Mais reaças que o rei

(Marina, Aécio e Dilma no debate da Band. Foto: Miguel Schinchariol/divulgação)

Entre todos os candidatos presentes ao primeiro debate entre os presidenciáveis na rede Bandeirantes, nem mesmo o pastor evangélico assumidamente de direita foi capaz de dizer que existe uma ameaça à democracia no Brasil sob o governo do PT. Nenhum deles falou que o PT defende censura à imprensa. Nem que os índios estão tomando a terra dos “brasileiros”. Quem fez isso foram dois jornalistas, Boris Casoy e José Paulo de Andrade, escolhidos pela emissora para fazer perguntas (ou editoriais disfarçados de perguntas) aos candidatos.

Casoy e Zé Paulo conseguiram ser mais reaças do que todos ali. Nunca vi, num debate, jornalistas se comportarem como opositores dos candidatos no caso, Dilma Rousseff, do PT, e Marina Silva, do PSB, porque com o tucano Aécio Neves foram só levantadas de bola para ele cortar. Nunca vi, num debate, um jornalista fazer pergunta para um candidato criticando outro concorrente. Sobriedade mandou lembranças.

Mas o que mais me espantou é que nem Dilma nem Marina e nem mesmo Luciana Genro, do PSOL, candidatas mais à esquerda no espectro político, foram capazes de denunciar, de retrucar com veemência, posturas tão arcaicas quanto às demonstradas pelos dois jornalistas, certamente com o aval dos patrões.

Colhi algumas das pérolas da noite, confiram.

De José Paulo para Luciana com comentário de Dilma:

 A questão indígena, que até no Rio Grande do Sul se agrava, com índios essa semana fazendo policiais de reféns. Na Bahia, como ocorreu em Roraima com a Raposa Serra do Sol, brasileiros trabalhadores estão sendo expulsos da terra onde estavam há gerações. A crítica à Funai é que só antropólogos determinam a política indigenista. Recentemente, em audiência na Câmara, o ministro da Justiça falou em fortalecimento da Funai, mas até agora nada se fez. A pretexto de incluir os excluídos, exclui-se os incluídos. Candidata, somos ou não iguais em direito? Qual seria sua política indigenista?

De José Paulo para Aécio com comentário de Dilma:

 O governo federal criou por decreto o Conselho de Participação Social. É uma instância direta vista com apreensão por muitos setores: seria uma ameaça ao Congresso Nacional e consequentemente ao equilíbrio institucional. Seria uma bolivarização do Brasil nos moldes chavistas e agora a própria candidata acaba de lançar a ideia de um plebiscito para fazer a reforma política, o que, me parece, deixa de lado o Congresso Nacional. Como o candidato vê a movimentação dessas peças no tabuleiro político?

(Aécio, é claro, surfa na onda da “preocupação” em “garantir a democracia”, mas Dilma dá uma boa resposta: “É estarrecedor que se considere plebiscito algo bolivariano. Então a Califórnia pratica o bolivarianismo.”)

De Boris para Marina com comentário de Aécio:

 Setores da economia criticam o que classificam, candidata, de seu “radicalismo ambientalista”. Segundo eles, esse tipo de posição tem criado obstáculos para o desenvolvimento da economia do país. Citam o exemplo da usina de Belo Monte, que poderia produzir 11 mil megawatts e, por exigências ambientais consideradas exageradas, só vão produzir 4 mil. Como a senhora responde a essas críticas?

De José Paulo para Everaldo com comentário de Aécio:

 Os candidatos de oposição temem perder votos com posições que não sejam favoráveis à manutenção dos programas sociais do governo, que acabam sendo cabos eleitorais importantes, e nisso exageram, prometendo aumentar os benefícios que no fim vão pesar na carga tributária já elevada, como é o caso da Poupança Jovem do candidato Aécio. Se há uma justificativa a curto prazo para incluir os brasileiros menos favorecidos, quando é que vamos ensiná-los a pescar?

(Até o Aécio acha Zé Paulo reaça demais neste momento.)

De Boris para Eduardo Jorge com comentário de Dilma:

 Por considerar um assunto importante e grave, que envolve a liberdade no país, vou voltar à questão do controle social da mídia. O partido da presidente, o PT, insiste num plano de censura à imprensa, que eufemisticamente chama de democratização da mídia. A bem da verdade, a presidente Dilma, a candidata Dilma, não adotou, criou uma barreira, não tem colocado em prática, apesar da insistência do partido, essa ideia. Eu queria perguntar: se eleito, o candidato Eduardo Jorge vai levar esse plano adiante?

