7 malfeitos de Agnelo em Brasília. Ou: o que é preciso fazer, afinal, para ser expulso do PT?

agnelo

(Agnelo a caminho de Miami: consciência tranquila)

Quando muitos defenderam a expulsão de José Genoino e José Dirceu pelo PT eu discordei. Ora, injustiçados ou não, eles agiram em nome do PT e foram presos por causa disso. Não faz sentido algum expulsar um dirigente que vai para a cadeia por ter, em resumo, ajudado a eleger candidatos do próprio partido. Sob a ótica do PT, Dirceu e Genoino (assim como Delúbio Soares ou João Paulo Cunha) mereciam uma medalha, não ser expulsos.

Agora, não consigo entender como é que o PT não expulsa gente que só faz queimar o filme do partido. Gente ineficiente, inepta, incompetente. Vejam o caso do ex-governador de Brasília, Agnelo Queiroz. Sem dúvida um dos piores governantes que a cidade já teve, Agnelo deixou uma situação de descalabro para o seu sucessor. Por que o PT nem sequer cogita expulsá-lo? O que é preciso fazer, afinal, para que o PT expulse alguém?

Nos últimos anos, o PT expulsou apenas os atuais membros do PSOL, por serem “radicais” e discordarem de decisões da cúpula, em 2003. Também expulsou membros por “infidelidade”, como o prefeito de Barrinha (SP), que foi defenestrado por apoiar candidatos do PSDB na última eleição. Pelo visto é mais fácil agora o PT expulsar Marta Suplicy, por fazer críticas a Dilma, do que Agnelo…

Então quer dizer que incompetência não é razão para expulsão? Prejuízo aos cofres públicos? Acho um desaforo que será punido nas urnas: tenho certeza que vai demorar anos até que o PT consiga eleger um governador no Distrito Federal novamente.

Vejam só se não tenho razão:

1. Eleito em 2010 para “consertar” Brasília após a administração desastrosa de José Roberto Arruda, que saiu do palácio do Buriti direto para a prisão, Agnelo se mostrou despreparado para o cargo e rapidamente se tornou o segundo governador pior avaliado do país –só perdia para a governadora do Rio Grande do Norte, Rosalba Ciarlini, do DEM. Foi o único governador que não conseguiu nem sequer passar ao segundo turno da eleição em 2014.

2. Agnelo entregou o governo com apenas 64 mil reais em caixa e uma dívida de 3,8 bilhões, de acordo com o novo governador, Rodrigo Rollemberg (PSB). Isso, em uma unidade da federação que recebe repasses federais no valor de 8 bilhões anualmente para os gastos com educação, saúde e segurança pública.

3. Agnelo é médico, mas vergonhosamente deixou a saúde do Distrito Federal em pandarecos. No final do ano, os médicos entraram em greve por horas extras e pagamentos atrasados e só atendiam casos de vida ou morte até que o novo governo se comprometeu em saldar a dívida. Para piorar, os hospitais públicos estão sem lençóis e roupas para os pacientes por problemas no contrato com a lavanderia que atende as unidades. As pessoas estão tendo que trazer de casa. Rollemberg decretou estado de emergência na saúde por 180 dias e pediu antecipação dos repasses federais. O governo Dilma negou, mas o TCU (Tribunal de Contas da União) concedeu.

4. No dia 30 de dezembro, penúltimo dia do seu governo, Agnelo exonerou o administrador da cidade-satélite de Taguatinga e nomeou outro. O primeiro tinha se recusado a dar o “habite-se” para o novo Centro Administrativo da cidade, e o novo administrador, em um dia, liberou. No dia 31, Agnelo “inaugurou” a obra, inacabada. Mas deixou para o sucessor a pendência de pagar 17 milhões de reais por mês de aluguel às construtoras responsáveis. Por que ele fez isso? Mistério.

5. Em quatro anos, a folha de pagamentos dos servidores do DF passou de 1,2 bilhão para 2 bilhões. No entanto, ele deixou o governo devendo salários para os professores da rede pública.

6. O estádio Mané Garrincha foi o mais caro da Copa e é o terceiro mais caro construído no mundo nos últimos dez anos: custou 2 bilhões de reais. O novo governador e muitos brasilienses se perguntam como foi possível gastar tudo isso para levantar um estádio e fazer pequenas obras no entorno dele.

7. Deixando a capital que “administrou” envolta no caos, Agnelo viajou para Miami, nos Estados Unidos.

Não são razões de sobra para expulsar um político de um partido que afirma querer se renovar? Eu acho.

Em Blog

51 Comente

A farra bilionária das estatinas e o “jornalismo” subserviente à indústria farmacêutica

vejaestatinas

(Capa da revista Veja em 16 de junho de 2004)

Eu estava trabalhando na revista Veja (os piores oito meses de minha carreira; leia aqui) quando saiu uma capa louvando as estatinas, pílulas usadas para controlar o colesterol “ruim” que, afirmava a revista, eram “a grande surpresa da medicina”, “a aspirina do século 21″, “um dos medicamentos que mudaram a história”. A reportagem, de cinco páginas, parecia um anúncio pago pelos fabricantes do medicamento, comparado por Veja à descoberta da penicilina. As estatinas seriam eficazes para tratar angina, Alzheimer, osteoporose, câncer, esclerose múltipla e diabetes (íntegra aqui). Só faltou bicho-do-pé. “Um belíssimo negócio para a indústria farmacêutica”, vibrava a semanal da editora Abril.

