Parente é serpente: o curioso destino político da família Genro

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(Luciana Genro e o pai, Tarso. Foto: Claudio Fachel/Palácio Piratini)

Você que não aguenta mais, às vésperas de eleição, discussões sobre política em família, devia agradecer a Deus por não ter nascido um Genro. Ali sim é que o bicho tá pegando. A filha, Luciana, presidenciável do PSOL, enfrenta nacionalmente a candidata paterna, Dilma Rousseff. O pai, Tarso Genro, concorre à reeleição para o governo do Rio Grande do Sul disputando com o ex-marido da filha, Roberto Robaina (PSOL), pai de seu neto Fernando. Luciana vota no ex-marido e não no pai. O pai vota em Dilma e não na filha. O neto vota na mãe e no pai, mas não no avô. Já imaginou?

No final de agosto, no primeiro debate entre os candidatos ao governo gaúcho na TV, o tempo fechou entre Genro e o ex-genro (literalmente) Robaina, que protagonizaram o bate-boca mais acalorado da noite. O petista provocou primeiro, dizendo que o PSOL foi contra o ProUni, o que Robaina disse ser “uma fraude”, porque Luciana votara a favor quando deputada. “Tu funcionas mais como quinta coluna da Ana Amélia do que como um candidato de esquerda”, torpedeou Tarso. Robaina devolveu o petardo lembrando as alianças à direita feitas pelo PT. Tarso chegou a levantar a voz: “Tu tens que amadurecer um pouco politicamente, rapaz”.

Robaina diz que eles voltaram a se encontrar em outro debate e que não houve saia justa. “Foi normal, nós estamos acostumados a brigar”. A falta de simpatia mútua, digamos assim, entre os dois é evidente Tarso foi mais afável com a adversária Ana Amélia do que com o ex-genro. A acusação recorrente de petistas de “falta de maturidade” parece irritar o psolista. “O PT tenta passar essa ideia de que o PSOL é imaturo, mas a maturidade do PT é se juntar com famílias milionárias. O grande orgulho do Tarso, por exemplo, é uma multinacional chilena de celulose que está destruindo os pampas. Essa maturidade de aceitação do status quo nós não queremos. Preferimos manter a coerência”, alfineta. “Nós, do PSOL, temos orgulho de possuir essa alegria juvenil que o Plinio, sendo velho, tinha. Ele entendeu que a grande sabedoria é ligar a luta política à juventude.” Pergunto se ele será o Tarso amanhã. “Não, eu serei o Plínio amanhã”.

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(Luciana, o ex-marido Robaina e o filho de ambos, Fernando, em campanha pelo PSOL)

Fico imaginando uma longa mesa arrumada com toalha branca para o churrasco de domingo e estas figuras todas sentadas, com suas línguas e facas afiadas. Robaina, que se separou de Luciana quando Fernando tinha um ano e meio de idade (o rapaz tem 26 atualmente), logo esclarece que tem carinho pela família, mas não os freqüenta socialmente. “A gente não fica visitando ex-sogro”, ironiza. Luciana admite que as farpas fazem parte do menu das reuniões familiares, mas garante que partem do pai para ela e não o contrário. “Há uma troca de ironias, mas sem agressão. Ele é quem gosta, é o campeão da provocação. Fica sempre tentando dizer que o PSOL é pequeno, que temos poucos votos, fica se gabando de como é amado e apoiado… Para tentar me irritar. Quando eu era adolescente, conseguia. Mas hoje tenho mais o espírito da filha que quer que o pai seja feliz e não aceito as provocações baratas dele.”

No último Dia dos Pais, Tarso, gozador, publicou em seu facebook um vídeo em que o neto Rodrigo, de dois anos, “discursa” dá-dá-dá-dá e o avô tira onda: “Parece a Lu falando”. Luciana conta que o dissenso familiar é antigo e, até por isso, encarado com naturalidade. Vem, na verdade, do avô dela e pai de Tarso, Adelmo Genro, advogado, professor e velho militante socialista que presidiu o PSB gaúcho. O vô Adelmo saiu feroz em defesa da neta quando ela começou a confrontar o governo Lula e as alianças do PT, postura que acabou por levá-la a ser expulsa do partido após votar contra a reforma da Previdência, em 2003. “Ela puxou ao avô, porque não lambe o prato em que cuspiu”, bradava o patriarca diante de cenas esdrúxulas como a dos antigos desafetos petistas Fernando Collor e José Sarney posando pimpões ao lado de Lula.

