surgimento de cursos específicos para homens interessados em melhorar sua afetividade, para conviver melhor e de forma mais proveitosa com aqueles que amam. Que bom.

Tem outras questões que ficam rondando minha cabeça. É verdade que as estruturas de poder da sociedade são feitas para beneficiar os homens. É possível que uma maioria deles ache isso ótimo e deseje de fato deter este poder assim como é possível que também a maioria das mulheres deseje poder, ou não? Mas e os homens que não desejam ter todo este poder? Que não se enquadram neste modelo que se espera que sigam apenas por serem homens? Acaso não são vitimados por estas estruturas tanto quanto as mulheres?

Me revolta ver algumas feministas defenderem que “todo homem é um estuprador em potencial” porque a sociedade os fez assim principalmente porque é mentira. Se fosse verdade, para começo de conversa, os gays teriam que entrar nessa conta. Ou não são homens? Gays são estupradores em potencial? Hum… Difícil. Não é à toa que tem feminista radical, por absurdo que pareça, cometendo transfobia. Se a sociedade machista fez com que muitos homens sejam estupradores em potencial? Claro, taí o deputado Bolsonaro que não me deixa mentir. Mas a sociedade machista também moldou mulheres canalhas. Taí a apresentadora Rachel Sheherazade que não me deixa mentir.

Acho uma injustiça ver os homens que tentam se juntar à luta feminista serem desprezados por algumas delas e chamados zombeteiramente de “feministos”. Ou sendo reduzidos a “uzomi”. Isso reforça a ideia de que feminismo é mulher contra homem, quando deveria ser mulher e homem contra o machismo. Não se pode “roubar o protagonismo” das mulheres nesta luta, dizem algumas feministas, como se o machismo só atingisse a nós e não a eles também. Como se fosse real este desejo por parte deles de “roubar o protagonismo” da mulher. E se eles estiverem querendo apenas ser solidários, caminhar ao lado ou por que não? se unir a uma luta que também consideram sua?

Rejeitados pelas feministas, os homens que se revoltam com o machismo deveriam criar um movimento próprio. Deviam perder o medo de parecer “menos homens” e discutirem mais suas questões. Deviam refletir se este modelo machista de sociedade também não os agride, não os oprime e não os prejudica enquanto seres humanos, assim como acontece com as mulheres.

Infelizmente, por conta da omissão destes homens, todos os “ismos” relacionados ao masculino foram usurpados pelo machismo para serem utilizados contra o feminismo: hombrismo, masculinismo. A hipótese de um masculinismo que pudesse significar uma luta análoga ao feminismo, virou uma revoltinha de machistas birrentos e com pouco tutano contra as conquistas femininas. Como se as mulheres estivessem querendo roubar o lugar dos homens e eles precisassem se proteger. Patético.

Resgatado, o masculinismo poderia se tornar um “feminismo do homem” contra o machismo. Acredito que todos nós, homens e mulheres que não nos beneficiamos do machismo da sociedade, somos vítimas dele. Todos, homens e mulheres que sofremos com o machismo, temos o direito de lutar contra ele. Homens: à luta, companheiros.

UPDATE: Nem machistas nem fascistas. Mandaram para mim este post sobre o Coletivo de Homens Anti-Patriarcais da Argentina (veja aqui). Como pode ser bacana esta luta, hein? Muito bom.

UPDATE 2: Este vídeo do movimento brasileiro Homens, libertem-se é muito bom.

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Palha não entra: o seleto (e secreto) clube dos cannabiers ou maconheliers

cannabier

(Foto: coletivo Prensa420)

Toda vez que perguntam ao presidente do Uruguai, Pepe Mujica, o porquê de sua defesa da legalização da maconha, ele dá duas razões principais: o combate à violência resultante do narcotráfico e a necessidade de garantir ao usuário segurança sobre a erva que irá fumar. No Brasil, a realidade dos fumadores de maconha é se submeter ao risco de adquirir o produto das mãos de um traficante sem saber exatamente o que está comprando ou… burlar a lei e plantar alguns pés de maconha em casa para consumo próprio.

