R.F.Lucchetti X Zé do Caixão: uma história de amizade e rivalidade no mundo do terror

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(O roteirista e escritor R.F.Lucchetti. Foto: divulgação)

Aos 85 anos, o roteirista e escritor R.F.Lucchetti é o co-autor de algumas das histórias e do gibi de Zé do Caixão, o maior de todos os personagens brasileiros de terror. Mas não ficou famoso como José Mojica Marins, que dirigiu e deu vida ao macabro agente funerário desde os anos 1960. Para Mojica, Lucchetti escreveu O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968), O Despertar da Besta (1969) e Quando os Deuses Adormecem (1972), entre outros títulos considerados pela crítica como os mais importantes da carreira do cineasta. No entanto, em parte dos trabalhos, como ocorreu com o filme Exorcismo Negro, de 1974, o nome do roteirista nem sequer foi citado nos créditos.

Após anos em silêncio, Lucchetti foi redescoberto nos últimos anos e atualmente tem até perfil no facebook, que utiliza para vender as próprias obras. São mais de 1500 livros publicados, com seu nome ou sob pseudônimo, que lhe renderam a fama de “papa da pulp fiction” no Brasil. Além de Mojica, Lucchetti foi roteirista dos filmes de “terrir” do cineasta Ivan Cardoso, como O Segredo da Múmia, de 1982. Agora sai em livro, pela Verve, Conversações com R.F.Lucchetti, uma compilação das entrevistas que concedeu ao longo de cinco anos ao radialista Rafael Spaca –por carta, pois até então o paulista de Santa Rita do Passa Quatro e que hoje vive em Jardinópolis se recusava a tocar num computador.

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(Um dos livros que Lucchetti assinou sob pseudônimo)

Quando Spaca o encontrou, Lucchetti se sentia esquecido. “Ele nunca deixou de produzir, de escrever e te acreditar no que fazia. Porém, fazia quase uma década que não lançava um livro, não recebia convite para escrever roteiros para o cinema, e se sentia muito triste com isso”, conta o jornalista. “Eu o incentivava a abrir uma conta no facebook, isso permitiria a aproximação dele com o público. Mas sua aversão ao computador era muito grande. Até que em outubro do ano passado ele aderiu. Foi um espanto geral. Muitos achavam até que ele já tinha morrido… Durante duas semanas ele escreveu mensagens para as pessoas acreditarem que era ele mesmo que estava lá, a noticia circulou, a imprensa cobriu e hoje ele está aí, interagindo com pessoas do mundo todo. Lucchetti é um ícone e não sabia disso.”

Nas entrevistas reunidas no livro, sobressai a relação ambígua de Lucchetti com Mojica. Ao mesmo tempo que o roteirista afirma ser “amigo” do cineasta, se mostra magoado pela falta de reconhecimento (com Ivan Cardoso, ao contrário, mostra uma convivência mais fraterna). “Existe uma mágoa profunda. Lucchetti sente-se usado por Mojica. No livro, ele deixa bem claro como sua trajetória profissional foi prejudicada em razão das atitudes do Mojica”, diz Spaca. “Além do não-reconhecimento do seu trabalho, foram vários os episódios em que o Mojica falava mal dele ‘pelas costas’, prejudicando assim novas relações de trabalho com outros cineastas.”

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(O número um do gibi roteirizado por Lucchetti com arte de Nico Rosso)

O ponto culminante do imbróglio entre os dois foi a história em quadrinhos de Zé do Caixão, que Lucchetti roteirizou e batalhou para publicar, com desenhos do lendário Nico Rosso, mas que, na última hora, Mojica acabou transferindo para outra editora, com acabamento inferior. Assim conta o roteirista:

“Em 1968, o Nico e eu tínhamos a revista A Cripta, que, segundo a crítica especializada ‘veio trazer uma nova dimensão aos quadrinhos de Horror’. Mas estávamos insatisfeitos pelo péssimo tratamento gráfico que a editora, a Taika, vinha dando à nossa revista. E resolvemos interromper sua publicação. No seu lugar, criamos O Estranho Mundo de Zé do Caixão e recebemos do Mojica a autorização de usar o nome de seu personagem (a HQ saiu pela editora Prelúdio). Numa noite, quando o quarto número da revista estava indo para as bancas de jornal, cheguei aos estúdios do sr. Mojica e encontrei-o conversando com o produtor gráfico Reinaldo de Oliveira. Na mesma hora, fiquei com a pulga atrás da orelha. Dois ou três dias mais tarde, chegou à Prelúdio uma carta registrada em cartório, comunicando que ‘a partir de seu quinto número O Estranho Mundo de Zé do Caixão passará a ser publicada pela Editora Dorkas, com a qual o sr. José Mojica Marins assinou um contrato de exclusividade; e, a partir da data desta carta, a Editora Prelúdio está proibida de usar a marca Zé do Caixão’. A carta vinha assinada pelo sr. Reinaldo de Oliveira, diretor editorial da Dorkas. O término da revista também selou o término de minha colaboração com o sr. José Mojica Marins.”

A relação entre Mojica e Lucchetti tem, no entanto, sequência, ou uma tentativa de, com o roteiro de Encarnação do Demônio, filme que encerraria a trilogia de Zé do Caixão na década de 1980. O escritor chegou a elaborar um roteiro, baseado em Sete Ventres para o Demônio, livro que escreveu no começo da década de 1970 e que foi publicado em 1974 pela Cedibra. “Mas, quando vi, numa entrevista, o sr. Mojica exibindo uma encadernação vermelha e dizendo que era o roteiro de Encarnação do Demônio, percebi que havia perdido meu tempo. Então, rasguei tudo o que tinha escrito, porque não fazia sentido guardar algo que nunca iria se concretizar. Perdera meu tempo”, conta no livro. Com outro roteirista, o filme acabou finalmente estreando em 2008.

Lucchetti parece se divertir rebatendo cada declaração pública do “amigo” cineasta sobre seu trabalho como roteirista, como quando foi “acusado” por Mojica de gostar de castelos demais. “Ele tem esse problema da Inglaterra, que terror tem que ter castelo. Pro Zé do Caixão não dá certo”, disse o cineasta. Para responder, o roteirista se ampara em uma citação da biografia do próprio Mojica, o livro Maldito (editora 34), de Ivan Finotti e André Barcinski:

“Lucchetti e Rosso transpuseram para as páginas do gibi o mesmo clima dos filmes de Mojica: com histórias simples, acessíveis a todo o público, e cenários que lembravam qualquer cidadezinha do interior do país. Nada de castelos europeus e fog londrino; o horror de Lucchetti e Rosso era coisa nossa.”

Ferino, cita a pouco conhecida marchinha do carnaval de 1969 O Castelo dos Horrores, gravada por ninguém menos que o próprio Mojica Marins, que cantava: “Eu moro no castelo dos horrores. Não tenho medo de assombração. Eu sou Zé do Caixão.” Lucchetti provoca, triunfal: “Aí estão as evidências. Quem é que põe castelo no Brasil? Que responda o leitor.”

Para provocá-lo ainda mais, Rafael Spaca lembra do trecho do programa Roda-Viva com Mojica, de 1998, em que Ivan Cardoso cobra o colega.

Ivan Cardoso: Por que você fala tão pouco do Lucchetti, Mojica?

Mojica: Eu não tô falando pouco do Lucchetti…

Ivan Cardoso: Ele é um grande artista, você deveria falar mais então…

Mojica: O Lucchetti, você perguntou, fez doze roteiros.

Ivan Cardoso: Por que você fala tão pouco do Lucchetti? Ele é um grande artista, você devia divulgar mais ele…

Segundo Lucchetti, Mojica o “escondia” porque temia que ele o deixasse. Para comprovar, conta que uma vez encontrou com o jornalista Giba Um, que ficou surpreso em vê-lo e disse que uma vez tentara entrevistá-lo para uma revista, mas teria ouvido de Mujica: “O Lucchetti é um cara excêntrico. Ele vive no interior de São Paulo, numa mansão cercada por enormes muros e patrulhada por uma matilha de cães ferozes. Ele não recebe ninguém, a não ser eu.”