As desavenças entre Luciana e Tarso eram mais comuns quando ela, aos 15 anos, decidiu entrar para a Convergência Socialista, corrente interna do PT, enquanto o pai militava em outra tendência, o PRC (Partido Revolucionário Comunista), ao lado de nomes como José Genoino e… Marina Silva. “Para tu ver que quem mudou foi ele, não eu!”, provoca Luciana. “O pai me levou para o PRC e me fez conhecer toda essa fauna das organizações de esquerda, mas acabei me identificando mais com a CS do que com o PRC. Isso foi complicado para ele aceitar.”

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(Tarso e o bebê Luciana em 1972, no Uruguai)

Luciana confessa ter dado risada quando assistiu ao pai atacando e sendo atacado pelo ex-marido no debate da Band entre os candidatos ao governo do Rio Grande do Sul, mas, alguns dias depois, quando encontrou Tarso, preferiu não tocar no assunto para não criar caso. Diz que tampouco tem discutido com ele sua performance nos debates presidenciais para não gerar constrangimento porque, afinal, a candidata do partido dele é outra. Tarso dorme cedo e não viu a filha nos debates, mas, ao assistir a um vídeo com os melhores momentos da presidenciável do PSOL que lhe foi mostrado por um assessor, o lado “pai orgulhoso” falou mais alto. “Muito bem. Falou tudo que eu queria dizer e não posso.”

Pergunto a Luciana se o pai costuma olhá-la com aquele olhar condescendente dos mais velhos diante de um político jovem, aquele olhar de “vamos-conversar-mais-para-a-frente” que os políticos experientes adoram exibir. “Acho que a idade ajuda neste excesso de pragmatismo que eles têm, de querer resultados mais imediatos e aquém do que desejavam originalmente. Os petistas se acomodaram. Eu vejo, pelos textos que o Tarso publica, que ele tem uma visão crítica do partido, mas acha que não existe vida política fora do PT. Cansou de remar contra a maré. Só que um dia a maré vai mudar”, aposta. Pergunto também a ela se não se transformará no Tarso amanhã. “De jeito nenhum. Este processo de construção de uma esquerda coerente não pode repetir o PT. Virar o Tarso é repetir o PT.”

“O Tarso” –é esquisito, mas todos se referem a ele assim. A filha, o ex-marido, o neto. Talvez para separar o político do familiar, termos como “pai” e “vô” ficam reservados para a intimidade. Fernando, filho de Luciana, foi durante os últimos 24 anos o único neto de Tarso Genro, até nascer Rodrigo, filho da médica Vanessa. Pode-se ter uma ideia, portanto, da enorme proximidade entre os dois. Mas Fernando, ex-jogador de futebol, é PSOL como o pai e a mãe e nunca votou no avô para um cargo eletivo  em 2002, quando Tarso perdeu, Fernando ainda não votava; em 2010, quando Tarso ganhou no primeiro turno, o neto escolheu Pedro Ruas, do PSOL. Agora, vota no pai e na mãe, claro.

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(Luciana, Fernando e Robaina)

“Não é uma questão de parentesco: me identifico com a postura ideológica e programática do PSOL. Acho que os governos federais do PT foram bastante decepcionantes do ponto de vista da esquerda”, critica. Faço mais uma vez a pergunta: o jovem que hoje é PSOL quando velho se tornará PT? “O Plínio provou que não é bem assim. Acho que existe um comodismo que vem com a idade, mas não é determinante. O próprio Tarso com certeza era mais PSOL na juventude. Talvez fosse mais fácil ser de esquerda quando a direita estava no poder.”

Seu avô pede para Luciana pegar leve com a Dilma nos debates? “Mas de jeito nenhum”, diz Fernando. “Ele jamais pediria isso, porque sabe que a construção do nosso partido passa pela crítica ao PT.” O filho de Luciana Genro vê como “saudável” o clima de discussões políticas PT X PSOL no seio familiar. “Esta dialética que acontece em casa é bacana porque possibilita tirar o que há de bom e ruim no PT, e o que há de bom e ruim no PSOL”, contemporiza.

