Dilma, olhe para os presídios

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(O presídio de Pedrinhas, no Maranhão. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Para manter ao lado os formadores de opinião de esquerda que ajudaram a tornar possível sua reeleição, a primeira coisa que a presidenta Dilma Rousseff deve fazer, em minha opinião, é soltar com urgência um pacote de bondades na área dos Direitos Humanos. Ela já falou em criminalização da homofobia e acenou para os índios, dois setores em que falhou no primeiro mandato. Acho que é preciso olhar ainda para uma parcela de brasileiros que também conta e aposta no PT para melhorar de vida: os presos.

Como em todas as eleições, os presidiários aptos a ir às urnas (sem condenação definitiva) votaram em massa no PT. Isto acontece por duas razões: a primeira é que os detentos são, em sua imensa maioria, pobres, estrato da sociedade que mais se identifica com o partido; a segunda razão para os presos votarem no PT é porque acreditam que nenhum outro partido será capaz de tirá-los da situação de extrema penúria em que se encontram. Infelizmente, desde que chegou ao poder, em 2003, o PT não olhou para eles com o cuidado devido.

Dilma fala agora em federalizar a segurança. Por que não planejar algo em termos federais para os presídios, também? As cadeias do Brasil são feitas para tudo, menos para recuperar gente. Uma vez que um jovem entra ali, dificilmente terá condições de deixar o caminho do crime. Pelo contrário: vai sair da cadeia pior do que entrou. Foi exposto à realidade daqueles depósitos de pobres e negros, onde seres humanos são tratados como animais que não merecem conviver em sociedade. Quem sairia melhor de um ambiente desses? 

A direita brasileira não vê o preso como ser humano. Não lhe interessa dar a ele uma segunda chance. Não lhe interessa recuperá-lo para o convívio em sociedade. Para a direita, “bandido bom é bandido morto”. Nós, da esquerda, vemos de maneira oposta. Acreditamos que todo ser humano tem condições de se recuperar e merece uma segunda chance, e o Estado deve ter papel fundamental nisso. 

No ano passado, fiz uma reportagem enfocando um tema que parece simples de resolver e no entanto é fonte de inúmeros problemas no sistema prisional: a alimentação dos presos. Hoje, nos presídios do País, são oferecidas marmitas preparadas por empresas terceirizadas que faturam milhões oferecendo comida de péssima qualidade aos presidiários. “Ah, mas criminoso tem mesmo é que sofrer”, podem dizer alguns. Tolice. Somos nós que pagamos por essa comida, boa ou ruim, com preços duas vezes superiores aos cobrados aqui fora.

Mais: prisões com comida ruim têm mais motins, o que afeta toda a sociedade. A alimentação precária é uma das principais razões para as rebeliões. Está provado ainda que a comida na cadeia é melhor e mais barata quando é confeccionada pelos próprios detentos, que, ao mesmo tempo, podem abater os dias trabalhados na cozinha em suas penas. As prisões brasileiras faziam o próprio rancho até o final da década de 1980, quando o sistema foi terceirizado graças à ideia de algum “gênio” privatista. É claro que as empresas que fornecem as quentinhas se tornaram grandes doadores de campanhas eleitorais, para todos os partidos…

Obviamente é um esquema que favorece e muito a corrupção. Em Minas Gerais, por exemplo, a Polícia Federal desbaratou um esquema responsável pelo desvio de pelo menos um terço dos 166 milhões de reais pagos pelo governo do Estado aos fornecedores de marmitas aos presos entre 2009 e 2011 (governos Aécio Neves e Antonio Anastasia). Sete empresas estavam envolvidas, lideradas pela Stillus Alimentação, de propriedade de Alvimar de Oliveira Costa, irmão do senador Zezé Perrella (PDT-MG), aquele do helicóptero com cocaína (leia mais aqui).