De lá para cá, as estatinas se transformaram na maior fonte de lucro dos laboratórios. Uma delas, o Lípitor (atorvastatina, da Pfizer), se tornou o medicamento campeão de vendas no mundo e, com o providencial pontapé da “revista mais vendida”, o número dos que usam estatinas no Brasil pulou de 400 mil para 8 milhões de pessoas. Mas o que pouca gente sabe é que, após 10 anos, o que foi apresentado ao leitor incauto da revista como panacéia agora é questionado por pesquisadores, médicos e cientistas como prejudicial à saúde e, no mínimo, inútil. E o mais bizarro: hoje o uso contínuo de estatinas está associado a alguns dos males que supostamente curaria, como perda de memória, doenças cardíacas, diabetes, fraqueza muscular e câncer.

Dois anos atrás, a própria Veja reconheceu, em uma reportagem minúscula escondida no site da revista: “Acaba a lua-de-mel com as estatinas” (leia aqui). No texto, a publicação admitia que efeitos colaterais graves têm sido associados ao uso do remédio outrora “revolucionário”, até mesmo a capacidade de provocar o infarto em vez de preveni-lo –justamente a maior qualidade levantada pela propaganda, ops, reportagem anterior. Novos estudos com voluntários, advertia o artigo, comprovam que “usuários frequentes das estatinas tiveram um aumento muito maior na calcificação de placas em suas artérias coronárias. Isso poderia levar a riscos maiores de infartos nesses pacientes”.

Na época da capa-louvação, o cardiologista Sergio Vaisman, coordenador da pós-graduação em Medicina Preventiva da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, escreveu um artigo em seu blog em que condenava o excesso de otimismo da Veja em relação às estatinas. “Acho lamentável assistir a esse desfile de propaganda que enaltece produtos que irão comprometer nossa saúde se usados em demasia”, escreveu Vaisman, criticando a falta de interesse da revista em mostrar os efeitos colaterais do remédio, como as dores musculares crônicas e a rabdomiólise, uma degeneração das fibras musculares que pode levar a lesões renais graves e até à morte. Detalhe: uma estatina, a Baycol (cerivastina, da Bayer), já havia sido retirada do mercado em 2001 por causar rabdomiólise e matar 52 pessoas nos EUA por falência renal.

Entrevistei Vaisman pelo telefone. Ele está cada vez mais cético em relação às estatinas, que só prescreve a seus pacientes em casos muito graves e por um período apenas. “Sou contra o uso contínuo de estatinas, mas vou contra a corrente, porque o establishment da medicina manda fazer isso. Existe uma pressão muito grande da indústria farmacêutica, principalmente sobre os médicos recém-formados”, diz. E ressalta: “Não existe nenhuma evidência científica de que as estatinas protegem o coração de um infarto”.

time

(As mudanças em relação à gordura ao longo dos anos)

Outro aspecto que mudou neste meio tempo foi a própria visão da ciência (não da indústria farmacêutica) sobre o “colesterol ruim” (LDL), antes o grande inimigo do homem moderno e razão de existir das estatinas. “Hoje o colesterol não é o vilão que se pensava. É considerado, por exemplo, fundamental para a produção dos hormônios sexuais. Claro que tudo em excesso é ruim, mas o colesterol tem papéis benéficos”, defende Vaisman. O colesterol também é necessário para o bom funcionamento dos intestinos e do cérebro.

Em outubro de 2013, a Sociedade Brasileira de Cardiologia causou polêmica ao rebaixar o limite considerado saudável de colesterol “ruim” de 100 miligramas por decilitro de sangue para 70 miligramas por decilitro, o que fez aumentar ainda mais as prescrições das estatinas nos consultórios médicos. Na época, especialistas contrários à medicalização excessiva chamaram a atenção para os efeitos colaterais da droga, sem sucesso. Como disse Vaisman, o establishment da medicina no Brasil abraçou as estatinas sem restrições. E o pseudo jornalismo de “saúde” praticado por alguns veículos foi junto.

Nos EUA e na Inglaterra, grandes consumidores das estatinas, a rejeição ao medicamento vem crescendo. O norte-americano Raymond Francis, químico formado pelo MIT (Massachusetts Institute of Tecnology) que se dedica a pesquisas sobre qualidade de vida, contesta, inclusive, que o colesterol seja mesmo responsável pelos problemas cardíacos. “O colesterol não causa doenças do coração”, afirma. “Os franceses têm a mais alta taxa de colesterol da Europa, ao redor de 250, mas as menores incidências de doenças do coração e metade dos ataques cardíacos dos Estados Unidos. Na ilha de Creta, berço da saudável dieta mediterrânea, um estudo de 10 anos falhou ao não conseguir encontrar um só ataque cardíaco, apesar das taxas de colesterol acima de 200″ (leia mais aqui). Outros estudos recentes dizem o mesmo: colesterol alto não é sinônimo de risco para o coração.

Raymond Francis publicou um vídeo no youtube onde diz com todas as letras: “Estatinas são veneno. Não previnem doenças do coração e não são seguras. Pelo contrário, há um aumento dos infartos entre as pessoas que usam estatinas. Ou seja, as estatinas causam doenças do coração”. Ele cita o cardiologista texano Peter Langsjoen, autor do estudo Estatinas podem causar problemas cardíacos, apresentado aos órgãos de saúde norte-americanos em 2002, em que advertia para o bloqueio, pelas estatinas, da produção da coenzima Q10 ou Ubiquinona, molécula que previne as doenças cardíacas. Em 2010, a FDA (Food and Drug Administration) finalmente advertiu para os riscos cardiovasculares com o uso de sinvastatina (Zocor, da Merck). É a estatina mais vendida no Brasil.