Tarso Genro só votou na filha quando ela se candidatou a deputada federal pelo PT. Desde que se tornou PSOL, nunca. Mas na solidão da cabine não vai dar vontade de apertar o 50 e votar na filha para presidente? “Não, porque a responsabilidade política fala mais alto. Ela tem um projeto político muito diferente do meu partido. Eu votaria sempre na Luciana para filha, mas não para presidente”, espeta. O governador assume adorar provocar a filha. “Toda vez que a Lu chega em casa, eu digo: ‘como vai a revolução proletária?’”, e solta uma gargalhada.

Não que deixe de admirá-la. Considera Luciana “um grande quadro político”, mas não aparenta sentir o mesmo pelo ex-genro Robaina. “O Roberto é íntegro, mas temos uma diferença política muito grande. Ele está mais preocupado em desgastar a imagem do PT. A Luciana critica Dilma e Marina, mas está sendo mais lúcida”, diz. “O PSOL é um rescaldo político do socialismo do passado, com uma visão clássica vinculada à revolução bolchevique. É um projeto generoso, mas superado politicamente. Por isto utiliza esta linguagem que trata da mesma forma a direita e a esquerda.”

Pergunto, desta vez ao contrário, se Luciana será como ele amanhã. “O que ocorre com os trotskistas, pelo que tenho visto, é que normalmente eles saem da política e vão ser colunistas de jornal da direita… Espero que ela permaneça trotskista”, provoca. “Eu mesmo fui, durante anos, integrante do movimento comunista. Adquiri conhecimento e não me arrependo. Mas a estrutura de classes da sociedade mudou.”

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(Os Genro: Tarso, a mulher Sandra, Luciana e Fernando. Falta a outra filha do casal, Vanessa)

A mãe de Luciana, avó de Fernando, ex-sogra de Robaina e mulher de Tarso Genro, Sandra, é a pedra de toque desta história toda. Se o marido não estiver no páreo, a médica Sandra costuma declarar voto no PSOL. Quando Robaina saiu a prefeito, em 2012, ela declarou voto nele. Este ano vota em Luciana para presidente –não em Dilma, como o marido, pelo menos no primeiro turno. Mas vota em Tarso, claro, para governador. Felizmente, Luciana e o pai não se enfrentaram diretamente e Sandra não se viu obrigada a ter que escolher entre os dois, filha ou marido. Ainda.

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Marina Silva, a carranca e o estado laico

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(A carranca do rio São Francisco no saguão do ministério da Cultura)

Não tenho medo da vitória de Marina Silva. O povo é sábio e soberano. O que ele decidir, será. Irei respeitar e torcer para que dê certo, porque o País é o mesmo. Mas não voto em Marina. Obviamente, como pessoa de esquerda, me preocupa uma possível guinada neoliberal no governo com sua chegada ao poder assessorada por economistas que seguem esta cartilha. Existe, porém, uma razão mais forte que me impede de votar nela. O projeto de Brasil de Marina não é o meu, mas não voto nela principalmente porque não sinto confiança de que governará, sendo evangélica da Assembleia de Deus, a partir da concepção de um estado laico, como promete.

Há uma história que circula no ministério da Cultura desde a época de Gilberto Gil que para mim é emblemática. Gil ganhara uma carranca de madeira, daquelas que ficam na proa dos barcos no rio São Francisco, e chamou Marina, sua colega de prédio e ministra do Meio Ambiente, para “inaugurar” a obra, no hall de entrada comum a ambos ministérios. As carrancas são utilizadas pelos pescadores do rio como adorno e com a crença de que espantam maus espíritos. Marina teria se recusado a participar da cerimônia dizendo que a obra representava o “diabo”. Teria inclusive pedido para que fosse retirada do saguão. Se foi assim que ocorreu, o episódio não abalou sua proximidade com Gil, porque ele vai votar na ex-colega para presidente.

Em outra versão da história, contada em reportagem da revista Época de maio de 2008, a própria Marina teria sido presenteada pelos prefeitos da região do rio São Francisco com a carranca e teria se negado a receber o regalo, que ficou coberto até o final da cerimônia. Na mesma reportagem, uma bióloga do ministério do Meio Ambiente conta que, com Marina Silva à frente da pasta, reuniões técnicas chegavam a ser interrompidas para a realização de cultos evangélicos. Seu assessor Pedro Ivo, um dos coordenadores da campanha de Marina atualmente, negou os cultos durante o expediente, mas admitiu que, na hora do almoço, “funcionários se juntavam para rezar nas salas de reunião” (leia aqui).