Será que é tão difícil acabar com as marmitas e voltar ao sistema anterior, se era mais eficiente? As cenas dantescas exibidas ao País no presídio de Pedrinhas, no Maranhão, em outubro de 2013, aparentemente foram esquecidas. Passado o impacto e a indignação do momento, nunca mais se falou delas nem da situação carcerária. O cenário de terror, porém, permanece idêntico não só lá como na maior parte dos presídios brasileiros, superlotados, degradados, alvos de denúncias de tortura e maus tratos.

Se pretende intervir na segurança, como diz, o governo federal precisa estar atento aos presídios, investir em sua humanização. É o mínimo que se pode esperar de um governo que se diz de esquerda: tentar recuperar seres humanos que falharam. Existem modelos em outros países que podem ser seguidos, mas também no próprio Brasil. Um modelo elogiado internacionalmente é o das APACs (Associação de Proteção e Amparo aos Condenados), criadas em São Paulo em 1972 e hoje com 40 unidades em todo o País. O índice de reincidência nas APACs é muito menor. Por que o modelo não é replicado? A meu ver, falta vontade política. Melhorar a vida de presos não ganha votos.

A propósito: segundo matéria no site da Folha de S.Paulo, só um detento votou no presídio de Pedrinhas no segundo turno. Em Dilma.

UPDATE: Paulo Malvezzi, assessor jurídico da Pastoral Carcerária, entidade pela qual sinto o máximo respeito, me procurou para dizer que tem restrições ao modelo das APACs e apresentar sua posição, a seguir:

“A Pastoral Carcerária, junto com outras organizações, apresentou um programa nacional para a política criminal e penitenciária, que tem como eixo a reversão do atual processo de encarceramento em massa, articulando 10 propostas detalhadas e justificadas em nossa agenda (clique aqui para saber mais):

1 – Revogação do programa nacional de apoio ao sistema prisional e suspensão de qualquer verba voltada à construção de novas unidades prisionais;

2 – Pacto Republicano para a construção de plano plurianual de redução da população prisional e dos Danos Causados pela Prisão;

3 – Alterações legislativas para a máxima limitação da aplicação de prisões cautelares;

4 – Contra a criminalização do uso e comércio de drogas;

5 – Contração máxima do sistema penal e abertura para a Justiça horizontal;

6 – Ampliação das garantias na LEP (Lei de Execução Penal;

7–Ainda no âmbito da LEP: abertura do cárcere e criação de mecanismos de controle popular;

8 – Vedação à privatização do sistema prisional;

9 – Prevenção e Combate à Tortura;

10- Desmilitarização das Polícias e da gestão pública.”

Presidenta Dilma, não está na hora de ouvi-los?

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O PT derrota a elite (e sua imprensa) pela quarta vez com a força do povo

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(Dilma e Lula em Recife. Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula)

O PT não é um partido perfeito, longe disso. O PT cometeu erros. Mas, se fosse derrotada hoje, Dilma Rousseff o seria pelos acertos do PT. Não pelos erros. A elite brasileira e a imprensa que a representa odeiam o PT não porque o partido esteve envolvido em denúncias de corrupção ou porque o Brasil “vai mal” economicamente. Eles odeiam o PT porque não concordam com seu projeto para o País. Querem outro, o seu.

A elite brasileira e a imprensa que a representa odeiam, em primeiro lugar, Lula. Não porque Lula despreza as famílias que são donas dos meios de comunicação. É o contrário: Lula despreza as famílias que são donas dos meios de comunicação porque sempre foi maltratado por seus jornais, TVs e revistas, porque foi vítima de seu enorme preconceito de classe. A elite e a imprensa que a representa não suportam que não seja um dos seus que esteja à frente do poder no Brasil.