“Acho tudo isso muito deprimente”, diz o escritor. Será que Mojica irá responder? Mistério.

 

capalucchetti

 

 

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Janine, novo ministro da Educação, aconselha Dilma a se comunicar melhor com o povo

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(Renato Janine Ribeiro em sua casa em São Paulo. Foto: CartaCapital)

Em novembro do ano passado, estive na casa do professor Renato Janine Ribeiro em São Paulo para conversar sobre política. Enquanto tomávamos um café em seu simpático sobrado na Aclimação, Janine me falou de suas preocupações com o segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff, recém-reeleita. A entrevista foi publicada na revista CartaCapital. Com a sua escolha para ministro da Educação, resolvi divulgar aqui uma versão estendida daquele bate-papo.

As críticas que o filósofo fazia ao governo e também à oposição são muito pertinentes. Alguém assim me representa no ministério e espero que a presidenta o ouça –se o chamou, parece claro que está disposta a ouvir. Espero que logo possamos a tomar um café novamente para que ele me conte de suas ideias à frente da pasta.

***

“Oposição tem de atuar com ideias, sem ódio”

O filósofo Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia Política na USP (Universidade de São Paulo), declarou voto em Dilma Rousseff por achar que o PT conduz melhor as políticas sociais. Mas está preocupado. Acha que a presidenta terá que mudar seu modo de governar se quiser fazer um segundo mandato melhor que o primeiro: ser menos centralizadora, delegar mais poder e não inibir os ministros e colaboradores. “Se dentro dela houver uma disposição maior ao diálogo, será muito bom”, aconselha Janine. Ele falou a CartaCapital em sua casa, em São Paulo.

CartaCapital – A eleição de Dilma surpreendeu o senhor?

Renato Janine RibeiroEra imprevisível o que ia acontecer porque nunca tivemos uma eleição tão parecida com um thriller, um romance policial. Inclusive a morte de Eduardo Campos é destas histórias que se você colocasse num romance ia parecer apelação. Em um ano e meio, uma presidenta passa de 60% de aprovação, uma reeleição tranquilíssima, garantida, para um desgaste, e depois quando surgiu Marina, a chance forte de perder… Desde a morte de Eduardo, quem fosse apostar, ia apostar pelo menos 50% na chance de ela perder. Foi um trabalho muito grande para conseguir ganhar.

CC – De onde vem esse desgaste?