Marina não me assusta. Fundamentalistas, sim. Estamos assistindo atônitos, nos últimos anos, à forte investida deles contra as bandeiras progressistas: a descriminalização do aborto como questão de saúde pública, a defesa dos direitos dos cidadãos LGBTs, a descriminalização das drogas. No segundo turno da última eleição, em 2010, os fundamentalistas jogaram as trevas sobre nós ao acusar Dilma Rousseff de ser “abortista”, levando a campanha ao mais baixo nível da história.

Eleita Dilma, não lhe deram trégua: à base de ameaças e chantagens, conseguiram barrar um kit educativo anti-homofobia por eles batizado como “kit gay”. Depois, no Congresso, os fundamentalistas lançaram sobre a Nação a praga de projetos medievais como o da “cura gay” e o Estatuto do Nascituro, apelidado de “bolsa-estupro” por seus críticos, porque prevê o pagamento de uma pensão à mulher que, vítima de estupro, decidir não abortar.

Por que falo em “fundamentalistas” e não “evangélicos”? Porque existem evangélicos progressistas. Gente cristã de verdade, que segue na vida o preceito de amar ao próximo como a si mesmo, e não odiar, como pregam alguns destes pastores insanos. É preciso separar o joio do trigo, distinguir os fiéis destes falsos “servos do Senhor”, interessados apenas em poder e dinheiro. Tenho certeza que muitos evangélicos não os suportam e conseguem enxergar com clareza a falta de cristianismo em suas palavras.

Marina é evangélica, mas honestamente não acredito que seja fundamentalista. De qualquer maneira, a história da carranca me deixou com o pé atrás. Também me chama a atenção o fato de nunca ter visto Marina em uma só foto que seja junto a representantes das religiões de matriz africana, alvos frequentes da intolerância dos fundamentalistas, embora tenha participado de uma campanha presidencial inteira em 2010. Eduardo Campos, sim. Inclusive sancionou em 2012, quando governador, um projeto que tombou terreiros de candomblé em Pernambuco.

Nos últimos dias, tivemos a notícia de que a campanha de Marina Silva voltou atrás e apagou do seu programa de governo o trecho que defendia o casamento gay e justamente após um dos fundamentalistas mais fanáticos e repulsivos, o pastor Silas Malafaia, tê-la criticado no Twitter. Malafaia, aliás, declarou voto na candidata. Marina também ganhou a declaração de voto no segundo turno de outro pastor fundamentalista, o deputado federal Marco Feliciano, já defendido por ela como “vítima” de hostilidades por ser evangélico e não por ser o autor de frases de cunho homofóbico e racista.

Se, ameaçada por esta gente, a presidente Dilma Rousseff foi capaz de recuos em projetos importantes para a comunidade LGBT, como acreditar que, tendo eles a seu lado e professando do mesmo credo, Marina Silva não fará igual? Ou pior?

O fundamentalismo religioso e sua perseguição aos homossexuais, à esquerda e aos progressistas de maneira geral são a minha maior preocupação no Brasil hoje. Tenho falado constantemente sobre a importância de o PT aproveitar este momento histórico para se livrar deles, definitivamente até porque preferem Marina. E conquistar a simpatia dos evangélicos que pensam de maneira diferente, mais condizente com o mundo moderno do que com preceitos ultrapassados ou mal interpretados propositalmente por pastores manipuladores.

Se Marina ganhar, espero de todo coração que eu esteja errada e que ela saiba de fato diferenciar Estado de religião. Que consiga domar os fundamentalistas a seu redor. Que lute pela tolerância com os gays e os adeptos de religiões de matriz africana com tanto fervor quanto prega por tolerância em relação aos evangélicos. E que cumpra sua promessa de fazer o governo laico que eu, infelizmente, não acredito que seja capaz de fazer.

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Nuvem, a bicicleta made in Brasília

(Uma das novas versões da Nuvem. Foto: Sérgio Amaral)

Reza a lenda que quando Renato Russo falava que Eduardo e Mônica “se encontraram no parque da Cidade, a Mônica de moto, e o Eduardo, de camelo”, o “camelo” em questão era uma Nuvem. Camelo é gíria de Brasília para bicicleta, e a Nuvem é legítima invenção candanga. O design não é niemeyeriano, mas bike mais brasiliense não há.