Embora proibido, o autocultivo  tem não só encontrado cada vez mais adeptos entre nós como começam a surgir verdadeiros connoisseurs da planta, capazes de identificar a qualidade ou não de um baseado apenas pela aparência da erva. Depois dos baristas (especialistas em café), sommeliers (vinho ou cerveja) e chocolatiers, eis que surgem os cannabiers ou maconheliers: os especialistas em maconha, uma elite de usuários preocupada com o sabor, o cheiro e o tipo de “onda” que a maconha vai dar.

O termo cannabier já foi utilizado em um artigo científico pelo antropólogo Marcos Verissimo, que apresentou, em 2013, sua tese de doutorado em Cultura Canábica na UFF (Universidade Federal Fluminense). O neologismo, escreveu Verissimo, “foi cunhado em função da aproximação significativa entre os círculos de apreciadores de cannabis oriundas de autocultivos domésticos e os círculos de apreciadores de vinhos (sommeliers). Quando as flores da maconha atingem o ponto de maturação, as plantas são cortadas, tratadas (processo denominado manicura), passando então à fase do secado (que pode durar algumas semanas). Portanto, da semeadura à degustação do resultado, o importante é ter sabedoria e paciência para se saber admirar o processo, como ocorre no caso dos vinhos mais consagrados”.

Assim como os vinhos, as floradas também ganham nomes –Moby Dick, Critical Mass, Destroyer, Blueberry– e são resultado da assemblage, digamos assim, entre plantas famosas no desconhecido mundo dos plantadores de maconha. Os cultivadores assinam suas criações sob pseudônimo e compartilham experiências pela internet, sobretudo através do site Growroom.

Quem é o cannabier? Em geral é jovem, profissional liberal e homem. Como me disse um deles, “um bando de machões que cultivam flores”. Há garotas, claro, que desfrutam dos blends especiais fornecidos por esta galera, mas as cultivadoras ainda são minoria. São os meninos que mais mergulham a fundo nas técnicas e macetes para produzir plantas dignas de campeonato. Verdadeiros nerds da maconha, os caras sabem absolutamente tudo sobre o assunto. Como seus congêneres especializados em cafés, chocolates, cervejas ou vinhos, é uma atividade que envolve muito orgulho e vaidade. Se chegarmos algum dia à legalização do uso e plantio, seguramente figurarão, ao lado dos enochatos, os maconhochatos.

tricomas

(A flor da maconha com os tricomas. Foto: coletivo Prensa420)

Alberto* é advogado e cultiva meia dúzia de pés de maconha em um quarto, em sua casa, no Rio, sob luz artificial. Sua produção costuma causar sensação entre os amigos. O segredo, conta, é “frustrar sexualmente” a planta. Como a maconha que dá barato é apenas a planta fêmea, cultivadores experientes como ele sabem que, quanto mais a planta estiver pronta para a polinização e ela for impedida de acontecer, mais produzirá tricomas (os “cristais”, parte da planta rica em canabinoides). Ou seja, ficará mais potente. Daí a expressão “sin semilla” (sem semente) para designar a erva que é um must entre os maconhólatras. Para maximizar a produção de tricomas pela planta, são usadas técnicas como pequenas “massagens” para quebrar os galhos, e a água e a luz é milimetricamente controlada –na última semana antes da colheita, água e luz são cortadas, potencializando ainda mais a maconha.

“Meu carma no reino vegetal está péssimo”, brinca Alberto. Além de garantir a frustração sexual da pobre plantinha para seu prazer, o advogado diz que também é fundamental oxidar a flor após a colheita, fechando-a em um recipiente hermético por semanas ou meses. Qual a diferença de uma maconha para outra? “Na verdade, tem um tipo de maconha para cada pessoa ou momento. Se a pessoa quer relaxar, pode fumar uma Indica. Se prefere algo mais estimulante, uma Sativa. Se fosse permitido o autocultivo, o ideal era ter pelo menos três tipos de planta em casa: uma Indica, uma híbrida e uma Sativa”. Em uma festa recente de cultivadores, ele conta, chegaram a aparecer 37 tipos de flores diferentes.