Dilma achou que podia seduzir a imprensa, atraí-la para seu lado. Doce ilusão. Foi um dos maiores erros do primeiro mandato e espero que corrija no segundo. Dilma, a imprensa jamais a apoiará, simplesmente porque o projeto que você defende é considerado pela elite e pela imprensa que ela representa– arcaico, anacrônico, ultrapassado. Presidenta, ouça o que eu digo: você só teria a mídia a seu favor se rompesse com Lula. Lembre-se das cizânias entre vocês que a imprensa semeou durante os últimos quatro anos. Você vai ver como será a partir de agora: mal foi consagrada sua vitória e já tem gente na mídia falando em impeachment.

Os jornais brasileiros nunca trataram o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que fez um governo pífio, muito aquém do governo Lula em resultados sociais e, inclusive, econômicos, como tratam o ex-operário Lula. A revista Veja, braço armado da oposição no Brasil, usou a palavra “apedeuta” (analfabeto, ignorante) mais de 2 mil vezes para se referir ao ex-presidente em seu site nos últimos anos. Veja fez mais de uma dezena de capas contra Lula a última delas esta semana, em mais uma acusação sem provas.

O filho de Lula é alvo de boatos e notícias falsas desde que a revista Veja o colocou como destaque de uma de suas edições. Repare que nunca foi questionada pela revista, por exemplo, qual a fonte de renda do filho de FHC, Paulo Henrique. A Folha de S.Paulo, por sua vez, teve o desplante de publicar um artigo em que um ex-petista ressentido acusava Lula de nada mais nada menos que tentar estuprar um rapaz. A imprensa estrangeira, que pagou mico e fez mea culpa por ter copiado o terrorismo da mídia nativa em relação aos preparativos da Copa (em vez de praticar jornalismo), precisa saber dessas coisas, mostrar ao mundo que no Brasil a verdadeira oposição ao PT vem da imprensa.

Não foi o PT quem jogou “pobres contra ricos”, “negros contra brancos”. É a imprensa quem tenta jogar pobres e ricos, negros e brancos contra o PT. Não foi Lula quem criou esta divisão no Brasil ou no mundo. Ela sempre existiu e é alimentada pela elite e pela imprensa que a representa. O PT nada mais fez que mostrar que essas diferenças estão aí e estabelecer estratégias para diminui-las. Isto é uma qualidade do PT, mas, para a imprensa, é um defeito. O Brasil não está dividido, ele É dividido. Como disse uma leitora no Facebook: só que um dos lados também passou a ter voz.

Hoje Dilma foi reeleita contra toda a mídia brasileira. Foi reeleita com o voto de gente sofrida, dos brasileiros de todas as regiões que mais precisam da ajuda do governo, e também com os votos de brasileiros que não precisam de ajuda alguma, mas que não votam pensando só em si. Votam pensando em um Brasil mais inclusivo e menos desigual. Votamos no PT porque o projeto do partido é o que mais contempla nossa sede de justiça social. Não nos sentimos representados pelo projeto de País que a imprensa brasileira tenta nos impingir, nos empurrar goela abaixo junto com o candidato da vez.

A responsabilidade do PT e de Dilma é imensa agora. É preciso, como sempre, governar para todos, mas é preciso ter um olhar especial para os desejos dos que tornaram realidade esta reeleição. Vá em frente, Dilma. Vá em frente, PT. Pisem fundo. Seu projeto de Brasil é o que queremos. Não o da imprensa.

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Dilma X Aécio: algumas comparações

(Aécio e Dilma no debate do SBT, no último dia 17. Foto: divulgação)

(Aécio e Dilma no debate do SBT, no último dia 17. Foto: divulgação)

Dilma Rousseff e Aécio Neves nasceram em Belo Horizonte, Minas Gerais. Dilma em 1947. Aécio em 1960.

O pai de Dilma era um imigrante búlgaro, Pedro Rousseff, advogado e empresário. Aécio vem de uma família de políticos. Seu avô materno era Tancredo Neves, que foi ministro da Justiça de Getúlio Vargas, governador de Minas Gerais e primeiro presidente civil eleito, ainda no colégio eleitoral, pelo MDB. O pai de Aécio, Aécio Cunha, foi deputado federal pela Arena, partido que apoiava a ditadura militar.