Tudo indica que seu criador foi Zé do Pedal ou Zé Cadima, personagem folclórico da capital que virou até documentário, onde diz, orgulhoso: “A Nuvem foi minha criação que acabei deixando para a humanidade”. O modelo original foi montado a partir do quadro de uma velha Monareta, bicicleta que marcou a infância de quem cresceu na década de 1970. Com rodas aro 20 (uma bicicleta comum, de adulto, tem aro 26), coroa grande, guidão alto e freio contra-pedal, o camelo de Zé Cadima fez a fama derrotando muita bicicleta importada em rachas na capital.

(A boa e velha Monareta)

(A boa e velha Monareta)

Nos anos 1980, auge do rock Brasília e do Legião Urbana, a onda entre os meninos da Asa Sul era pegar a bike, também chamada de “camelinho”, e ir dar um rolé no parque. Há dois anos, com as novas ciclovias construídas, a capital vive um boom de ciclismo e a Nuvem voltou.

Surgiu um clube de fãs da bicicleta no Facebook e uma agência de turismo, a Experimente Brasília, promove city tours em uma frota de Nuvens amarelas. Durante a Copa, uma loja criou uma coleção delas com as cores e bandeiras de vários países. “A Nuvem virou cult”, diz Daniel Malva, da Commute Bike. “É uma coisa nostálgica, tem gente que chega aqui e diz: ‘não acredito, já tive essa bike’. Já chegamos a vender uma com selim e manoplas inglesas por 2 mil reais.” O preço médio varia de 650 a 800 reais.

(O bicicleteiro Filé em sua oficina na cidade-satélite de Sobradinho. Foto: Sérgio Amaral)

Por que Nuvem? Outra lenda: o nome veio do hábito dos pioneiros fãs da bicicleta de pedalar fumando uns cigarrinhos de aroma peculiar –daí a ausência de freio manual. “Quem andava nela tinha fama de maconheiro”, entrega Filemon Carvalho, o Filé, que produz a bicicleta de forma artesanal há 35 anos na cidade-satélite de Sobradinho. “A galera ia pedalando e a fumacinha seguia atrás…”

Assista ao documentário sobre Zé do Pedal, personagem brasiliense:

(Reportagem originalmente publicada na edição 814 de CartaCapital)

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Mais reaças que o rei

(Marina, Aécio e Dilma no debate da Band. Foto: Miguel Schinchariol/divulgação)

Entre todos os candidatos presentes ao primeiro debate entre os presidenciáveis na rede Bandeirantes, nem mesmo o pastor evangélico assumidamente de direita foi capaz de dizer que existe uma ameaça à democracia no Brasil sob o governo do PT. Nenhum deles falou que o PT defende censura à imprensa. Nem que os índios estão tomando a terra dos “brasileiros”. Quem fez isso foram dois jornalistas, Boris Casoy e José Paulo de Andrade, escolhidos pela emissora para fazer perguntas (ou editoriais disfarçados de perguntas) aos candidatos.

Casoy e Zé Paulo conseguiram ser mais reaças do que todos ali. Nunca vi, num debate, jornalistas se comportarem como opositores dos candidatos no caso, Dilma Rousseff, do PT, e Marina Silva, do PSB, porque com o tucano Aécio Neves foram só levantadas de bola para ele cortar. Nunca vi, num debate, um jornalista fazer pergunta para um candidato criticando outro concorrente. Sobriedade mandou lembranças.

Mas o que mais me espantou é que nem Dilma nem Marina e nem mesmo Luciana Genro, do PSOL, candidatas mais à esquerda no espectro político, foram capazes de denunciar, de retrucar com veemência, posturas tão arcaicas quanto às demonstradas pelos dois jornalistas, certamente com o aval dos patrões.

Colhi algumas das pérolas da noite, confiram.

De José Paulo para Luciana com comentário de Dilma:

 A questão indígena, que até no Rio Grande do Sul se agrava, com índios essa semana fazendo policiais de reféns. Na Bahia, como ocorreu em Roraima com a Raposa Serra do Sol, brasileiros trabalhadores estão sendo expulsos da terra onde estavam há gerações. A crítica à Funai é que só antropólogos determinam a política indigenista. Recentemente, em audiência na Câmara, o ministro da Justiça falou em fortalecimento da Funai, mas até agora nada se fez. A pretexto de incluir os excluídos, exclui-se os incluídos. Candidata, somos ou não iguais em direito? Qual seria sua política indigenista?