Se os vinhos possuem os taninos, a maconha possui terpenos, moléculas responsáveis pelo odor da planta. Os terpenos vão influenciar no cheiro e no sabor da erva ao ser fumada. Falam-me de “notas” de manga, madeira, limão… “Fumamos um beck que deixava retrogosto de queijo”, me garante o antropólogo Paulo. No quintal de sua casa em Brasília, meio oculto entre três pés de mandioca para confundir eventuais helicópteros, uma nova planta de maconha começa a florescer. Ele pratica o autocultivo há dez anos. Um único pé é o suficiente para o consumo dele e de sua mulher, Marina, e ainda sobra para apresentar aos amigos. Como o ciclo da planta pode chegar a um ano, enquanto a outra cresce, eles fumam a que colheram.

Paulo é um cultivador orgulhoso de sua produção, mas aponta o que vê como exageros de alguns colegas com suas plantinhas de estimação. “Tenho um amigo que comprou até uma máquina de moer coco para fazer uma palha que ele usa como terra. Outro, italiano, controlava pelo celular a milimetragem da água e os nutrientes da planta que estava cultivando lá em Roma”, ri. “O que eu faço é basicamente mijar na planta, que é um NPK (fertilizante) natural. Coloco uns nutrientes na terra, mas não muitos porque acho que interfere no gosto”.

blasézismo de seu comentário contrasta com o ar triunfal que exibe ao mostrar, dentro de um vidro, os “camarôes” ou berlotas (flores já secas) da última safra, em que chegou a um resultado “excepcional” –diz isso como se estivesse falando de grãos de café ou das uvas de um hipotético vinhedo. “Consegui produzir uma cannabis com resina leitosa, que dá uma onda mais excitante, criativa. A resina marrom é down, baqueia. Não serve para fumar e trabalhar, deixa a pessoa sem energia, largadona no sofá”, explana.

budtender

(Budtender em ação no Colorado)

No Colorado, nos Estados Unidos, onde o uso recreativo da maconha, além do medicinal, foi liberado, há inclusive uma profissão em alta, a de “budtender” (trocadilho com bartender, sendo que “bud” é “camarão”). Trata-se do cara ou da mina que atende os clientes das lojas de maconha, exatamente como os vendedores das cervejas artesanais agora em moda no Brasil –ou como os funcionários dos coffee shops holandeses que sempre fascinaram os brasileiros. Capazes de indicar qual o tipo de maconha que você “precisa”, os budtenders possuem formação profissional, fornecida por cursos especializados. O cannabusiness anda tão turbinado por lá que não estranhem se surgir um MBA em Maconha nos próximos anos.

“Que tipo de sensação você quer ter?”, “você é usuário frequente ou vai experimentar pela primeira vez?”, “quer maconha para trabalhar ou para jogar videogame e depois chapar?” pergunta o budtender ao freguês. A depender da resposta, o vendedor irá indicar que tipo de maconha é a ideal para o usuário. Apenas no primeiro mês de legalização para uso recreativo, estima-se que a economia da cannabis movimentou cerca de 14 milhões de dólares no Colorado, e ser budtender virou uma possibilidade de emprego atraente para os jovens –a mais “hot” delas, segundo alguns (leia mais aqui).

No Brasil, até outro dia, o máximo que se distinguia sobre os tipos de maconha era entre a maconha “solta”, produzida no Nordeste, ou a “prensada”, que vem do Paraguai. Algumas maconhas nacionais chegaram a alcançar fama, como a mítica “manga rosa”, de Pernambuco, ou a “cabeça-de-nego”, da Bahia. Reza a lenda que algumas maconhas campeãs mundo afora vieram delas. Houve um verão, em 1987, em que milhares de latas de maconha chegaram à costa brasileira, atiradas ao mar pela tripulação de um navio australiano interceptado pela Marinha, e, a partir daí, baseados potentes passaram a ser chamados de “da lata”. O curioso e hilário episódio virou um documentário dirigido por Tocha Alves e Haná Vaisman em 2012.