A jovem Dilma lutou como guerrilheira contra a ditadura militar, foi presa e barbaramente torturada. Aécio era criança no período.

Dilma e Aécio se formaram em economia. Dilma pela UFRGS e Aécio pela PUC-MG.

O primeiro emprego de Dilma foi aos 28 anos, como funcionária da FEE (Fundação de Economia e Estatística), de onde seria demitida pela ditadura. Torna-se assessora da bancada do PDT, partido no qual militava junto com o então marido, Carlos Araújo. Em 1986, é indicada secretária municipal da Fazenda do prefeito Alceu Collares, de cuja campanha participara ativamente. Em 1989, indicada pelo PDT, torna-se diretora-geral da Câmara de Vereadores. Retorna à FEE em 1991 como sua presidente, nomeada por Collares, agora governador do Rio Grande do Sul. Em 1993, torna-se Secretária de Minas, Energia e Comunicações do governo gaúcho. Em 1999, indicada pelo PDT, é nomeada Secretária das Minas e Energia do governo Olívio Dutra. Em 2001, Dilma filia-se ao PT e em 2002 integra a equipe de transição do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. É indicada por Lula ministra das Minas e Energia e, em 2005, para a Casa Civil. Lula a lança candidata a presidente da República e, em 2010, ela é eleita.

Aos 17 anos, enquanto estudava no Rio, Aécio foi nomeado para seu primeiro emprego: oficial de gabinete do Cade, orgão do ministério da Justiça, com sede na capital federal. Aos 19 anos, ainda estudando e morando no Rio, se tornou assessor do gabinete do próprio pai, deputado federal, em Brasília. Em 1983, se torna secretário particular do avô, o governador Tancredo Neves. Ao se eleger presidente, Tancredo indicou o neto como secretário de Assuntos Especiais da Presidência só em 1990 a prática de manter parentes sob a chefia imediata foi proibida. Após a morte de Tancredo, recém-formado em Economia, aos 25 anos, Aécio é nomeado diretor de loterias da Caixa Econômica pelo presidente José Sarney e por seu primo, o ministro da Fazenda Francisco Dornelles. Em 1986, é eleito deputado federal e reeleito em 1990, 1994 e 1998. Em 2002 foi eleito governador de Minas e em 2006, reeleito.

Dilma é odiada pelos militares que participaram ou aprovam a ditadura. Aécio recebeu o apoio deles.

Dilma chama o golpe militar de “golpe”. Aécio chama o golpe de “revolução”.

O padrinho político de Dilma é o ex-presidente Lula, do PT, cujo governo foi marcado pelo crescimento, pela valorização das empresas e bancos públicos, pela diminuição da desigualdade e da pobreza, pelo salário mínimo em alta, pelo fim da dívida externa, pelo respeito à soberania nacional, pelo baixo desemprego, pela valorização do ensino superior, pela abertura de novas universidades e pela política externa voltada para a América do Sul, para os países emergentes e para a África.

O padrinho político de Aécio (além de seu avô Tancredo) é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, cujo governo foi marcado pelas privatizações de empresas públicas, pela recessão, pelo desemprego, pela desigualdade, pela fome no Nordeste, pelo salário mínimo em queda, pela dependência do FMI (Fundo Monetário Internacional), pelo sucateamento do ensino superior e pela política externa de subserviência aos Estados Unidos.

Entre os artistas que apoiam Dilma, estão Chico Buarque, Luis Fernando Verissimo e Gilberto Gil. Aécio tem o apoio de Chitãozinho & Xororó, Dado Dolabella e Luciano Huck.

Dilma recebeu o apoio do deputado federal e militante da causa LGBT Jean Wyllys. Aécio tem o apoio dos homofóbicos Marco Feliciano, Pastor Malafaia e Bolsonaro.