De José Paulo para Aécio com comentário de Dilma:

 O governo federal criou por decreto o Conselho de Participação Social. É uma instância direta vista com apreensão por muitos setores: seria uma ameaça ao Congresso Nacional e consequentemente ao equilíbrio institucional. Seria uma bolivarização do Brasil nos moldes chavistas e agora a própria candidata acaba de lançar a ideia de um plebiscito para fazer a reforma política, o que, me parece, deixa de lado o Congresso Nacional. Como o candidato vê a movimentação dessas peças no tabuleiro político?

(Aécio, é claro, surfa na onda da “preocupação” em “garantir a democracia”, mas Dilma dá uma boa resposta: “É estarrecedor que se considere plebiscito algo bolivariano. Então a Califórnia pratica o bolivarianismo.”)

De Boris para Marina com comentário de Aécio:

 Setores da economia criticam o que classificam, candidata, de seu “radicalismo ambientalista”. Segundo eles, esse tipo de posição tem criado obstáculos para o desenvolvimento da economia do país. Citam o exemplo da usina de Belo Monte, que poderia produzir 11 mil megawatts e, por exigências ambientais consideradas exageradas, só vão produzir 4 mil. Como a senhora responde a essas críticas?

De José Paulo para Everaldo com comentário de Aécio:

 Os candidatos de oposição temem perder votos com posições que não sejam favoráveis à manutenção dos programas sociais do governo, que acabam sendo cabos eleitorais importantes, e nisso exageram, prometendo aumentar os benefícios que no fim vão pesar na carga tributária já elevada, como é o caso da Poupança Jovem do candidato Aécio. Se há uma justificativa a curto prazo para incluir os brasileiros menos favorecidos, quando é que vamos ensiná-los a pescar?

(Até o Aécio acha Zé Paulo reaça demais neste momento.)

De Boris para Eduardo Jorge com comentário de Dilma:

 Por considerar um assunto importante e grave, que envolve a liberdade no país, vou voltar à questão do controle social da mídia. O partido da presidente, o PT, insiste num plano de censura à imprensa, que eufemisticamente chama de democratização da mídia. A bem da verdade, a presidente Dilma, a candidata Dilma, não adotou, criou uma barreira, não tem colocado em prática, apesar da insistência do partido, essa ideia. Eu queria perguntar: se eleito, o candidato Eduardo Jorge vai levar esse plano adiante?

(Eduardo Jorge, para riso geral, diz concordar com Dilma.)

Quando vejo os planos dos coronéis da mídia para o Brasil, transmitidos por seus funcionários em um debate supostamente jornalístico e “imparcial”, percebo o quão diferentes são minhas críticas ao governo Dilma das deles. Percebo o quanto minha ideia, meus sonhos de País, se diferenciam dos proprietários dos meios de comunicação como a Rede Bandeirantes.

Critico a Dilma porque ela precisava ser mais atenta à questão indígena e à ambiental a mídia acha que Dilma precisava ser ainda mais permissiva com os fazendeiros e o grande poder econômico (e o mesmo desejam de Marina).

Critico a Dilma por não ter concretizado a democratização da mídia, pondo fim à propriedade cruzada dos meios de comunicação, por exemplo, proibida em vários países. Isso nada tem a ver com censura eufemismo quem usa são eles, ao dizer que democratizar a mídia é censurar. Os donos da mídia não querem a democratização porque temem perder seu poder, derivado do fato de que menos de uma dúzia de famílias (como os Saad, da Band) detém a maioria dos meios de comunicação no País.

Aplaudo o PT pelos programas sociais que incluíram milhões de brasileiros e acho que deve haver cada vez mais inclusão a mídia acha os programas sociais, assim como as cotas nas universidades, desnecessários e excessivos.

Critico o PT por não ter batalhado mais pela reforma política e aplaudo a iniciativa de propor um plebiscito para fazê-la a mídia aponta o plebiscito como “antidemocrático”, sendo que ouvir a população sobre este tema seria justamente o contrário. Curioso é que eles são contrários a ouvir a população sobre a reforma, mas foram a favor de plebiscito para dar direito às pessoas de terem armas… No fundo, não querem a reforma política porque são contra o financiamento público de campanha. A mídia sabe que o financiamento privado favorece os candidatos com maior poder econômico os seus, e portanto é melhor que continue assim.