(Eduardo Jorge, para riso geral, diz concordar com Dilma.)

Quando vejo os planos dos coronéis da mídia para o Brasil, transmitidos por seus funcionários em um debate supostamente jornalístico e “imparcial”, percebo o quão diferentes são minhas críticas ao governo Dilma das deles. Percebo o quanto minha ideia, meus sonhos de País, se diferenciam dos proprietários dos meios de comunicação como a Rede Bandeirantes.

Critico a Dilma porque ela precisava ser mais atenta à questão indígena e à ambiental a mídia acha que Dilma precisava ser ainda mais permissiva com os fazendeiros e o grande poder econômico (e o mesmo desejam de Marina).

Critico a Dilma por não ter concretizado a democratização da mídia, pondo fim à propriedade cruzada dos meios de comunicação, por exemplo, proibida em vários países. Isso nada tem a ver com censura eufemismo quem usa são eles, ao dizer que democratizar a mídia é censurar. Os donos da mídia não querem a democratização porque temem perder seu poder, derivado do fato de que menos de uma dúzia de famílias (como os Saad, da Band) detém a maioria dos meios de comunicação no País.

Aplaudo o PT pelos programas sociais que incluíram milhões de brasileiros e acho que deve haver cada vez mais inclusão a mídia acha os programas sociais, assim como as cotas nas universidades, desnecessários e excessivos.

Critico o PT por não ter batalhado mais pela reforma política e aplaudo a iniciativa de propor um plebiscito para fazê-la a mídia aponta o plebiscito como “antidemocrático”, sendo que ouvir a população sobre este tema seria justamente o contrário. Curioso é que eles são contrários a ouvir a população sobre a reforma, mas foram a favor de plebiscito para dar direito às pessoas de terem armas… No fundo, não querem a reforma política porque são contra o financiamento público de campanha. A mídia sabe que o financiamento privado favorece os candidatos com maior poder econômico os seus, e portanto é melhor que continue assim.

O País dos reaças da mídia não me interessa. Ele é pior do que o que temos hoje. Mais injusto, mais desigual, mais concentrado nas mãos de poucos. Exatamente como a própria mídia.

 

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Biógrafo Lira Neto: ao se matar, Getúlio Vargas adiou o golpe militar por dez anos

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(Getúlio Vargas por Jean Manzon)

Já passava das 11 horas da noite do dia 7 de setembro de 1979, na praça Maurício Loureiro, centro de São Borja (RS), quando Leonel Brizola (1922-2004) subiu no palanque para fazer seu primeiro discurso em território brasileiro após voltar dos 15 anos de exílio que lhe foram impostos pela ditadura militar. Diante de 1500 pessoas, o trabalhista Brizola fez questão de destacar uma teoria que muitos ainda hoje ignoram ou rejeitam: o suicídio de Getúlio Vargas em 24 de agosto de 1954 foi capaz de deter por dez anos o golpe que se abateria sobre o Brasil em abril de 1964.

Segundo Brizola, ao escrever “saio da vida para entrar na história” na célebre Carta-Testamento, Getúlio publicava “uma denúncia e ao mesmo tempo uma antevisão”. Prevendo o golpe, Vargas se matava para deter a quartelada que se desenhava com o manifesto assinado, na véspera, por 19 generais exigindo sua renúncia entre eles, o mesmo Castelo Branco que se tornaria presidente à força dez anos depois. Aeronáutica e Marinha já haviam feito idêntico pedido.

“Isso não é aceito pelas elites de nosso país, pela maioria dos sociólogos, pela maioria dos cientistas políticos, mas estou convencido que o Presidente Vargas anteviu este regime, até pensando que viesse no dia imediato à sua morte, mas foi o impacto emocional de seu gesto que ainda permitiu que as nossas liberdades fossem respeitadas durante mais dez anos”, afirmou Brizola, de acordo com o jornal Folha de S.Paulo, citado no livro El Caudillo, de FC Leite Filho.

Getúlio deixara com João Goulart, seu ex-ministro do Trabalho, uma das três cópias da Carta-Testamento, sinalizando que ele seria seu principal herdeiro político. Alçado ao poder em 1961, Jango herdaria também o ódio das mesmas forças que levaram Getulio ao suicídio: os militares, o conservadorismo e a imprensa.

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(Jango e Tancredo Neves à frente do funeral de Getúlio em 1954)

Procurei o autor da monumental biografia de Getúlio, Lira Neto, para averiguar se ele concorda com a visão de Brizola e também para saber de que forma, ideologicamente, ele situaria o complexo Vargas. Vejam a entrevista.