Mas sofisticação como se tem agora, nunca se viu. No site especializado Leafly, é possível descobrir que variedade de maconha “combina” mais com o temperamento ou necessidade do usuário, através de um teste online: se pretende ficar falante, relaxado, feliz, eufórico, sonolento… Ou por razões medicinais: as mais indicadas para insônia, fadiga, náusea (um efeito colateral comum a quem se submete à quimioterapia), pressão ocular, stress…

É tanto conhecimento que já começa a irritar. “Tem muita gente cuspindo no prato paraguaio que comeu”, provoca o psicanalista Pierre, de São Paulo. “Chegou-se a um nível de refinamento que outro dia fui numa festa e, quando souberam que o baseado que eu estava oferecendo era paraguaio disseram: ‘ah, não quero, não’. Que é isso? O fumo paraguaio tem seu valor, porque está sempre aí, nunca negou fogo. Qualquer dia acabará virando cult.”

O psicanalista admite, porém, que é muito difícil voltar para a maconha paraguaia, ou seja, para a erva vendida pelo narcotráfico, depois que se experimenta um baseado feito com cannabis autocultivada. “Quando se planta, além de fugir das redes de violência, se garante que a maconha não terá aditivos, porque o fumo paraguaio ninguém sabe o que contém. O nosso, não, é tóxico sem agrotóxico”, diz. Outra diferença é que, como em qualquer plantio em pequena escala, artesanal, todas as etapas são acompanhadas de perto pelo cultivador para que resulte numa erva “gourmet”, ao contrário do que ocorre com o narcotráfico, que utiliza grandes plantações e aproveita tudo da planta: galhos, folhas e até sementes. “O autocultivador, não, só aproveita as flores.”

Pierre cultivava um pezinho em casa, ao qual apelidara carinhosamente de “meu pé de maconha-lima”, e ter que causar a tal frustração sexual da planta lhe trouxe dilemas éticos. “Deixar a plantinha sem água na última semana mexia comigo, mas pensei em algo que me pacificou: adoro foie gras e não estou nem aí para o que fazem com o ganso. Então foda-se se a planta é torturada.” Acabou parando de plantar por achar trabalhoso demais e hoje fuma no “se-me-dão”, isto é, pede aos amigos maconheliers.

Rara mulher entre os cultivadores, a produtora musical Carla prefere não recorrer às “torturas”, fertilizantes e nutrientes em sua pequena plantação indoor em São Paulo. Sua maconha é inteiramente orgânica. Ela usa uma calda de fumo para combater os pulgões, estrume de composteira, casca de ovo, pó de café e… menstruação. Produz pouco, mas sua erva, diz, é perfumada e seu sabor pode ser frutado ou mais ácido. “Planto na lua nova e colho na lua cheia, e vou conversando com elas enquanto crescem.”

Ao contrário dos rapazes, Carla não usa seu talento como jardineira apenas para produzir maconha. Planta ainda maracujá, acerola e banana no quintal. Pergunto por que há mais meninos e meninas no clube dos cannabiers. “Acho que pela mesma razão pela qual há mais meninos na física e na matemática e mais meninas na pedagogia: o mundo é assim”, diz. “Mas eu vejo diferenças. Fui convidada para uma Cannabis Cup e me senti lisonjeada, mas percebi que era uma coisa de meninos, de competição. Acho que a gente vê diferente. Para mim plantar é uma forma de não depender dos homens para comprar ou fumar meu baseado.”