O País dos reaças da mídia não me interessa. Ele é pior do que o que temos hoje. Mais injusto, mais desigual, mais concentrado nas mãos de poucos. Exatamente como a própria mídia.

 

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Biógrafo Lira Neto: ao se matar, Getúlio Vargas adiou o golpe militar por dez anos

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(Getúlio Vargas por Jean Manzon)

Já passava das 11 horas da noite do dia 7 de setembro de 1979, na praça Maurício Loureiro, centro de São Borja (RS), quando Leonel Brizola (1922-2004) subiu no palanque para fazer seu primeiro discurso em território brasileiro após voltar dos 15 anos de exílio que lhe foram impostos pela ditadura militar. Diante de 1500 pessoas, o trabalhista Brizola fez questão de destacar uma teoria que muitos ainda hoje ignoram ou rejeitam: o suicídio de Getúlio Vargas em 24 de agosto de 1954 foi capaz de deter por dez anos o golpe que se abateria sobre o Brasil em abril de 1964.

Segundo Brizola, ao escrever “saio da vida para entrar na história” na célebre Carta-Testamento, Getúlio publicava “uma denúncia e ao mesmo tempo uma antevisão”. Prevendo o golpe, Vargas se matava para deter a quartelada que se desenhava com o manifesto assinado, na véspera, por 19 generais exigindo sua renúncia entre eles, o mesmo Castelo Branco que se tornaria presidente à força dez anos depois. Aeronáutica e Marinha já haviam feito idêntico pedido.

“Isso não é aceito pelas elites de nosso país, pela maioria dos sociólogos, pela maioria dos cientistas políticos, mas estou convencido que o Presidente Vargas anteviu este regime, até pensando que viesse no dia imediato à sua morte, mas foi o impacto emocional de seu gesto que ainda permitiu que as nossas liberdades fossem respeitadas durante mais dez anos”, afirmou Brizola, de acordo com o jornal Folha de S.Paulo, citado no livro El Caudillo, de FC Leite Filho.

Getúlio deixara com João Goulart, seu ex-ministro do Trabalho, uma das três cópias da Carta-Testamento, sinalizando que ele seria seu principal herdeiro político. Alçado ao poder em 1961, Jango herdaria também o ódio das mesmas forças que levaram Getulio ao suicídio: os militares, o conservadorismo e a imprensa.

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(Jango e Tancredo Neves à frente do funeral de Getúlio em 1954)

Procurei o autor da monumental biografia de Getúlio, Lira Neto, para averiguar se ele concorda com a visão de Brizola e também para saber de que forma, ideologicamente, ele situaria o complexo Vargas. Vejam a entrevista.

Brizola dizia que, ao se suicidar, Getúlio adiou o golpe militar em dez anos. É verdade?
Lira Neto: Mais do que uma tese defendida por Brizola, esta é uma constatação histórica, esposada por vários especialistas e estudiosos. Basta dizer que os almirantes, brigadeiros e generais que assinaram os três célebres manifestos militares exigindo o afastamento de Getúlio do poder em agosto de 1954 foram os mesmos que derrubaram João Goulart em 1964. Até o pretexto de que Getúlio planejava instaurar uma república sindicalista se repetiu na deposição de Jango. Em um e outro caso, os mesmos udenistas e setores conservadores do empresariado forneceram o apoio político-civil aos quartéis para derrubar um presidente constitucionalmente eleito.

Dá para imaginar hipoteticamente o que teria acontecido com o Brasil se Getúlio não tivesse se matado?
Lira: Ao optar pelo suicídio, Getúlio neutralizou os adversários que já se consideravam vitoriosos e com o poder nas mãos. O golpe civil-militar já estava em plena execução. Muito provavelmente, Getúlio seria retirado do palácio e levado para a prisão e, posteriormente, para o exílio. Os militares jamais repetiriam o “erro” de 1945, quando após derrubá-lo permitiram que ele permanecesse livre, em território nacional, recolhido a São Borja, articulando as circunstâncias de sua volta ao poder, o que afinal ocorreu em 1950, por extraordinária votação popular. Nos três livros, mostro como, desde sempre, já a partir de 1930, Getúlio trabalhou com a perspectiva do sacrifício pessoal como um ato político de resistência, como um protesto eloquente contra os inimigos. Ele jamais se permitiria passar à posteridade como um derrotado, exposto ao vexame, eternizado por um fracasso. Nesse sentido, encontrou, na morte, a sua vitória.