No site spacedoc, médicos norte-americanos anti-estatinas listam uma série de efeitos colaterais causados pelo medicamento: danos musculares, amnésia, diabetes, disfunção erétil, pancreatite, insônia, câncer, perda de energia… (leia os artigos aqui). Autor do livro 29 Bilhões de Razões Para Mentir Sobre o Colesterol, o britânico Justin Smith produziu um documentário e está preparando outro sobre os interesses financeiros por trás das estatinas, que, afirma, têm seus benefícios exagerados pela medicina tradicional. Entrevistei Smith por e-mail.

Socialista Morena – O que há de errado com as estatinas?

Justin Smith – Há muitos questionamentos. Primeiramente, temos que perguntar se a droga realmente beneficia as pessoas diante dos efeitos colaterais que acarreta. É preciso separar dois tipos de pessoas: as que foram diagnosticadas com um problema no coração e aquelas que não o foram. Para quem não foi diagnosticado como cardíaco, não há nenhum benefício em tomar estatinas, mas estas pessoas estarão expostas aos efeitos colaterais do remédio. Em uma estimativa realista, 20% das pessoas sofrem efeitos colaterais significativos. Milhares de pessoas têm relatado consequências muito sérias durante anos e muitas delas sofreram danos permanentes. Para quem foi diagnosticado com problema cardíaco há um argumento para usar estatinas. Mas os benefícios que estas pessoas podem ter não estão relacionados com a redução do colesterol. Este é um tema complicado e muitos médicos ainda estão debatendo os efeitos das estatinas. Para as pessoas com problemas cardíacos, as estatinas podem ser ao mesmo tempo boas e ruins. O lado positivo é que as estatinas podem estabilizar as placas nas artérias, reduzir a coagulação e melhorar o metabolismo do ferro –tudo isso é muito bom. No entanto, pelo lado negativo, as estatinas aumentam a quantidade de placas calcificadas nas artérias e potencialmente enfraquecem o músculo do coração ao bloquear a produção da coenzima Q10. Além disso, há uma ligação muito forte entre os baixos níveis de colesterol e uma vida mais curta. Como você vê, é uma decisão muito difícil para as pessoas diagnosticadas com problemas cardíacos tomarem.

SM – Alguns médicos me disseram que as estatinas não previnem ataques cardíacos. É isso mesmo?

JS – Há evidências de que as estatinas podem prevenir um segundo ou terceiro ataque cardíaco para quem já teve um infarto. Mas, para a população em geral, as estatinas têm um impacto muito pequeno contra os riscos de ataques do coração, possivelmente nenhum. Por outro lado, as estatinas têm sido associadas com mais de 300 efeitos adversos, em parte pelo fato de o colesterol ser uma substância extremamente importante para o corpo humano e a deficiência de colesterol ter enormes efeitos negativos para a saúde. As áreas mais afetadas são os músculos, o cérebro e o sistema nervoso e os olhos. Em alguns estudos, as estatinas foram associadas a um dramático crescimento no risco de câncer.

SM – Na época em que você lançou seu livro, falou em uma movimentação de 29 bilhões de dólares anuais com as estatinas. Quanto dinheiro elas estão rendendo à indústria farmacêutica atualmente?

JS – É muito difícil dizer, porque a maior parte delas teve a patente quebrada. No entanto, se olharmos para o mercado mais amplo das drogas redutoras de colesterol, há novos remédios surgindo e é um negócio que continua movimentando dezenas de bilhões de dólares cada ano.

SM  Você foi alvo de alguma ameaça por denunciar as estatinas?

JS – Não.

Em seu documentário, Statin Nation, Smith faz questão de destacar três pontos que vão em direção contrária ao que é apregoado pela medicina ocidental: as pessoas com colesterol alto tendem a viver mais; as pessoas com doenças no coração têm baixos níveis de colesterol; baixar o colesterol de uma população não reduz os índices de doenças cardíacas. E pergunta: “Será que os fatos sobre os problemas do coração, o colesterol e os remédios contra o colesterol têm sido distorcidos pela indústria farmacêutica para aumentar seus lucros?”

Não duvido. O que posso dizer com toda certeza, como jornalista, é: desconfie de médicos que prescrevem a torto e a direito remédios de uso contínuo cuja eficácia é controversa. Desconfie de reportagens que atribuem à “ciência” ou à “medicina” pesquisas patrocinadas pela indústria farmacêutica. Desconfie de revistas que colocam um medicamento como “milagroso” numa capa sem alertar devidamente para os riscos. Desconfie das estatinas.

UPDATE: saiu esta semana uma advertência oficial de especialistas no Reino Unido aos médicos para não iludirem os pacientes sobre benefícios exagerados das estatinas (leia aqui).

Em Blog

40 Comente

Você sabe o que quer dizer “aperreado”?

aperreamiento

(Pintura indígena reproduzida no livro Proceso de residencia instruido contra Nuño de Guzmán, de José Fernando Ramírez, 1847)

“Estou aperreado”. “Não me aperreie, menino!”. Quem, no Nordeste, nunca ouviu uma frase assim? Usar “aperreado”, “aperreio”, no sentido de estar chateado, incomodado, em uma situação difícil, faz parte do vocabulário corrente dos nordestinos. Mas de onde é que vem essa palavra, afinal?

Aperreado vem de perro, que, em espanhol, significa cachorro. Aperreamiento (aperreamento, em português), portanto, significa literalmente ser alvo de cães. A palavra surgiu da prática comum entre os conquistadores da América de atiçar cães ferozes contra os nativos para os amedrontar e, em muitos casos, os devorar. Aperreado não é sinônimo de “agoniado”, “aflito”, mas de “dilacerado ou comido por cães”. Não é chocante?