Se as plantas fêmeas cultivadas não germinam, onde essa turma consegue sementes? Trocando entre eles ou comprando pela internet em sites estrangeiros –o que, em tese, também é proibido por lei, mas decisões judiciais recentes têm dado certa segurança aos cultivadores. Em setembro, o juiz Fernando Américo de Souza, de São Paulo, livrou da cadeia um usuário que havia comprado, pela internet, 12 sementes de maconha na Bélgica e foi denunciado por “contrabando”. “O usuário que produz a própria droga deixa de financiar o tráfico, contribuindo para a diminuição da criminalidade”, disse o juiz (confira aqui).

Para os cultivadores, a prática da troca de sementes e da própria maconha para degustação entre os amigos é uma prova de que a idéia dos clubes de cannabis, como existem na Espanha e que estão previstos na lei uruguaia, pode ser a melhor saída para o problema, porque rompe o vínculo com o crime e tira do usuário a carga de “alimentar” o narcotráfico.

Enquanto isso não ocorre, a “elite” degusta iguarias e a enorme maioria dos usuários (estima-se que existam 1,5 milhão no Brasil) continua a consumir maconha malhada, palha e mofada. Será que até nisso quem nasceu para Sangue de Boi nunca chegará a Romanée Conti?

*Os nomes dos personagens desta reportagem foram trocados.

UPDATE: saiu no New York Times um perfil do primeiro crítico de maconha dos Estados Unidos (leia aqui). Profissão dos sonhos para muita gente…

UPDATE2: tenho que acrescentar ao post este vídeo sobre “os esnobes da maconha”. Hilário.

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Chaves, o Chaplin cucaracha

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Assisti Chaves pela primeira vez na adolescência, com meus irmãos mais novos (e minha mãe também sempre foi fã). Voltei a assisti-lo quando tive meu filho mais velho, aos 20 e poucos anos. E, mais uma vez, quando nasceu o caçula, seis anos atrás. Que belas desculpas tive para ver o Chaves e o Chapolin… Até hoje me faz dar boas risadas diante da TV, mesmo sozinha.

Os personagens criados por Roberto Bolaños (1929-2014) são, ao mesmo tempo, inteligentes e hilários. Engana-se quem vê o humor de Chaves como raso. Ao contrário, o texto é muito interessante e cheio de picardia. Quem se dedicasse a analisar sociologicamente a turma do Chaves e a compará-lo à sociedade capitalista ia encontrar um prato cheio: o miserável (Chaves), a burguesa (Dona Florinda/Florinda Meza), o explorador (seu Barriga/Edgar Vivar), o desempregado (seu Madruga/Ramon Valdés)… O romance do professor Girafales (Rubén Aguirre) com dona Florinda ironiza as melodramáticas novelas mexicanas.

Como o vagabundo de Chaplin, Chaves é um excluído. Seu nome original, Chavo del Ocho, quer dizer que ele é o menino que mora no número 8 da vila, ou seja, num barril assim como dona Clotilde (Angelines Fernandes) é a “bruxa do 71″. Chaves encanta seus fãs pela imensa ternura misturada com a graça de fazer as coisas errado “sem querer querendo”, exatamente como o vagabundo de Chaplin fazia. É adorável e engraçado, mas tem uma tristeza implícita no olhar, como se fosse a versão criança e “cucaracha” do vagabundo chapliniano. Até chapéu usa.

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Seu outro personagem famoso, o Chapolin Colorado, é um herói perdedor. O anti-herói americano. Já imaginaram um super-homem fracote? Um Batman desastrado? Um Homem-Aranha falível? Chapolin é assim. (Seria Chapolin um trocadilho/homenagem a Chaplin? Só muda uma letra…)

Em um dos meus episódios favoritos, Chapolin aparece na vila onde vive a turma do Chaves e os dois personagens interpretados por Bolaños contracenam. O final é emocionante: Chaves pega uma “pílula de polegarina” de Chapolin que o faz diminuir de tamanho e, com biscoitos gigantes na mão, diz que é a maior refeição que já teve na vida… Lágrimas e risos.