Brizola dizia que, ao se suicidar, Getúlio adiou o golpe militar em dez anos. É verdade?
Lira Neto: Mais do que uma tese defendida por Brizola, esta é uma constatação histórica, esposada por vários especialistas e estudiosos. Basta dizer que os almirantes, brigadeiros e generais que assinaram os três célebres manifestos militares exigindo o afastamento de Getúlio do poder em agosto de 1954 foram os mesmos que derrubaram João Goulart em 1964. Até o pretexto de que Getúlio planejava instaurar uma república sindicalista se repetiu na deposição de Jango. Em um e outro caso, os mesmos udenistas e setores conservadores do empresariado forneceram o apoio político-civil aos quartéis para derrubar um presidente constitucionalmente eleito.

Dá para imaginar hipoteticamente o que teria acontecido com o Brasil se Getúlio não tivesse se matado?
Lira: Ao optar pelo suicídio, Getúlio neutralizou os adversários que já se consideravam vitoriosos e com o poder nas mãos. O golpe civil-militar já estava em plena execução. Muito provavelmente, Getúlio seria retirado do palácio e levado para a prisão e, posteriormente, para o exílio. Os militares jamais repetiriam o “erro” de 1945, quando após derrubá-lo permitiram que ele permanecesse livre, em território nacional, recolhido a São Borja, articulando as circunstâncias de sua volta ao poder, o que afinal ocorreu em 1950, por extraordinária votação popular. Nos três livros, mostro como, desde sempre, já a partir de 1930, Getúlio trabalhou com a perspectiva do sacrifício pessoal como um ato político de resistência, como um protesto eloquente contra os inimigos. Ele jamais se permitiria passar à posteridade como um derrotado, exposto ao vexame, eternizado por um fracasso. Nesse sentido, encontrou, na morte, a sua vitória.

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(Brizola, sua mulher Neusa e Getúlio)

Brizola e Jango eram seguidores do trabalhismo. Darcy Ribeiro via o trabalhismo como uma espécie de socialismo. Você concorda?
Lira: Na verdade, Getúlio era um homem pragmático, que se amoldava de acordo com as circunstâncias, para além das convicções ideológicas. Em 1929, em entrevista a um jornal gaúcho, disse que sua grande inspiração política era, textualmente, “a renovação criadora do fascismo de Benito Mussolini”.  No momento em que a democracia e o sistema representativo se encontravam em xeque, com a quebra da Bolsa de Nova York e a Grande Depressão norte-americana, ele se posicionava como um simpatizante assumido dos regimes autoritários europeus, incluindo o nazifascismo, que surgia como pretenso antídoto para a crise do regime democrático. Chegou, inclusive, a cogitar o apoio brasileiro ao Eixo durante a Segunda Guerra, mas acabou aderindo aos Aliados por questões econômicas e estratégicas.

Alguns avanços de Getúlio na área trabalhista são modernos até hoje, tanto é que sofrem críticas dos setores mais conservadores da economia. Neste aspecto, pode-se dizer que Getúlio era “de esquerda”?
Lira: Quando Getúlio, após a queda em 1945, retornou ao cenário político em 1950, em pleno contexto da Guerra Fria, a defesa que sempre fizera do Estado intervencionista o colocou, pelo menos no plano do discurso, à esquerda do espectro político. Enquanto seus adversários pregavam a manutenção do alinhamento incondicional aos Estados Unidos, interpretando assim de modo esquemático qualquer negação ao liberalismo como uma opção pelo comunismo russo, ele passou a defender a “democracia social”, reforçando a ideia geral de que se convertera ao socialismo. Tratava-se, é claro, de uma simplificação, de um reducionismo. Getúlio sempre foi um anticomunista ferrenho. E, a rigor, com sua política de industrialização e de urbanização do país, promoveu a gênese do próprio capitalismo no Brasil.