RJR Basicamente de dois pontos: de um lado, da campanha de desconstrução dela e do PT que tem pelo menos três anos. O primeiro ano do governo dela teve uma espécie de lua-de-mel. A mídia e a oposição estavam festejando o fato de que ela demitia os ministros suspeitos ou acusados e então isso trouxe, sobretudo com o contraste de uma certa tolerância do governo Lula, uam popularidade da Dilma nos setores reticentes ao PT. Essa popularidade não necessariamente iria se traduzir em votos. Duvido que essas pessoas fossem votar nela. Mas a partir do segundo ano de mandato foi um ataque ininterrupto, inclusive com um descolamento entre o que era dito e o que era entendido. Nunca li nenhum artigo, ninguém que acusasse Dilma de algum ato de corrupção. Os atos de corrupção sempre foram colocados na conta de outras pessoas, não há uma única acusação a ela. Mas na opinião pública de oposição colou a ideia de que ela e o partido eram corruptos. Então houve de um lado esse trabalho de desconstrução que culmina com a edição da Veja a poucas horas do pleito, com farta distribuição, propaganda no rádio e TV, recusa de publicar direito de resposta concedido pelo TSE… E, do outro lado, as falhas do próprio governo. Talvez a principal seja a dificuldade da presidenta de lidar com a política, a dificuldade dela de negociar. Um dos significados da política é que você não dá ordens, você ouve, escuta e tenta construir a mais ampla base possível. E ela não dialogou especificamente com três setores: primeiro, os empresários. Muitos se queixaram por um longo tempo não tanto do PT, não tinha uma queixa ideológica, até porque muitos gostavam de Lula, mas havia uma queixa de falta de comunicação, de que Dilma não os recebia, não dava sinais claros para onde ia a economia, e eles não sabiam como fazer suas escolhas. Apesar de os empresários terem um poder de fogo porque têm o capital, numa sociedade capitalista não há como não ouvi-los. O segundo ponto foi o pouco diálogo com os políticos, mesmo. Eles também foram pouco recebidos, pouco levados em conta. Mas o mais grave, a meu ver, do ponto de vista de um partido como o PT, é a falta de comunicação com o povo. Isso não tem nada a ver com técnica de comunicação, com o marqueteiro. E aí está outro erro: ter pensado que isso era uma coisa de marketing, então tinha que contratar o João Santana e aí resolve isso. Não. A questão de comunicação com o povo, para o PSDB, pode ser uma questão de técnica. Para o PT é uma questão de essência, de cerne. Se ele não se comunica com o povo, como é dos trabalhadores? E, no entanto, ela não se comunicou com eles. Ela parece gostar da política mais do lado poder do que do lado diálogo, discussão, escuta e tentativa de dar uma orientação. E isso faz um contraste muito grande com os dois últimos presidentes. Fernando Henrique não se metia na gestão, não devia entender de gestão, mas conseguiu vender o peixe da estabilização monetária e mesmo o das privatizações, um peixe indigesto, e conseguiu convencer que isso era bom. Teve uma excelente comunicação com a classe média. E Lula, que é um comunicador ainda melhor, conseguiu se comunicar com pessoas mais pobres, com muito mais gente que o Fernando Henrique. O problema da Dilma é que não fez nenhuma das duas coisas.

CC – Dilma tem condições de rever essa postura e fazer um segundo mandato melhor que o primeiro, como aconteceu com Lula?

RJRPrecisar, ela precisa. Tinha que fazer ontem. Se ela vai querer e vai conseguir é outra história. Embora eu nunca a tenha visto pessoalmente, o que a gente ouve é dessa dificuldade de diálogo, essa tendência mais a dar ordens do que a escutar. É muito difícil mudar as pessoas. Tanto é que o segredo do Duda Mendonça para tornar o Lula popular não foi inventar um Lula novo, foi tirar a casca grossa do sujeito reclamão, cara fechada, e mostrar o lado alegre, feliz, bem-humorado. No caso da Dilma, será que ela consegue fazer isso sem ser forçado? O melhor momento de fala dela até hoje foi na discussão com o senador Agripino, quando ele a questionou de ter mentido sobre a tortura. Parece que quando ela fala de coração, sem seguir nenhum script, vai melhor. E nos debates ela tem script, foi treinada, recebeu um media training e isso não funciona muito bem com ela. Se dentro dela houver uma disposição maior ao diálogo e ela conseguir utilizar isso, será muito bom. Sem isso vai ser muito difícil o segundo mandato. Ela precisaria fazer concessões à direita e à esquerda. À esquerda tem toda uma agenda, pelo menos de costumes, ao qual ela não deu muita importância. Tem uma área, no que diz respeito aos Direitos Humanos e ao Meio Ambiente, que é muito deficiente. Cedeu aos setores mais conservadores e na hora do voto foi o pessoal dos Direitos Humanos que foi apoiá-la, enquanto os homófobos haviam ido em sua maioria para Aécio. Então vai ter que abrir por esse lado. Na agenda econômica, tem que fazer sinais para a direita, ou para o capital. O capital não necessariamente vai assumir as bandeiras da direita, mas o capital é por natureza conservador. Como vai conseguir negociar com todas essas pessoas se ela primou, até agora, por não negociar? 