No primeiro turno, Dilma teve mais votos entre os mais pobres e negros. Aécio teve mais votos entre os mais ricos e brancos.

Quando Dilma sobe nas pesquisas, os especuladores não gostam e a bolsa cai. Quando Aécio sobe nas pesquisas, os especuladores comemoram e a bolsa sobe.

Dilma é rejeitada pelas multinacionais do petróleo. A possibilidade de Aécio ser eleito já virou motivo de comemoração para as multinacionais do petróleo.

Machistas odeiam Dilma. Machistas adoram Aécio e enumeram suas façanhas amorosas.

Dilma é contra a redução da maioridade penal. Aécio é a favor.

Dilma sofreu oposição ferrenha da imprensa durante a maior parte do seu governo, mas nunca censurou nem perseguiu ninguém, embora o PT seja acusado seguidas vezes pela mesma imprensa de “atentar” contra a liberdade de expressão.

Aécio foi blindado pela imprensa local e nacional durante toda a sua carreira política, mas é acusado de censurar e perseguir jornalistas.

Nos governos do partido de Dilma, o PT, todas as denúncias foram investigadas, permitindo que membros de seu partido fossem punidos. Nos governos do partido de Aécio, o PSDB, todas as denúncias foram engavetadas e ninguém jamais foi punido.

Dilma é a favor das cotas por raça e renda. O vice de Aécio, Aloysio Nunes (PSDB), foi o único senador brasileiro que votou contra as cotas.

O projeto econômico de Dilma é conhecido e prioriza a justiça social. O projeto econômico de Aécio é obscuro e prioriza o sistema financeiro.

O modelo de Dilma é a favor dos bancos e empresas públicas. O ministro da Fazenda de Aécio, Arminio Fraga, diz que este modelo é incompatível com o crescimento, que os bancos públicos terão suas funções reduzidas e  que não sabe bem “o que vai sobrar, talvez não muito”.

Existem diferenças fundamentais entre Dilma e Aécio. É preciso ter olhos para ver

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10 perguntas que eu queria fazer para Arminio Fraga (mas ele não quis responder)

(Arminio Fraga e Guido Mantega em debate promovido pela GloboNews. Foto: divulgação)

(Arminio Fraga e Guido Mantega em debate promovido pela GloboNews. Foto: divulgação)

Estou convencida de que nós, que não entendemos nada de economia, precisamos fazer um esforcinho extra, porque este é o principal assunto nesta eleição, ao lado das questões morais. Escolher entre dois modelos econômicos distintos, que definirão qual é o Brasil que queremos: é isto que vamos fazer no segundo turno. O problema, a meu ver, é que falta transparência ao projeto do PSDB. O do PT a gente já conhece. Obviamente são necessários ajustes (o ex-ministro Bresser-Pereira falou muito bem aqui), mas, na pior das hipóteses, será mais do mesmo. Enfim, sabemos qual é o projeto econômico do PT, mas não sabemos qual é exatamente o projeto econômico do PSDB. A não ser pelo que os mais velhos já vivenciamos, o que não é nada animador.

Pensando nisso, resolvi colocar mãos à obra e decidi procurar a melhor pessoa para esclarecer minhas dúvidas: o principal assessor econômico de Aécio Neves, ex-presidente do Banco Central de Fernando Henrique Cardoso e cotado como futuro ministro da Fazenda se o tucano for eleito. O carioca Arminio Fraga, 57 anos, brasileiro com dupla nacionalidade norte-americana, não possui assessor de imprensa. Sua assistente me disse que escrevesse um e-mail solicitando a entrevista, com os meus contatos. Foi o que fiz.

“Olá, Márcia, tudo bom? Acabei de falar contigo pelo telefone. Então, como te expliquei, fiz há poucos dias uma entrevista com o ex-ministro Bresser que repercutiu muito no meu blog. E gostaria muito de fazer algo semelhante com o dr. Arminio Fraga. Ou seja, uma entrevista para ‘leigos’ em economia, para tentar entender mais ou menos qual é o projeto econômico do PSDB.