É incrível como um termo aparentemente inocente pode dizer tanto sobre a forma como nos ensinam a história. No passado, os conquistadores foram muitas vezes descritos como “valentes”, “aventureiros”, “audazes”, “heróicos”. E, mesmo quando as crueldades que eram capazes de fazer vieram à tona, os detalhes sórdidos foram omitidos. Um exemplo é o papel (horrendo) que tiveram os cães na conquista.

Tudo indica que os primeiros cães europeus que chegaram à América foram mastins, alanos e galgos espanhóis trazidos por Cristóvão Colombo em sua segunda viagem, em 1493. Até então, só havia cães esquimós e um tipo de cachorro tão manso que vários cronistas os chamavam de “o cão mudo”. Conhecidos na língua náuatle como techichi ou  itzcuintli, foram domesticados pelos índios como cães de companhia, sobretudo para as crianças. Eram encontrados em abundância em todo o México e América Central, mas, de carne saborosa, eram também comidos pelos espanhóis e nativos, e desapareceram.

Já os ibéricos tinham treinamento de cães de guerra. Utilizados para submeter os indígenas, aterrorizando-os psicológica e fisicamente, as feras eram capazes de, ao simples comando de “pega!”, estraçalhar com seus caninos gigantescos dezenas de índios de uma vez. Há cães que passaram à história por sua “bravura”, eufemismo para ferocidade e dentes afiados: Becerrillo, Leoncillo, Amadis, Bruto.

Sobre Becerrillo, um alano descomunal, de pelo castanho, focinho escuro e enormes presas, reza a lenda que, um dia, os espanhóis estavam a burlar-se de uma velha índia e colocaram-na sobre a ameaça do cão. A mulher, apavorada, se dirigiu ao animal, que recebia até “pagamento”, como um soldado mais: “Senhor cão, não me faça mal”, teria dito a índia. O cachorro cheirou a velha, levantou a pata e urinou em cima dela outras versões da história contam que a “lambeu” e também que a “devorou de um só bocado”.

cães

(Cães devoram índios acusados de sodomia no século 16)

Apesar de estes relatos terem sido convenientemente deixados de lado na história que nos ensinam nos colégios, os cronistas da época são pródigos em descrições, principalmente Bartolomeu de las Casas (1474-1566). O frei dominicano espanhol, célebre por denunciar em suas obras o sadismo de seus compatriotas, que matavam velhos, adultos e crianças indígenas por diversão, traz alguns depoimentos revoltantes sobre o uso de cães no livro Brevísima Relación de la Destrucción de las Indias, de 1552 (leia aqui). É de chorar:

“Todos que podiam se escondiam nas montanhas e subiam às serras fugindo de homens tão desumanos, tão sem piedade e tão ferozes bestas, extirpadores e inimigos capitais da linhagem humana. Ensinaram e amestraram galgos, cães bravíssimos que, vendo um índio, o despedaçavam em um credo, e se arremetiam contra ele e o comiam como se fosse um porco. Esses cachorros fizeram grandes estragos e carnificinas.”

“Fizeram e cometeram grandes insultos e pecados, e acrescentaram muitas e grandíssimas crueldades mais, matando e queimando e assando e atiçando cachorros ferozes, e depois oprimindo e atormentando e explorando nas minas e em outros trabalhos, até consumir e acabar com todos aqueles infelizes inocentes.”

“Como andavam os tristes espanhóis com cães bravos buscando e aperreando os índios, mulheres e homens, uma índia enferma, vendo que não podia fugir dos cachorros, para que não a fizessem pedaços como faziam aos outros, pegou um trapo e amarrou ao pé um menino que tinha de um ano e enforcou-se numa viga, e não o fez tão rápido que não chegassem os cães e despedaçassem a criança, mas antes de que acabasse de morrer um frei o batizou.”

“Indo certo espanhol com seus cães à caça de veados ou de coelhos, um dia, não achando o que caçar, lhe pareceu que os cachorros tinham fome, e tirou um menino pequeno de sua mãe e com um punhal cortou-lhe em nacos os braços e as pernas, dando a cada cachorro a sua parte; e, depois de comidos aqueles pedaços, jogou todo o corpinho no solo a todos juntos.”

açougue

(O “açougue” humano ilustrado por Theodor de Bry)

Horror: segundo de las Casas, os espanhóis mantinham inclusive uma espécie de açougue onde penduravam pedaços de índios para dar aos cachorros. Curioso é que os europeus de então se chocavam com a existência de canibais entre os índios da América…

“Já está dito que os espanhóis das Índias têm cães bravíssimos e ferocíssimos, adestrados e ensinados para matar e despedaçar os índios. Saibam todos que são verdadeiros cristãos, e ainda os que não são, se foi ouvida no mundo tal coisa, que para manter os ditos cães trazem muitos índios em correntes pelos caminhos, que andam como se fossem varas de porcos, e os matam, e têm açougue público de carne humana, e dizem uns aos outros: ‘Me dê um quarto de um desses bellacos (“inúteis”, “canalhas”, como se referiam aos índios) para dar de comer a meus cachorros até que eu mate outro’, como se fossem quartos de porco ou de carneiro. Há outros que saem a caçar de manhã com seus cães, e voltando para comer, perguntados como foi, respondem: ‘Foi bem, porque coisa de quinze ou vinte bellacos eu deixei mortos com meus cachorros’.”