Mesmo seu primeiro governo tendo sido uma ditadura severa, você considera que Getúlio teve qualidades como presidente? Quais?
Lira: Getúlio, com todas as suas inúmeras contradições, deixou pelo menos dois grandes legados para o país. O primeiro foi o seu projeto nacional desenvolvimentista, que nos legou por exemplo a Petrobras, a siderúrgica de Volta Redonda e o BNDES, conduzindo assim um país agrário, semifeudal, monocultor, para o caminho da industrialização. O outro legado, sem dúvida, foi a vasta legislação trabalhista, que impôs um relativo equilíbrio na relação entre capital e trabalho e representou um inegável avanço para uma nação que, numa perspectiva histórica, se encontrava recém-saído da escravidão. Em síntese, Getúlio ajudou a modernizar o Brasil. Mas, mesmo nesse caso, é preciso evitar o pensamento simplista. As conquistas no campo do trabalhismo não podem ser entendidas como um gesto benevolente e magnânimo de um “pai dos pobres”. Elas foram conquistas da própria classe trabalhadora. Getúlio teve a sensibilidade histórica e a astúcia política de responder a uma demanda pré-existente. O movimento sindical dos anos 20, controlado por anarquistas e comunistas, pressionava por mudanças. Ao decretar leis favoráveis ao trabalhador, Getúlio tomou-lhes a bandeira e passou a tutelar o sindicalismo, por meio do Ministério do Trabalho. Bom lembrar que não havia sindicatos livres durante o Estado Novo.

Por último: por que São Paulo não tem nenhuma avenida com o nome dele?
A rusga dos paulistas com a memória de Getúlio remete, é óbvio, ao trauma da Revolução Constitucionalista de 1932. Contudo, como bem salientam vários historiadores e cientistas políticos, São Paulo acabou sendo o grande beneficiado pela política de industrialização da chamada Era Vargas. Com um detalhe: na sua volta ao poder, nas eleições de 1950, Getúlio teve a campanha financiada por membros da emergente burguesia industrial paulista.

Clique aqui para ler mais sobre Getúlio e o golpe de 1964 no especial da EBC, de onde reproduzo este vídeo com Lira Neto:

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Toca Raul! 25 anos sem o Maluco Beleza

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(Raul Seixas. Foto: divulgação)

25 anos atrás, num dia 21 do aziago mês de agosto, acordei com uma notícia terrível: aos 44 anos, meu ídolo de infância, Raul Seixas, tinha morrido vítima de pancreatite. Nove dias antes, ele tinha vindo a Brasília fazer um dos seus últimos shows, ao lado de Marcelo Nova, e eu dormi e perdi… Nunca me perdoei.

Eu adorava Raul desde que ouvi pela primeira vez Ouro de Tolo, aos 7 anos de idade. Nas matinês do Cine Éden, em Ipiaú-BA, a cidade dos meus avós, onde nasci, tocava sempre Al Capone antes da sessão começar. E eu, pequenina, também adorava aquela história do moço do disco voador me levar, de S.O.S., canção do álbum Gita (1974). Durante toda a minha infância Raul Seixas foi uma estrela e suas músicas não paravam de tocar no rádio e na TV.

Na época em que Raul morreu, eu dividia apê em Brasília com um amigo que era ainda mais fã dele e me apresentou algumas pérolas do cantor baiano que eu nunca tinha ouvido… E me dei conta de que há uma canção dele para cada momento da vida. Querem ver? Toca Raul!

1. Quando você é criança e seu pai/mãe te reprime, você ouve Sapato 36:

2. Mas aí você entra na faculdade, se liberta e fica tirando onda como em Tu És o MDC da Minha Vida (com Paulo Coelho):

3. Depois consegue um trabalho, mas vê que isso pode ser Ouro de Tolo:

4. E finalmente se apaixona de verdade, como em Mata Virgem (com Tania Menna Barreto):

5. Então, o melhor que se faz é pegar O Trem das 7 e sair viajando por aí:

6. Mas vem a rotina e vocês resolvem experimentar ter uma relação aberta como em A Maçã (com Paulo Coelho):

7. A coisa não funciona bem e você fica na maior fossa ouvindo A Hora do Trem Passar (com Paulo Coelho):

8. O jeito é desbundar e ficar mutcho loco como em Maluco Beleza (com Claudio Roberto):

9. Fundar uma Sociedade Alternativa (com Paulo Coelho) e convidar a galera:

10. Aproveitar a solteirice e sair por aí flanando com os amigos como em Super-Heróis (com Paulo Coelho):

11. Só que acaba conhecendo alguém que vem de outra relação como você e se vê de novo Fazendo o Que o Diabo Gosta (com Lena Coutinho):

12. E um dia, amigo, todo mundo morre… Que nem em Canto Para Minha Morte (com Paulo Coelho):

Viva Raul!

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Jornal Nacional: por que nem sempre “encostar na parede” é entrevistar bem

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(O constrangimento está no ar… Bonner, Patricia e Dilma no Jornal Nacional. Foto: divulgação)

Ao contrário das telenovelas, o telejornalismo brasileiro não é exatamente um produto de exportação. O principal telejornal da principal emissora de TV do País tem praticamente o mesmo formato há 45 anos a única diferença digna de nota, além da natural evolução tecnológica, é que hoje é apresentado por homem & mulher e não por dois homens. O “especial” semanal jornalístico da emissora possui, inclusive, o mesmo apresentador há 42 anos, com breves interrupções. E a “revista” dominical, que existe desde 1973, se firmou como tradição, mas já teve dias melhores.