Um abraço e obrigada,

Cynara”

A resposta chegou em exatos 13 minutos:

“Prezada Cynara,

O Dr. Arminio Fraga lhe agradece, porém não poderá atender sua solicitação de entrevista.

Cordialmente,

Márcia”

Claro que ele tem todo o direito de não querer me atender, só acho uma pena. Reforça a impressão de que o PSDB esconde alguma coisa. Nada me impede, porém, de divulgar aqui as perguntas “leigas” que gostaria de ter feito a Arminio. E que, tenho certeza, milhões de brasileiros gostariam de ver respondidas:

1. Quando o senhor assumiu o Banco Central no governo FHC, aumentou os juros para 45% (hoje os juros brasileiros ainda estão entre os mais altos do mundo, mas na casa dos 11%). Isso vai acontecer novamente?

2. O senhor falou que acha que o salário mínimo “cresceu muito”. E, no entanto, alguns economistas apontam o aumento do salário mínimo nos anos que o PT governa como uma das principais razões para a diminuição da desigualdade social no Brasil, mais até que o bolsa-família. Qual será a política econômica do PSDB em relação ao salário mínimo? Vocês pretendem acabar com o reajuste automático?

3. Existe um áudio circulando nas redes sociais em que o senhor fala que está provado que os bancos públicos não são um “modelo que favorece o crescimento” e que iria reduzir as funções deles até que “não sobrasse muito”. O que o senhor quis dizer com isso? O que vai acontecer com a Caixa, o Banco do Brasil e o BNDES em um virtual governo Aécio Neves?

4. Volta e meia o PSDB acena também com mudanças nas leis trabalhistas. Quais seriam elas exatamente?

5. O jornal Financial Times publicou um artigo recentemente dizendo que o senhor decepcionou no debate com Guido Mantega, ministro da Fazenda de Dilma, porque “precisa achar uma forma de desconstruir a crença que o que é bom para os mercados é ruim para as pessoas e vice-versa”. Mas o que é bom para os mercados pode de fato ser bom para as pessoas? Como, se em geral o que é bom para os mercados faz concentrar ainda mais a renda?

6. O modelo que vocês propõem é, de acordo com o candidato Aécio Neves, retomar o crescimento de “forma sustentável”. Para mim isso soa como “embromation”. O que significa crescer de forma sustentável?

7. O senhor pode garantir que, com o modelo do PSDB em prática no governo, não haverá arrocho, recessão e desemprego no País?

8. Este crescimento “sustentável” irá continuar ajudando a diminuir a desigualdade social ou isto não é o foco?

9. A área social do governo sofrerá cortes? Seriam cortes na área social as medidas que o candidato Aécio diz que serão “decisões impopulares” de um provável governo seu?

10. A experiência do PSDB no governo– fora a estabilização da moeda, que vem do governo Itamar Franco– é de triste memória para os brasileiros que a viveram. Desemprego alto, recessão e também inflação na casa dos 12%. O que vocês fariam diferente agora?

Silêncio.

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Se as pesquisas não são feitas para acertar, para que são divulgadas?

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(As discrepâncias entre as pesquisas e as urnas no RS. Fonte: Zero Hora)

Após a apuração das eleições no domingo, alguém no twitter comparou, com picardia, os critérios científicos das pesquisas de opinião feitas no País ao horóscopo. De fato, os institutos de pesquisa colecionaram vexames em vários Estados este ano e mesmo na eleição para a presidência estiveram bem longe de acertar o resultado.

Virou uma lei não escrita no Brasil que é proibido contestar as pesquisas de opinião, como se elas fossem absolutamente científicas e infalíveis. Desde 2010 está provado que não são. Naquele ano, todos os institutos de pesquisa foram incapazes de detectar a subida da candidata Marina Silva, então no PV, o que acabou estancando sua arrancada e a impediu de ir ao segundo turno, dando lugar a José Serra, do PSDB, para quem se direcionaram os chamados votos úteis. A partir daí, pessoalmente parei de divulgar pesquisas, sejam boas ou más para os meus próprios candidatos. Não posso provar que elas estejam erradas –nem que estejam certas. Portanto, passei a ignorá-las.