Outro episódio inesquecível é uma das reconstituições históricas hilárias feitas por Bolaños e seus atores na parte teatral dos episódios. É aquela cena bíblica do rei Salomão com as duas mães e o bebê que disputam. Bolaños é o rei Salomão e Chiquinha (Maria Antonieta de las Nieves) faz a rainha de Sabá. Ao dizer que vai cortar a criança em duas e dar cada uma das metades para uma das mulheres, o rei/Chaves ouve da rainha/Chiquinha: “Comunismo!!!!”

Em minhas viagens pela América Latina, por onde andei conheci fãs de Chaves e sua turma, sempre relembrando o bordão de Quico (Carlos Villagrán): “Chusma! Chusma! Chusma!” (gentalha! gentalha! gentalha!). Todos mostravam simpatia e carinho pelo personagem, que só chegou ao Brasil em 1984, mas que tinha sido criado no México em 1971 e circulava pelos demais países da América Latina desde então. Ou seja, quem tem entre 0 e 55 anos de idade no continente vê ou viu o Chaves. Mas o personagem tem fãs de todas as idades, como minha mãe ou o poeta Manoel de Barros. Basta assistir.

Situo Bolaños/Chaves entre os grandes da comédia universal, ao lado não só de Chaplin como do conterrâneo Cantinflas, de Buster Keaton ou de Jerry Lewis. Todos eles carregam em si esse clown ingênuo, desajeitado e hilariante que Roberto Bolaños imortalizou no mexicano Chaves. Adeus, Bolaños. Sua criação é um clássico e ainda fará gargalhar gerações.

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Paul, o Beatle coxinha. Ou apenas bom moço? Por Victor Farinelli

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(Paul por Clive Arrowsmith)

Meu amigo Victor Farinelli resolveu colocar lenha na fogueira afirmando no post abaixo que sir Paul McCartney é coxinha –mas não que isso seja sinônimo de reacionário. Quero dizer de cara que discordo de Victor. Paul McCartney não é nada coxinha, nem em termos de estilo. É o típico bom moço, em minha opinião. Bom rapaz, direitinho. Mr. Nice Guy. Qual o problema? E alto lá, nem sempre os coxinhas são bons moços. Às vezes são falsos bons moços, isso sim.

Joguei esse debate num almoço com amigos e todo mundo respondeu que concordava. “Sim, amamos Paul, mas ele era o beatle coxinha”, resumiu um. “Se fosse brasileiro, tinha votado no Aécio”, provocou outro. Eu aposto todas as minhas fichas que o vegetariano Paul votaria na Marina no primeiro turno e viajaria para justificar no segundo… Na real, tenho a impressão que Paul não se importa muito com política, a não ser quando se trata de defender os animais.

Acho o beatle Paul McCartney extremamente elegante e sou sua fã, musicalmente falando. Não me venham com essa de dizer que John Lennon era “maior”. Já soube, aliás, que seu show em Brasília foi sensacional. Não consigo enquadrar Paul McCartney tão facilmente… Grandes artistas nunca são enquadráveis. Para mim, Paul é apenas… inglês.

Mas leiam o que o Victor diz e me falem se concordam com ele ou comigo.

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paulclive

(Paul por Clive Arrowsmith)

  Seria Paul McCartney o beatle coxinha?

Por Victor Farinelli

Ele foi usado na recente campanha presidencial pela propaganda governista, mas está longe de ser um petralha, ou mesmo tucano, ou mesmo qualquer coisa. Seu regresso ao Brasil foi citado para dizer que nunca dantes na história deste país um beatle havia nos visitado tantas vezes – um meme de sucesso que depois inspirou outros com artistas menores, como Madonna, Pearl Jam, Iron Maiden e outros.

Sir Paul McCartney, o melhor compositor dos quatro, o galãzinho da banda, o arrumadinho, o vegetariano, o que fuma mas não traga, o que se casou com uma loira milionária, o que toca todos os anos no aniversário da rainha, o que só pensava no dinheiro, segundo seus ex-colegas. Uma enorme fama feita de várias pequenas famas, e se usarmos um termo mais simples e atual, poderíamos dizer que ele é… o beatle coxinha.