CC – A presidenta centraliza demais?

RJR Tudo que a gente lê é que ela é muito centralizadora, delega muito pouco, inibe os ministros, os colaboradores, desautoriza de público… Isso inibe a criatividade. Um caso que sempre lembro: Haddad, quando era ministro da Educação de Lula, foi acordado de madrugada com a notícia de que haviam roubado as provas do Enem. E teve que tomar uma decisão super-rápido. Imagina ter que ligar para o Lula às 3 da manhã para pedir autorização para cancelar o Enem? Ou se cancelasse e duas horas depois o presidente mandasse fazer? Esse tipo de risco um ministro não pode correr. Outra coisa: você tem um ministério de pouco brilho. Um ministro que foi brilhante no governo Lula, Celso Amorim, nas Relações Exteriores, ninguém acompanha o que ele faz na Defesa. Gilberto Carvalho, Marco Aurélio Garcia… Estão apagados agora. Mesmo um ministro de maior projeção, como o Mercadante, você não ouve sobre iniciativas dele.

CC – A alegada divisão no Brasil sempre existiu, foi incentivada pelo PT ou pela mídia?

RJRExiste um clima alimentado por alguns veículos, sobretudo uma revista, que é um clima de ódio. Mas acho que pelo menos 50% das pessoas não dão muita importância à política. Dos 30% a 40% que dão, uma parte está muito antagônica à outra. Mas vejo essa revolta, essa intolerância, mais no eleitorado tucano. Isso não quer dizer que os 48% que votaram em Aécio são intolerantes, um terço, talvez. E um número menor ainda fala em impeachment. Mas ficou uma divisão que não é geográfica, é uma divisão entre os que se sentem beneficiados pelas políticas sociais do governo petista e os que ou se sentem prejudicados ou têm preconceito contra as pessoas que foram subindo na vida. Havia uma expressão horrorosa nos anos 1960 quando houve os conflitos raciais nos EUA: “no Brasil não temos isso porque os negros conhecem seu lugar”. A ideia de que o pobre sabe qual é “o lugar do pobre” sempre foi forte no Brasil.

CC – E como fica a oposição?

RJRA grande questão é se os tucanos vão conseguir fazer uma oposição para além do ódio. O que estou vendo é que o PSDB falhou em ser um grande partido liberal, dos empreendedores, e acabou se tornando o partido do grande capital. O grande problema do PSDB é não ter uma proposta, então acaba precisando dos votos do ódio. Isso justifica a proximidade com os blogueiros do ódio. Certamente o PSDB não os chamaria para nenhum cargo importante, mas iriam ter um espaço na máquina de propaganda. O problema disso é que o PSDB acaba tendo uma parte do eleitorado que é pior do que sua liderança, o que me parece um gigantesco erro político.

 

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Uma entrevista com a “sem-terra do Outback” (Ou: como a direita perdeu a noção do ridículo)

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Em março do ano passado, um direitista sem o menor respeito pela privacidade alheia fotografou uma moça com camiseta do MST (Movimento dos Sem-Terra) almoçando no restaurante Outback enquanto digitava algo ao telefone. Não era ninguém famoso. Era uma pessoa qualquer. Mas os reaças ficaram ouriçados.

Era preciso achincalhar a “sem-terra” que se atreveu a ir comer naquela churrascaria “chique” (na verdade uma reles franquia), assim como fizeram, tempos atrás, com um grupo do MST fotografado em frente a um McDonald’s, como se fosse coisa de outro mundo comprar uma casquinha de sorvete, pouco importando o lugar (detalhe: custa R$2,50). Mesquinhez no último. No que depender deles, pelo visto, brasileiros sem-terra não podem nem tomar sorvete.

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Pois a “notícia” de que uma sem-terra estava rangando no Outback foi parar até no site da revista Veja pelas mãos do colunista fã do Pateta. No facebook, um jovem reaça famosinho fez um meme que tornou a imagem viral.

outback

Este ano, às vésperas da marcha de direita contra Dilma, a imagem voltou a circular –na manifestação, inclusive, foram vistos cartazes onde essa gente pede a “criminalização” do MST por ser “um grupo paramilitar”. O que a divulgação dessa foto e a chacota em cima dela dizem a respeito da direita brasileira?