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(Brizola, sua mulher Neusa e Getúlio)

Brizola e Jango eram seguidores do trabalhismo. Darcy Ribeiro via o trabalhismo como uma espécie de socialismo. Você concorda?
Lira: Na verdade, Getúlio era um homem pragmático, que se amoldava de acordo com as circunstâncias, para além das convicções ideológicas. Em 1929, em entrevista a um jornal gaúcho, disse que sua grande inspiração política era, textualmente, “a renovação criadora do fascismo de Benito Mussolini”.  No momento em que a democracia e o sistema representativo se encontravam em xeque, com a quebra da Bolsa de Nova York e a Grande Depressão norte-americana, ele se posicionava como um simpatizante assumido dos regimes autoritários europeus, incluindo o nazifascismo, que surgia como pretenso antídoto para a crise do regime democrático. Chegou, inclusive, a cogitar o apoio brasileiro ao Eixo durante a Segunda Guerra, mas acabou aderindo aos Aliados por questões econômicas e estratégicas.

Alguns avanços de Getúlio na área trabalhista são modernos até hoje, tanto é que sofrem críticas dos setores mais conservadores da economia. Neste aspecto, pode-se dizer que Getúlio era “de esquerda”?
Lira: Quando Getúlio, após a queda em 1945, retornou ao cenário político em 1950, em pleno contexto da Guerra Fria, a defesa que sempre fizera do Estado intervencionista o colocou, pelo menos no plano do discurso, à esquerda do espectro político. Enquanto seus adversários pregavam a manutenção do alinhamento incondicional aos Estados Unidos, interpretando assim de modo esquemático qualquer negação ao liberalismo como uma opção pelo comunismo russo, ele passou a defender a “democracia social”, reforçando a ideia geral de que se convertera ao socialismo. Tratava-se, é claro, de uma simplificação, de um reducionismo. Getúlio sempre foi um anticomunista ferrenho. E, a rigor, com sua política de industrialização e de urbanização do país, promoveu a gênese do próprio capitalismo no Brasil.

Mesmo seu primeiro governo tendo sido uma ditadura severa, você considera que Getúlio teve qualidades como presidente? Quais?
Lira: Getúlio, com todas as suas inúmeras contradições, deixou pelo menos dois grandes legados para o país. O primeiro foi o seu projeto nacional desenvolvimentista, que nos legou por exemplo a Petrobras, a siderúrgica de Volta Redonda e o BNDES, conduzindo assim um país agrário, semifeudal, monocultor, para o caminho da industrialização. O outro legado, sem dúvida, foi a vasta legislação trabalhista, que impôs um relativo equilíbrio na relação entre capital e trabalho e representou um inegável avanço para uma nação que, numa perspectiva histórica, se encontrava recém-saído da escravidão. Em síntese, Getúlio ajudou a modernizar o Brasil. Mas, mesmo nesse caso, é preciso evitar o pensamento simplista. As conquistas no campo do trabalhismo não podem ser entendidas como um gesto benevolente e magnânimo de um “pai dos pobres”. Elas foram conquistas da própria classe trabalhadora. Getúlio teve a sensibilidade histórica e a astúcia política de responder a uma demanda pré-existente. O movimento sindical dos anos 20, controlado por anarquistas e comunistas, pressionava por mudanças. Ao decretar leis favoráveis ao trabalhador, Getúlio tomou-lhes a bandeira e passou a tutelar o sindicalismo, por meio do Ministério do Trabalho. Bom lembrar que não havia sindicatos livres durante o Estado Novo.

Por último: por que São Paulo não tem nenhuma avenida com o nome dele?
A rusga dos paulistas com a memória de Getúlio remete, é óbvio, ao trauma da Revolução Constitucionalista de 1932. Contudo, como bem salientam vários historiadores e cientistas políticos, São Paulo acabou sendo o grande beneficiado pela política de industrialização da chamada Era Vargas. Com um detalhe: na sua volta ao poder, nas eleições de 1950, Getúlio teve a campanha financiada por membros da emergente burguesia industrial paulista.

Clique aqui para ler mais sobre Getúlio e o golpe de 1964 no especial da EBC, de onde reproduzo este vídeo com Lira Neto:

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