Em 2010, especialistas criticaram o excesso de pesquisas e afirmaram que a metodologia utilizada possui falhas graves. Chamados a explicar-se, os institutos de pesquisa admitiram que não é possível obter resultados precisos e que seriam necessários “ajustes pontuais”, mas defenderam a metodologia utilizada no Brasil, que não é a mesma de alguns países, como a Inglaterra. Segundo os diretores dos institutos, seria “inviável” usar outro método porque não há cobertura de telefonia fixa em todo o País e não seria possível fazer as pesquisas por meio de celulares porque não existem listas de proprietários dos aparelhos (veja a reportagem da própria Folha sobre o assunto aqui). Isso explicaria as eventuais discrepâncias entre as tendências de voto e o resultado propriamente dito. Não me parece uma explicação satisfatória.

Nesta eleição, os dois maiores vexames foram protagonizados pelo Ibope na Bahia e no Rio Grande do Sul. Na Bahia, o instituto errou fragorosamente o resultado pela terceira vez consecutiva. Repetiu-se o ocorrido em 2006: naquele ano, o candidato do PT, Jaques Wagner, iria, segundo o Ibope, perder no primeiro turno para o candidato do DEM, Paulo Souto; ocorreu o exato oposto e Wagner foi eleito governador na primeira volta. Este ano, no dia 4 de outubro, na véspera do pleito, após meses dando o mesmo Paulo Souto na frente, o instituto apresentou pela primeira vez um empate técnico entre ele e o petista Rui Costa. Apenas na pesquisa de boca-de-urna Rui apareceu na frente –e ganhou no primeiro turno. Detalhe: um instituto local, o Bapesp, foi ridicularizado por mostrar, todo o tempo, resultado oposto –bem como os trackings da campanha petista.

No Rio Grande do Sul, aconteceu algo pior: o Ibope conseguiu errar de forma espantosa a própria pesquisa de boca-de-urna (também errou no Rio de Janeiro). Depois de meses dizendo que a candidata Ana Amélia Lemos, do PP, era a franca favorita para vencer a eleição a governador, o instituto insistiu em colocá-la empatada em segundo lugar na pesquisa feita no próprio dia da eleição, que, por ser feita na “boca da urna”, tem uma margem de erro ínfima. Apurados os votos, não só Ana Amélia não passou ao segundo turno como o vencedor foi Ivo Sartori, do PMDB, que aparecia em terceiro lugar. Tarso Genro, do PT, ficou em segundo. A diretora do Ibope, Márcia Cavallari, disse que o erro aconteceu porque a boca-de-urna “usa metodologia totalmente diferente e tecnicamente não tem o mesmo rigor”. Ora, se não tem rigor, por que é divulgada?

Chama a atenção, tanto no caso do Rio Grande do Sul quanto no caso da Bahia, que os candidatos derrotados (e beneficiados pelas pesquisas durante meses a fio) possuam ligações com as afiliadas da Rede Globo em ambos os Estados. Ana Amélia é ex-funcionária do grupo RBS; Paulo Souto era o candidato de preferência da TV Bahia, propriedade da família do falecido senador Antonio Carlos Magalhães e do prefeito ACM Neto, do DEM. Detalhe: as pesquisas do Ibope foram feitas sob encomenda das emissoras de TV. Como não ficar com a pulga atrás da orelha?