Em primeiro lugar, escancara o preconceito que eles têm com os sem-terra. É como se pensassem assim: “o que faz essa ‘sem-terra’ chechelenta em nosso ambiente diferenciado?” Ora, por que uma pessoa pobre não poderia ir ao Outback? Só se estivesse de uniforme? Se fosse uma babá vestida de branco, cuidando das crianças enquanto os patrões burgueses comiam, estava liberado?

Em segundo lugar, vem a “patrulha da moda reaça” tentando ditar o que se deve ou não se deve vestir para “ir ao Outback”. Quem define isso? Onde está escrito que não se pode ir ali com uma camiseta do MST ou com uma camiseta vermelha qualquer? Qual o problema desse pessoal com o vermelho, afinal?

Em terceiro lugar: o que tem a ver a posição política da pessoa com o lugar onde ela vai comer? Isso não é uma questão de gosto? Eu, por exemplo, não vou ao McDonald’s principalmente porque acho a comida ruim, gordurosa, pouco saudável. Mas o que eu tenho a ver com quem gosta da comida de lá?

Resolvi ir direto à fonte e entrevistei a “sem-terra do Outback” para saber o que ela acha disso tudo. M.P., de 40 anos, moradora de Brasília, preferiu não se identificar para preservar a família de novos ataques dessa gente.

Socialista Morena – Olá, você é sem-terra?

M.P. – Não, sou jornalista.

SM – Por que você resolveu ir ao Outback usando uma camiseta do MST?

M.P. – Porque todas as da Abercrombie estavam sujas. Hahaha.

SM – Sério, por que você usou uma camiseta do MST num local assim?

M.P. Essa pergunta faz tanto sentido quanto perguntar para alguém por que vestiu uma pólo Ralph Lauren e mocassins para comer pastel na feira.

SM – Qual sua relação com o MST?

M.P. – Nenhuma. Eu admiro o MST. Sou fã. Da mesma forma que pessoas que admiram o agronegócio não têm fazendas, há pessoas que admiram os sem-terra sem ser um deles.

SM – Não é incoerente admirar os sem-terra e ir num restaurante bacana?

M.P. – Por que, é incoerente admirar o capitalismo e tirar férias? Eu vivo do meu trabalho, não exploro ninguém. Paguei para estar ali, tanto quanto um sem-terra de verdade poderia pagar, se tivesse ganhado, com o suor do seu rosto, dinheiro suficiente para isso –se não fosse explorado pelos que têm terra, por exemplo, talvez pudesse. Incoerente seria eu admirar os sem-terra e ser dona de uma fazenda que usa trabalho escravo. No entanto, tem muitos exploradores de trabalho escravo que pregam ‘ética na política’. Isso, para mim, é uma puta incoerência e não vejo a reaçada criticando.

SM – O que você achou dessa repercussão toda em torno da foto?

M.P. – Fiquei chocada ao descobrir que as pessoas andam espionando umas às outras. Um clima de X9 típico da época da ditadura militar, que, aliás, muitos que difundiram a imagem admiram. Também me impressionou a superficialidade do discurso: em vez de criticar o fato de ainda ter gente que luta por um pedaço de terra no Brasil, eles criticam que uma pessoa pobre vá comer cebolas fritas…

SM – Você vai usar de novo essa camiseta do MST quando for ao Outback?

M.P. Será que vão me atacar se eu usar uma camiseta pró-LGBTs sem ser gay? Ou talvez prefira uma nova que tenho do Movimento dos Sem-Teto, toda roxa, quem sabe? Tem também um boné bem legal que ganhei da Marcha das Vadias….  Ou uma do Movimento Zapatista que comprei na minha última viagem ao México. Ainda não decidi. 