Na América do Sul há menos relatos disponíveis sobre os aperreamentos, mas sabe-se que os cães foram usados contra os índios na Colômbia, Venezuela e Peru. No Brasil, fala-se de cães da raça fila utilizados na caça de escravos fugidos. Como será que a palavra “aperrear” entrou de forma tão forte no Nordeste? Ainda não sei, mas prometo descobrir. Desconfio que seja coisa dos bandeirantes, aqueles “heróis” paulistas.

Se eu pretendo que os nordestinos parem de falar que estão “aperreados” por causa dessa origem tão abjeta? Não, embora termos como “judiar” e “denegrir” sejam hoje vistos com reservas, pois trazem embutidos preconceitos de raça. Eu ficaria satisfeita se, ao ouvirem ou pronunciarem este termo, pelo menos viesse à memória das pessoas que milhares de índios foram mortos a dentadas para que “aperrear” entrasse em nossos dicionários.

***

Para saber mais sobre a história dos cães na conquista da América, aqui tem um artigo muito bom (em espanhol).

Em Blog

20 Comente

Mini-guia Socialista Morena de esquerdismo caviar em São Paulo

aguabranca

(O Parque da Água Branca. Foto: João Fontoura)

Após seis anos em Brasília, “morei” quatro meses em São Paulo este ano. Aproveitei para matar a saudade e experimentar lugares novos. Sou baiana, mas passei 10 anos na capital paulista, que considero também um pouco a minha cidade… Adoro. Sim, é caótica, mas eu vejo beleza no caos. Daí tive a ideia de fazer um guiazinho socialista moreno com dicas para quem for passear por lá.

Como um lugar se qualifica para ser aprovado pelo esquerdismo caviar? Ora, primeira regra: pode até custar os olhos da cara, mas tem que valer a pena. Pior restaurante/boteco para um esquerdista caviar que se preze: caro, pretensioso e com comida ruim. Cinco estrelas (ou melhor, cinco foice & martelo): bom e barato, claro. Esse negócio de pagar caro para comer mal é coisa de novo rico (ou trouxa).

Vamos ao mini-guia (clique nos nomes para ver os endereços).

PARQUES:

Impossível ir a São Paulo sem dar um rolé no Ibirapuera, mas só se for durante a semana. No fim-de-semana achei hiper crowdeado. Também gosto demais de andar de bicicleta no Parque Villa Lobos, mas confesso que o meu xodó é o Parque da Água Branca. Menorzinho e acolhedor, deve ser inédito no mundo: um parque com galos, galinhas, patos, gansos, pavões e cavalos pertinho do centro da maior metrópole da América do Sul… Às quintas, sextas e sábados tem moda de viola no fim da tarde, na choupana de pau-a-pique (“Casa do Caboclo”) que vende café, broa de milho, pão de queijo e bolo feitos no fogão a lenha. Tem trilhas para caminhada e uma feira orgânica às terças, sábados e domingos. Outro passeio que o paulistano, na correria, esquece de fazer é visitar o Jardim Botânico. Desconfio que muita gente nem saiba que existe um… Ideal para piqueniques com a criançada, também tem trilhas onde se pode avistar o macaco-bugio. E um orquidário lindíssimo com duas exposições anuais, em maio e novembro.

RANGOS:

Japas – Fui em alguns, todos bacanas, mas não achei nenhum incrível. Na Vila Madalena, o Tanuki é simpático e bem tradicionalista (nada de cream cheese por lá) e tem coisas deliciosas como a ova de ouriço-do-mar, o missoshiru com cogumelos e o carpaccio de salmão. Em compensação, o combinado “escolha do chef” veio com umas coisas bem esquisitas para nosso paladar, tipo ovo de codorna cru… Na Liberdade, o Sushi Lika vale pelo bairro e pelo ambiente. O cardápio é bem amplo e os ingredientes fresquíssimos, mas não provamos nenhum sushi que fosse excepcional. O Mori Sushi, na Água Branca, tem um ótimo sistema de rodízio onde o sushiman corta e monta as peças diante do freguês, no balcão. Vá com fome, porque é você quem diz quando é a hora de parar… Ao contrário do Tanuki, porém, a casa abusa do cream cheese, mas é só o cliente pedir que o sushiman faz do jeito que preferir. Especializado em misturar sushi com frutas, o Mori às vezes também exagera nos sushis doces, que ficam um tanto enjoativos.

patacon

(O patacón com pernil do Sabores de Mi Tierra. Foto: divulgação)

Latinos  Não sei se é uma fase minha, mas os restaurantes onde mais comi coisas deliciosas em São Paulo foram os latino-americanos. Provei um ceviche sensacional, igualzinho aos de Lima, no Rinconcito Peruano, em pleno centro de São Paulo, na rua Aurora. Feito por peruanos e para peruanos, duvido que tenha um melhor na cidade. Recomendo também o arroz chaufa de mariscos (à moda sino-peruana) e, para acompanhar, chicha morada (refresco de milho preto). O Maiz, em Pinheiros, é bem bacaninha e tem a proposta de oferecer comida de rua latino-americana, mas achei tudo meio gourmetizado: se é comida de rua, quero porções generosas, bem temperadas, e não uns mini-tacos sem graça. Enfim… Muito melhor ir ao colombiano El Garage – Sabores de Mi Tierra, uma das melhores comidas que provei em minha temporada paulistana. O lugar é supersimples, uma garagem, mas a comida… Os “tacos” vêm em patacones (tortilha de banana-da-terra) ou arepas (espécie de pão de milho branco). Comi um patacón de costelinha de porco desfiada dos deuses, mini-patacones com ceviche cartagenero e empanadas colombianas. Tudo apimentadíssimo, ótimo para comer e tomar cerveja ou limonada com rapadura (papelón) . Como eles só abrem às 18h, é o lugar perfeito para um happy hour picante y sabroso com os amigos nestes dias quentes de verão. E, em frente ao Espaço Itaú, a Taquería La Sabrosa tem autêntica e deliciosa comida mexicana em mesas coletivas, com vista para a calçada da movimentada rua Augusta.