Ibope e Datafolha também protagonizaram erros no Estado de São Paulo que prejudicaram o candidato do PT, Alexandre Padilha. Padilha chegou a 18,22% na apuração final, apenas 3% a menos que o candidato Paulo Skaf, que pontuou em segundo lugar durante toda a campanha. Na última pesquisa feita pelos institutos, Padilha aparecia com 11%, segundo o Ibope –só a boca-de-urna mostrou resultado próximo à realidade, com o petista aparecendo com 20%. Segundo o último levantamento do Datafolha, que não faz boca-de-urna, Padilha teria 13%. Os 7% a menos, em média, para o PT nas pesquisas viraram uma praxe dos institutos em todas as eleições em São Paulo (clique aqui para ver um levantamento). Ratifico: apenas com os candidatos do PT a “falha” ocorre.

Alguém dirá: “mas são ninharias, apenas percentuais”. Uma ova. O fato de pontuar abaixo dos dois dígitos nas pesquisas durante quase toda a campanha trouxe uma série de prejuízos a Alexandre Padilha. A Rede Globo, por exemplo, deixou de cobrir suas atividades diariamente sob a justificativa de que o petista ia mal nas pesquisas –como um nanico qualquer. Nos telejornais da emissora apareciam apenas as campanhas de Paulo Skaf e Geraldo Alckmin, do PSDB. Para um político pouco conhecido no Estado como Padilha, é óbvio que aparecer nas telas da principal emissora de TV ajudaria a impulsionar sua candidatura.

Teve mais. Na edição do sábado, véspera do dia da eleição, a Folha de S.Paulo publicou artigos escritos pelos candidatos ao governo e simplesmente ignorou Padilha: somente Alckmin e Skaf escreveram seus textos, intitulados, respectivamente “São Paulo, terra da inovação permanente” e “Chega de pasmaceira, SP merece renovação”. Era como se o candidato petista não existisse. A justificativa dada mais uma vez foi a de que o petista pontuava mal na pesquisa que o instituto Datafolha, do mesmo grupo Folha, fez –e errou. Como compensar este prejuízo? Silêncio.

Novamente chamados a explicar as diferenças entre as pesquisas e as urnas, os diretores do Datafolha e do Ibope lançaram mão de explicações pífias. O diretor do Datafolha, Mauro Paulino, disse que as pesquisas não são elaboradas para fazer previsões, mas para “contar a história da eleição até a manhã de sábado”. Cavallari, do Ibope, foi na mesma toada, e disse que “o que se divulga representa sempre o momento para trás, não para frente”. Apelou-se até à “troca de idéias entre amigos e familiares” como fator para as discrepâncias nos resultados. Mas não era científico o negócio?

Estamos começando agora o segundo turno das eleições e é a vez de os institutos de pesquisa (assim como os veículos de comunicação a que são ligados) responderem a algumas perguntas, em nome da lisura do pleito. Se a metodologia não é a melhor possível, por que as pesquisas têm tanto destaque? Se não são feitas para acertar, apenas para “indicar tendências”, para que são divulgadas? Se são um retrato do passado, por que são tratadas pela mídia como se fossem capazes de prever o futuro? As pesquisas induzem o voto e têm o poder de modificar resultados. Isto os próprios institutos de pesquisa admitem. Deviam, no mínimo, ser tratadas com mais reserva.

UPDATE: A revista Época tirou da cartola pesquisa de um tal instituto Paraná na qual Aécio Neves aparece com 54% e Dilma Rousseff com 46% no segundo turno. Apesar de o instituto ser totalmente desconhecido, a revista da Globo destacou a pesquisa que mostra o tucano na frente curiosamente em um momento em que é necessário uma pesquisa positiva para exibir no horário eleitoral.

UPDATE 2: Já apareceu outro instituto desconhecido, um tal de Veritas, “coincidentemente” dando o candidato do PSDB na frente. E agora a revista IstoÉ, que de repente começou a fazer campanha pró-Aécio, também apareceu com uma pesquisa… Até a eleição não vai parar de aparecer pesquisas. Ignore-as. Tanto as favoráveis quanto as contrárias. Não dá para confiar em nenhuma.

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