(Paul, seu petralha!)

(Paul, seu petralha!)

Seria injusto chamá-lo de reacionário, e convenhamos que esses tempos de polarização vêm magnificando o significado do termo. Coxinha é coxinha. Coxinha não é sinônimo de fascista, embora um fascista possa se identificar com a lógica e o estilo de vida de um coxinha. O fato é que o perfil de Paul McCartney é o que mais identifica a classe média entre os quatro rapazes de Liverpool, assim como já foi mostrado sobre Pelé em comparação a Maradona.

Apesar de aparentar ser o almofadinha do grupo, McCartney foi, junto com Ringo Starr, quem teve a vida mais dura antes do estrelato. O pai dele não era um vagabundo –seu desemprego era fruto dos tempos econômicos bicudos que o país enfrentava após a guerra, algo que os brasileiros podiam entender melhor quando comentam sobre os beneficiários do Bolsa-Família–, mas a família vivia do salário de sua mãe, que era enfermeira. A morte dela em 1956 (quando ele tinha apenas 14 anos), iniciou um período de aperto financeiro para os McCartney, que só terminaria na década seguinte, com o sucesso do músico e sua banda.

As mesmas dificuldades financeiras seguidas de uma repentina e vertiginosa ascensão social marcaram a vida de Pelé e Paul, e talvez explique porque eles são defensores e ícones da defesa da meritocracia. Quem pensa que o pobre de direita é um fenômeno exclusivamente brasileiro se engana, tem gente assim no mundo inteiro, inclusive na Inglaterra pós-Segunda Guerra, quando a grande maioria da classe trabalhadora era bastante pobre e muitos, como os McCartney, eram admiradores do conservador Winston Churchill.

Aliás, essa é uma das grandes ironias dos Beatles, pois McCartney era sim um filho da classe trabalhadora, enquanto John Lennon foi criado pela tia ultra-conservadora e educado dentro de padrões de classe média tão estritos que talvez tenham provocado seus anseios de rebeldia, que ele libertou através da música.

(John e Paul por David Bailey em 1965)

(John e Paul por David Bailey em 1965: tensão no ar)

Até nisso, Lennon e McCartney foram os antagonistas perfeitos, e só se fizeram amigos porque calharam de se conhecer quando ambos estavam chorando a recente perda de suas mães –a de John morreu atropelada quando ele tinha 17 anos. Dez anos depois, quando Ringo cantava Try With a Little Help From My Friends, as diferenças já vinham à tona e a amizade submergia como um submarino.

Um parêntese: se estamos, pelo menos no Brasil, em tempos de amizades desfeitas por causa de política, nada melhor do que aproveitar o tema para abordar um dos grandes clássicos do machismo universal. Depois de 44 anos, várias hipóteses sobre o fim do Beatles já foram provadas e reprovadas, mas a que ficou no imaginário popular é a mesma indicada pela Bíblia para o fim do paraíso. A culpa foi da mulher. No caso do quarteto inglês, da pobre Yoko Ono.

Como quase tudo no mundo das fofocas do showbiz, não foi bem assim. John Lennon realmente obrigou a banda a aceitar a presença de Yoko em todas as reuniões, mas essa foi uma decisão dele, baseado em sua própria mudança de conceitos. Ele queria que a mulher, a quem passou a ver como o negro do mundo, passasse a ser parte importante da sua vida e não um apêndice, o que foi uma mudança evidentemente política –e que depois se percebeu muito claramente em sua carreira solo, em suas ideias de não-discriminação, que o marcaram como o mais político dos quatro.