Empanadas  Chilenas? Argentinas? Bolivianas? Colombianas? Sei lá, só sei que adoro empanadas. As do Bar do Seu Zé, na Vila Madalena, são gostosinhas, mas achei a massa um pouco grossa demais. Ainda prefiro as empanadas do El Guatón, em Pinheiros. Sempre fui freguesa e continua igual. A qualidade de uma casa, em minha opinião, se mede pela constância: nada mudou por ali. Ainda bem. A empanada de carne é supersuculenta e é a minha favorita. Desta vez, provei ainda a de mariscos. Gostosa, mas a de carne é a original e insubstituível.

Franceses  Aqui em casa somos loucos por mexilhões à moda francesa, cozidos no vinho branco com ervas. Comemos várias vezes os moules et frites do Blu, em Perdizes, um bistrô bonitinho com cardápio variado e fusion entre as cozinhas francesa, italiana e brasileira. Meu marido também provou e adorou os mexilhões frescos à provençal (“os melhores do mundo”, segundo ele) do Arturito, da chef Paola Carosella (aquela do Master Chef). Outro francês que sempre recomendo em São Paulo é o La Tartine, que tem menu do dia e é todo fofo, decorado com bugigangas charmosas que o dono, Xavier Leblanc, baixista da banda Metrô, sucesso nos anos 1980, colecionou pela vida. Chegue cedo, porque está sempre lotado.

latartine

(Detalhe da decoração do La Tartine. Foto: João Fontoura)

Carnes  Passei no velho Fuad para ver se o sanduíche de filé acebolado ainda valia a pena e aproveitei para comer uma fraldinha. Achei tudo meio oleoso demais. Mudei eu ou mudou o lugar, um boteco dos bons, desde que seu dono (o Fuad) faleceu, em 2013? Não sei. O uruguaio El Tranvía, pelo contrário, continua bastante saboroso, embora os preços sejam meio salgados… Comemos um ótimo assado de tira e, de sobremesa, panqueques con dulce de leche. Mas ficamos loucos pelo fígado de boi recheado que eles servem como entrada: macio, saborosíssimo. Da próxima vez vou pedir só o fígado com salada. Também gostoso (e caro) é o La Recoleta em Perdizes, mas o chorizo argentino que tinha no cardápio nada tinha de argentino. Fail.

China  Só fui em um, mas no melhor: o Chi Fu, na Liberdade. Se você algum dia quiser experimentar, prepare-se para ser maltratado pelas garçonetes chinesas, que aparentemente não suportam brasileiros nem fazem questão de falar nada em português. Ou vai ver é o jeito delas, sabe-se lá. Não importa, é até folclórico e a comida é ótima. Eu simplesmente adoro camarões com salsão e a receita deles é uma das melhores que já provei, além de a porção ser generosíssima. Comem três fácil. Ah, leve dinheiro, porque o ~simpático~ restaurante não aceita cartões.

cury

(A fachada da Casa Cury. Foto: divulgação)

Árabe  Desta vez não deu tempo de ir comer a uzi do Halim, uma massa folhada recheada com carne de carneiro, arroz e castanhas. Sou fã. Também chegamos atrasados para devorar os Arais do restaurante armênio Carlinhos, no Pari, que já estava fechado pontualmente às 15h… Triste. O arais é um sanduíche de carne moída no pão sírio com um tempero divino. Mas a grande estrela árabe da temporada foi o libanês Casa Cury, em Perdizes. O chef, Celso Cury, prepara receitas de família: falafel, quibe, moussaka… Eu voltei perdidamente apaixonada pelo purê de berinjela com ragu de cordeiro que é chamado no cardápio de “Deleite do Sultão”, um prato criado para um imperador otomano no século 17. Digno de reis. De sobremesa, torta de ameixa fresca e amêndoas. O lugar é charmosíssimo, os preços são ótimos e tem almoço executivo, ainda mais em conta.

Frutos do mar – Eu normalmente acho que lugares imensos não são indicativos de boa comida ou bom atendimento, mas a Peixaria, na Vila Madalena, é todo o contrário. Garçons atenciosos e uma comida de primeira. O cardápio é gigantesco, mas é tudo gostoso. O balcão de frios, com polvo vinagrete, ceviches variados, vinagrete de mexilhões e outras delícias, já vale a espera, que pode ser longa nos finais de semana. E tem ainda os grelhados e pratos quentes. As caipiroscas de frutas são uma atração à parte. Misto de bar e venda, também é possível comprar peixes e frutos do mar para preparar em casa. Ou seja, é tudo fresquíssimo.

peixaria

(Pastéis e caipirinha de tangerina com pimenta rosa da Peixaria. Foto: divulgação)

BOTECOS:

Estive em poucos e bons. Sempre curti o bairro da Pompéia, que está cada vez mais cheio de bares e restaurantes charmosos. Numa noite quente, eu e uma amiga nos deliciamos com camarões ao alho e óleo e cerveja gelada numa das mesinhas da calçada do Catarina Bar, especializado em petiscos com frutos do mar (tem ostras frescas de Santa Catarina aos sábados). No mesmo bairro, estive no boteco e restaurante espanhol Gusta, que tem cervejas artesanais e morcilla legítima. O lugar é pequenininho, chegue cedo. O chope do Bar Léo, na rua Aurora, continua super bem-tirado, e eu amo o canapé de carne crua que tem lá para acompanhar. Melhor dia para ir ao Léo, em minha opinião: sábado de manhã. Comemos apetitosos croquetes de costela no Pirajá, cujo chope também continua cremosíssimo. No Mundial (do mesmo grupo que o Filial, o Genésio e o Genial), na Vila Madalena, fiquei curiosa com a combinação de rabada com vareniques, espécie de ravióli da cozinha hebraica, mas estava muito quente para experimentar… Da próxima vez. Para uma noite de drinques e rock’n roll, recomendo o Alberta 3, no centro. Os barmen são excelentes. Bem escondido em um beco da Vila Madalena, o Jardim das Delícias é uma loja de plantas durante o dia e à noite vira um boteco rodeado de verde onde a dona, Tharcila, serve aos clientes cervejas artesanais e comidinhas. Me pareceu o boteco ideal para surpreender alguém. E fica aberto até tarde. Quer algo mais anti-imperialista do que tubaína? Pois em São Paulo tem um bar especializado nelas, o Tubaína Bar. Não bastassem os drinques preparados com a brasileiríssima bebida, lá também se pode comer um delicioso ceviche (a dona, a jornalista Veronica Goyzueta, é peruana) e petiscos como a coxinha de feijão, o exibidinho de pernil e o de cogumelos com mandioquinha. A decoração é toda retrô, uma graça.

paomasseria

(pão de azeitonas pretas da Masseria. Foto: divulgação)

PÂES ARTESANAIS:

Não posso viver sem pães artesanais e, como não estava fazendo em casa, procurei boas opções para comprá-los. Na Vila Romana, outro bairro que amo na zona Oeste, tem duas padarias com excelentes pães elaborados com fermentação natural. A Masseria abre suas portas para os clientes apenas aos sábados, em um casarão onde se ministram oficinas para os interessados em aprender a arte de amassar (e amar) pão. Na carta, muitos pães de verdade, com grãos, sementes, castanhas… A Pain à Table, na rua Coriolano, também funciona como café e bistrô e tem ótimos pães de levain (fermento natural), além de patês e croissants crocantes e amanteigados na medida, comme il faut. O lugar é bem charmoso, ideal para um almoço ou chá da tarde com o pretê e com as amigas.

***

Se forem conferir as dicas, depois me contem que tal.

Em Rolé

35 Comente

10 versões “hereges” para Jesus: liberdade de pensamento e a neo-inquisição virtual

inquisição

(Enquanto isso, no twitter…)

Pouco antes do Natal, divulguei no twitter um texto escrito pela psicóloga norte-americana Valerie Tarico abordando o fato de as relações sexuais não consentidas estarem na origem da maioria das religiões, inclusive na concepção de Jesus Cristo (leia aqui o original e aqui, uma tradução). E perguntei: “Então, na verdade, Deus estuprou Maria?” Alguns dias depois, durante minhas férias, o post foi descoberto por algumas personalidades tuíticas (sei que parece ridículo, mas elas existem), que atiçaram a turba furiosa contra mim. Conservadores disfarçados de moderninhos, em fúria, defendendo a santa madre igreja da bruxa infiel.

Qual uma herege medieval, fui xingada, agredida, ameaçada de processo e até de excomunhão (?!). Teve um cara que me lembrou que eu havia pecado “contra o espírito santo”, como se eu, agnóstica, acreditasse em pecados. Muitos devem ter achado uma pena que a época em que se queimavam pessoas na fogueira por discordar dos textos “sagrados” tenha ficado no passado, e eu me salvei de virar churrasquinho nas mãos de reaças imbuídos do espírito natalino (sic). Não foi só aqui: nos EUA, Valerie também foi atacada como uma feminista que “odeia Cristo, odeia os homens e odeia as mulheres que os amam”. Incrível como os “jovens de direita” (ugh) são iguais em toda parte.

O que essas pessoas não sabem porque a falta de leitura também é uma característica comum aos jovens reaças– é que esta versão do Evangelho que eles reputam como a única em realidade é apenas a versão vencedora: a versão dos que mandam na Igreja, dos que fizeram a “santa” inquisição e ganharam a parada à custa de muitas vidas ceifadas e “conversões” ao cristianismo obtidas sob tortura. Mas, queira a direita ou não, houve diversas outras versões “hereges” para a vida de Jesus Cristo, exterminadas junto com seus defensores exatamente da forma que os neo-inquisidores adorariam para mim: na fogueira.

(Curioso é que, apesar de se arvorarem em defensores da religião, os jovens conservadores tampouco leram a Bíblia, ou não se escandalizariam assim, já que o que não falta no Velho Testamento são estupros, incestos, assassinatos e todo tipo de barbaridade cometida em nome do Senhor.)