SM – Depois não reclame quando te chamarem de esquerda caviar.

M.P. Imagina, acho chique. Mas quero dizer que prefiro bottarga.

 

 

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Socialista Morena Repórter

jacoby

(O correspondente da revista Time Melville Jacoby em 1942, na Austrália. Foto: Carl Mydans)

O blog vai publicar reportagens de autoria de jornalistas (ou não-jornalistas) e estudantes de jornalismo (ou de outra área) de todo o Brasil. A remuneração será de acordo com a tabela de free-lancer do sindicato dos jornalistas do Distrito Federal (confira aqui). Mande sua pauta para cynara@socialistamorena.com.br. Não importa o assunto: tenha em mente apenas que seja um tema sobre o qual as pessoas desfrutem ler e que seja provocativo, que desafie o status quo. Reportagens curtas em vídeo também serão aceitas.

 

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Herberto Helder (1930-2015): o poema não é um objeto

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(Foto: Alfredo Cunha/Porto Editora)

Considerado o maior poeta português da atualidade, o madeirense Herberto Helder, morto aos 84 anos em Cascais, poderia ser ainda mais conhecido no mundo não fosse por uma característica singular: não dava entrevistas nem se deixava fotografar. A foto que acompanha este post é uma das poucas imagens conhecidas de Helder, e uma das últimas, feita por insistência de seu editor em fevereiro deste ano.

Zeloso de que sua obra se mostrasse por si mesma, só se conhece uma entrevista do poeta, publicada em 1968 na extinta revista Luzes da Galiza. E era, na verdade, uma auto-entrevista onde Helder falava sobretudo do ofício de escrever. Em 1994, foi agraciado com o prêmio Pessoa, uma das mais importantes do país, mas recusou. Seu último livro, A Morte Sem Mestre, de 2014, veio acompanhado de um CD onde se pode ouvir a voz do poeta que amava viver anônimo.

Se um dia destes parar não sei se não morro logo,
disse Emília David, padeira,
não sei se fazer um poema não é fazer um pão
um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre as linhas,
um dia destes vejo que não vou parar nunca,
as mãos súbito cheias:
o mundo é só fogo e pão cozido,
e o fogo é o que dá ao mundo os fundamentos da forma,
pão comprido nas terras de França,
pão curto agora nestes reinos salgados,
se parar não sei se não caio logo ali redonda no chão frio
como se caísse fundo em mim mesma,
a mão dentro do pão para comê-lo
–disse ela.

Em 1960, foi fichado pela ditadura de Salazar enquanto visitava uma biblioteca em Castro Verde como suspeito de ter “características comunistas” e de ser “inimigo das instituições”. Helder chegou a se filiar ao PCP (Partido Comunista Português), mas não militou. Seu filho, o jornalista e político Daniel Oliveira, foi do PCP e mais tarde se tornou um dos fundadores do Bloco de Esquerda.

herbertocomunista

Abaixo, trechos da auto-entrevista (íntegra aqui) e um poema onde Herberto Helder define como é escrever. Boa leitura.

“Um objeto pode ser útil ou decorativo, e a poesia não o pode ser nunca” (Herberto Helder)

Escreve-se um poema devido à suspeita de que enquanto escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formidável, algo que nos transformará, que transformará tudo. Como na infância, quando se fica à porta de um quarto obscuro e vazio. Fica-se durante um minuto uma brisa levanta-se nos confins da obscuridade: um redemoinho no ar, uma luz, uma iluminação talvez? Estamos prontos para o assentimento. Outro minuto, cinco, dez, ali, diante do anúncio suspenso e ameaçador: não acontece nada. Poder-se-ia esperar um dia inteiro, dias seguidos. Às vezes para-se no meio de um parque ou de um jardim ou de uma avenida deserta. São variantes do quarto. Acontece o mesmo, quero dizer: não acontece nada. A suspeita apenas de que nos aguarda uma espécie de graça reticente, um dom reticente. Ou contempla-se um rosto, alguém que se ama, um ser imediato; ou então um rosto desconhecido, defendido. Pensamos: é uma vida nova, uma força nova e profunda, é uma paisagem misteriosa, profunda e nova que se relaciona intimamente conosco: vai revelar-se. E a outra pessoa olha para nós perdida nas perspectivas inquietas da nossa contemplação. E recomeça-se. O mesmo, sempre. Nada.