(Os Beatles na Índia e o Maharishi sob o olhar desconfiado de Paul e Linda. Foto: Philip Townsend)

(Os Beatles na Índia, com o Maharishi sob o olhar desconfiado de Paul e da então namorada Jane Asher. Foto: Philip Townsend)

Recordemos que George Harrison também obrigou os companheiros a acompanhá-lo em sua viagem hindu, com a qual nem todos os demais estavam de acordo, e nem por isso as pessoas culpam o Maharishi pelo fim da banda. E quem foi o responsável por fazer desse ciúme por Yoko o argumento oficial para o fim da banda, nas primeiras entrevistas dadas após a separação? Sim, foi o Macca, que depois mudou de versão diversas vezes, mas a opinião pública já havia comprado a ideia.

Os dois beatles já falecidos foram os únicos que nunca mudaram de postura sobre a separação do grupo. Mesmo George, que retomou sua amizade com Paul para gravar Free as a Bird, manteve sua opinião sobre ele ser o mais preocupado com os negócios. Claro que John se referia a isso de forma mais sarcástica, o acusou de corroer a unidade do grupo com sua ganância, entre outras coisas.

A biografia de Paul McCartney escrita pelo jornalista escocês Ross Benson –um dos melhores livros que se pode ler sobre os Beatles, justamente porque não se faz de advogado do biografado ao narrar seus conflitos com os companheiros– confirma o caráter ambicioso de McCartney em diversos momentos de sua vida.

Nos últimos anos da banda, quando o desgaste já era evidente, inclusive antes de John e Yoko se conhecerem, foi Paul o responsável por forçar a manutenção da banda, por medo de que a separação significasse uma carreira solo de sucesso somente para Lennon e não para os demais –e usava exatamente esse argumento para que George e Ringo estivessem do seu lado. Também teria sido ele o único a apoiar Harrison na ideia de viajar à Índia, pensando que poderia recuperar a relação.

E teria sido Macca o que mais se esmerou em recuperar os direitos autorais das canções dos Beatles, segundo relato de Ross Benson no livro-biografia. Teria sido uma sugestão dele ao então amigo Michael Jackson o que levou a perder suas últimas esperanças. Na época do Say Say Say, Paul e Michael eram bastante próximos, tanto que o roqueiro britânico se permitiu dar conselhos ao jovem músico estadunidense: “o importante é ser dono dos direitos autorais, é onde realmente se ganha dinheiro, imagina quanto dinheiro eu perdi nesses anos todos”. Dias depois, Michael encontrou Paul para lhe contar que havia seguido sua sugestão. “Comprou seus direitos autorais?”, perguntou o beatle. “Não, comprei os teus!”

Uma traição que ele aceitou, mas não perdoou, apesar de sua última colaboração juntos ser num álbum chamado Pipes of Peace (“cachimbos da paz”). A canção-título do disco era uma tentativa de ser mais político, mas acabou mostrando que seu lado político era insosso e coxinha, produzindo um dos clipes mais bocós de todos os tempos. Nessa época, ele tentava tomar o lugar do já falecido Lennon como o beatle pacifista. No fim das contas, as carreiras solo dos dois foram brilhantes, mas enquanto Paul era apenas um extraordinário e talentosíssimo músico multi-instrumentista, John se tornou um ícone da paz mundial e fez até canção para os heróis da classe trabalhadora –retomando a ironia que ambos carregaram desde a juventude.

Enfim, Paul McCartney não é um reacionário. Pode ser ganancioso, mas nunca expôs sua consciência vegetariana em propagandas da Friboi. Talvez pense, como Lobão, que as monarquias são charmosas, e por isso canta para a rainha em seus aniversários, mas certamente não tem uma boa opinião das ditaduras desde a desastrosa viagem às Filipinas, e não apoiaria um grupo de malucos pedindo intervenção militar em lugar nenhum do mundo.

E se você, comunista, socialista, anarquista, libertário ou coisa que o valha, resolver deixar de ouvir esse gênio canhoto da música porque ele só usa a esquerda para tocar seus instrumentos, pense bem se não é você quem está defendendo a política do Live and Let Die.

UPDATE meu (Cynara): coxinha ou não, esse vídeo mostrando a reação de Paul à morte de Lennon is quite disturbing…

Em Camaradas

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