Como nasceu Cristo? Depois de queimar muita gente que contava os fatos de maneira diferente, a igreja católica conseguiu, enfim, o seu “consenso” sobre a história de Jesus, aceita pela maioria dos cristãos sobre a Terra. Acredita nela, porém, quem quiser, ninguém é forçado. Felizmente, hoje em dia é possível mostrar, sem medo de morrer ou ir preso, que existiram divergências desde o princípio dos tempos, todas elas também cristãs. Eis algumas das versões antigas e novas para a história de Jesus:

inri

 Jesus Cristo é filho adotivo de Deus  O bispo de Antioquia, Paulo de Samósata, defendia que Jesus Cristo não era filho de Deus de fato, mas sim, filho adotivo. Ou seja, era apenas um ser humano iluminado que chegou à divindade, tornando-se filho de Deus a partir do batismo, e não desde o nascedouro. Essa crença, chamada Adocionismo, e seus seguidores, foram perseguidos pela igreja católica no século 3. Paulo de Samósata foi obrigado a abandonar seus postos eclesiásticos.

jesus

 Jesus não é uma divindade  Ário, presbítero de Alexandria por volta do ano de 319, sustentava que só existia um Deus. Jesus era seu filho, mas era um semideus, não uma divindade e por isso não conseguiu salvar a si mesmo ao ser pregado na cruz. Condenado por heresia pelo concílio de Nicéia no ano de 325, Ário e seus seguidores foram excomungados pela igreja.

cataros

3  Jesus era só um profeta  Os cátaros, divergência importante do cristianismo nos séculos 12 e 13, não acreditavam que Jesus era filho de Deus, embora se dissessem cristãos. Diz-se que a caça aos “hereges” seguidores do catarismo, que pregava a igualdade entre homens e mulheres, foi uma das principais razões para o surgimento da Inquisição. Centenas de milhares de cátaros foram chacinados e sua doutrina, sistematicamente destruída.

FOR USE WITH STORY VEGETARIANS

4  Jesus era vegetariano  Em 1881, o reverendo inglês Gideon Ouseley teria achado um manuscrito no Tibete que seria um “evangelho perdido”. O Evangelho dos Doze, em referência aos apóstolos, foi publicado pela primeira vez em 1901, e trazia versões vegetarianas para as lições de Cristo. “Não comereis a carne nem bebereis o sangue de nenhuma criatura abatida”, dizia o texto, nunca reconhecido, para alegria dos carnívoros pecadores. Alguns dizem que o próprio Ouseley inventou o evangelho para defender o vegetarianismo.

jevous

(imagem do filme Je Vous Salue Marie, de Godard)

5  Maria foi estuprada por Deus  Esta versão não foi inventada pela psicóloga que citei, ela existe. Especula-se que Maria tivesse entre 12 e 13 anos na época da concepção de Cristo. 14, no máximo. Fica difícil, assim, aceitar a versão vigente de que a menina deu o consentimento ao anjo Gabriel para que fosse “impregnada” pelo Espírito Santo. Os cristãos consideram suficiente o fato de ela supostamente ter respondido: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra”. Outros podem achar que não.

verhoeven

6  Maria foi estuprada por um soldado romano  Estudioso da Bíblia, o cineasta holandês Paul Verhoeven (sim, aquele de Robocop) publicou em 2007 um livro chamado Jesus de Nazaré onde sustenta que Maria foi estuprada por um soldado romano chamado Pantera, e assim concebeu Jesus Cristo. Estupros por soldados, diz Verhoeven, eram comuns naquela época. Jesus, portanto, seria um homem, não o filho de Deus. Um profeta radical que não operou nenhum milagre, ao contrário do que dizem os Evangelhos. O cineasta tenta filmar o livro desde então, mas até agora, nada.

judas

7  O filho de Deus é Judas  No conto Três Versões de Judas do seu livro Ficções (1941), o escritor Jorge Luis Borges cria um teólogo chamado Niels Runeberg, um especialista em refutar a biografia do “traidor” de Cristo. Numa delas, o segredo bem guardado por séculos: Jesus não pode ter sido o filho de Deus, porque era infalível. Judas, sim, era humano, capaz de erros. “Deus se fez total­mente homem até a infâmia, homem até a repro­va­ção e o abismo. Para salvar-nos, poderia ter eleito qualquer dos destinos que tramam a perplexa rede da história; poderia ter sido Alexandre ou Pitágoras ou Rurik ou Jesus; escolheu um ínfimo destino: foi Judas”.

8  Judas é um herói  No filme A Última Tentação de Cristo (1988), Martin Scorsese apresenta Judas como o herói responsável por tornar Jesus Cristo o “Messias” adorado por milhões em todo o mundo. Em uma versão paralela da história, o filme mostra o que teria acontecido se Judas não tivesse traído Jesus: teria se casado com Maria Madalena, teria tido muitos filhos, teria morrido velhinho, feliz e sem glória.

cogumelo

9 – Jesus é um cogumelo alucinógeno  Talvez a mais maluca (e a minha favorita) das versões sobre Cristo, o livro The Sacred Mushroom and the Cross causou barulho em 1970 ao sustentar que Jesus era, na verdade, uma ficção criada a partir do Mestre da Justiça dos essênios. Seu autor, o arqueólogo John Allegro, membro da equipe que traduziu os Manuscritos do Mar Morto, afirmava que nunca houve um Jesus Cristo e que esta era uma forma de referir-se em código ao cogumelo Amanita Muscaria, utilizado de forma mística pelos primeiros cristãos. Obviamente o livro lhe desgraçou a carreira, mas seus estudos estão sendo reconsiderados. Pessoalmente, acho que faz todo sentido.

deus

10  Jesus é vítima de Deus, não dos homens  Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), de José Saramago, Jesus é a vítima de um Deus tirano e egocêntrico que lhe dá a missão não desejada de representá-lo na Terra. Assombrado, o Cristo se sente mortificado pelas crueldades que serão feitas em seu nome: seres humanos degolados, mortos a tamancadas, flechados, empalados, queimados na fogueira. No fundo, o comunista Saramago pintou um Jesus muito mais humano do que o megalomaníaco que aparece nos Evangelhos, mas foi execrado pela igreja católica. Fosse em outra época, o que teria sido dele?

Em Blog

94 Comente