Escrevi para fornecer uma forma legível e apaziguadora para os momentos na porta do quarto, no parque, na rua vazia, defronte do rosto aparecido. Escrevi para trás numa espécie de engolfamento memorial. Não consegui nada, foi continuar no quarto, no jardim, à frente das caras súbitas. Mas conheço agora a existência de uma pergunta inesgotável que se formula, se assim posso dizer, pela objetivação dos arredores evasivos, das alusões, dos sinais remotos.

Não se coloca o tema da utilidade, porque, pergunto: em que âmbito é útil seja o que for? Interessa-me este resultado: o de que em mim, expressando-se em gramática, em pauta, há uma expectativa ardente, uma ardente pergunta sem resposta, uma perplexidade ardente que me concedem um centro, um ponto de vista sobre a debandada das coisas, coisas centrífugas para diante, nos dias, no caos dos dias, centrífugas para trás, nos instantes mais densos da memória, átomos fosforecendo no caótico fluxo da memória. E então eu sei: respiro nessa pergunta, respiro na escrita dessa pergunta. Qualquer resposta seria um erro. Como eu próprio sugeri algures: um erro das musas distraídas…

Quero eu dizer que qualquer resposta seria uma arrogância, um erro para os resultados da ação. O conceito célebre, o celebérrimo, de que um poema é um objeto –bom, tornou-se um lugar comum, já nem sequer se pensa nisso, di-lo toda gente: os poemas são objetos–, ora este conceito estabeleceu-se num terreno móvel, movediço, sim objetos, mas como paramentos, ornamentos e instrumentos: as máscaras, os tecidos, as peles e tábuas pintadas, os bastões, as plumas, as armas, as pedras mágicas. É prático o uso que deles sempre se faz, uma resposta necessária ao desafio das coisas ou à sua resistência e inércia. No entanto, repare, ou atuamos nas zonas do quotidiano de onde não foi afugentado o maravilhoso ou existem outras zonas, um quotidiano da maravilha, e então o poema é um objeto carregado de poderes magníficos, terríficos: posto no sítio certo, no instante certo, segundo a regra certa, promove uma desordem e uma ordem que situam o mundo num ponto extremo: o mundo acaba e começa. Aliás não é exatamente um objeto, o poema, mas um utensílio: de fora parece um objeto, tem suas qualidades tangíveis, não é porém nada para ser visto mas para manejar. Manejamo-lo. Ação, temos aquela ferramenta. A ação é a nossa pergunta à realidade; e a resposta, encontramo-la aí: na repentina desordem luminosa em volta, na ordem da ação respondida por uma espécie de motim, um deslocamento de tudo: o mundo torna-se um fato novo no poema, por virtude do poema –uma realidade nova. Quando apenas se diz que o poema é um objeto, confunde-se, simplifica-se; parece realmente um objeto, sim, mas porque o mundo, pela ação dessa forma cheia de poderes, se encontra nela inscrito; é registo e resultado dos poderes. E temos essa forma: a forma que vemos, ei-la: respira, pulsa, move-se –é o mundo transformado em poder da palavra, em palavra objetiva inventada, em irrealidade objetiva. Se dizemos simplesmente: é um objeto –inserimos no elenco de emblemas que nos rodeia um equívoco melindroso, porque um objeto pode ser útil ou decorativo, e a poesia não o pode ser nunca. É irreal, e vive.

***

Sobre um poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

***
LIVROS DO AUTOR PUBLICADOS NO BRASIL: O Corpo O Luxo A Obra (Iluminuras), Os Passos em Volta (Azougue) e Ou o Poema Contínuo (Girafa).

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