São programas assumidamente inspirados na TV norte-americana, até mesmo nos nomes: o Good Morning, America é o principal noticioso nas manhãs dos Estados Unidos hoje. Lembra o nome de algum matutino brasileiro? Chacrinha já dizia: “em televisão nada se cria, tudo se copia”. E o pior é que as outras emissoras da TV aberta, em vez de partirem para algo novo, simplesmente copiam a cópia. Ou seja, não existe concorrência.

É um estilo de fazer jornalismo, como todos os demais, que evidencia cansaço. Apesar de ainda ser o telejornal mais visto, a audiência do Jornal Nacional tem caído nos últimos anos e hoje está na casa dos 20 pontos, de acordo com o Ibope. Nos EUA, fonte onde nosso telejornalismo bebe, o noticiário da TV a cabo ganhou proeminência na última década, CNN à frente. Mas o legal é que o telespectador lá na gringa tem a opção de assistir notícias a partir de um canal mais liberal o MSNBC ou um conservador a Fox News. Melhor: segundo um estudo recente, quase 40% dos que assistem a um também assistem ao outro.

Aqui, o coronelismo midiático coloca uma única emissora e seu telejornal como a fonte de informação primordial do País. Assim, a cada quatro anos, os candidatos à presidência da República vão todos parar no Jornal Nacional para responder às perguntas do casal da vez, sob as regras da emissora. Ir ao Jornal Nacional é quase uma forma contemporânea de ir pedir a bença ao coroné. Considera-se “vitorioso” o candidato que se sair bem do tiroteio baseado em “temas polêmicos”.

Para o repórter, a vantagem de se construir uma entrevista “batendo” é que você transmite a ideia de ser um profissional “imparcial”, aplicando ao jornalismo a máxima popular “o pau que bate em Chico, bate em Francisco”. Foi o que aconteceu nas entrevistas de Aécio Neves, Eduardo Campos e agora, com Dilma Rousseff. Nas redes sociais, vários comentaristas e leitores saudaram a “imparcialidade” do Jornal Nacional ao colocar Aécio (apontado pelos críticos à emissora de ser seu favorito) “contra a parede”.

É sempre bom lembrar a ânsia da rede Globo de tentar transmitir aos telespectadores “imparcialidade” em seu jornalismo desde que, em 1989, foi acusada de fazer, em pleno Jornal Nacional, uma edição do último debate entre os presidenciáveis Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva favorável ao primeiro de quem também se “desconfiava”, na época, ser o candidato da emissora. Collor ganhou a eleição, a Globo acabou reconhecendo não ter sido uma edição equilibrada e parou de editar debates.

Cada vez que “bate” em um candidato alinhado à sua ideologia, o Jornal Nacional tenta, portanto, bater também no fantasma de 1989. Mas bater não significa necessariamente fazer uma boa entrevista. Em minha opinião, entrevistar bem é arrancar revelações do entrevistado, boas frases e, sobretudo, mostrar se a pessoa de fato tem ou não ideias. Nenhuma das entrevistas feitas pelo Jornal Nacional nesta eleição (falta a de Marina Silva) soube arrancar revelações ou boas frases de ninguém, mas apenas Dilma Rousseff, do PT, deixou de exibir qualquer projeto seu na entrevista.

Aécio Neves disse que vai retomar o ritmo de crescimento; promover mais transparência; lutar contra a inflação; enxugar o Estado; ser renovador no campo ético, moral, e ampliar as boas políticas do governo atual. Eduardo Campos, em sua última entrevista, prometeu melhorar a vida do povo; acabar com a violência; fazer o Brasil voltar a crescer; melhorar a mobilidade urbana; construir a escola em tempo integral; dar passe livre para os estudantes no transporte público. Dilma Roussef prometeu que o Brasil continuará a ser um país de classe média. Só.

Por que isso aconteceu? Dilma é prolixa. Verdade. E há uma mútua antipatia entre o PT e a Globo. Isso é inegável e coloca uma “trava” imediata entre entrevistador e entrevistado. Mas houve, sim, uma diferença sutil de tratamento do Jornal Nacional para com Campos e Aécio: com eles, os apresentadores não rebateram as respostas no meio, dando-lhes pelo menos a oportunidade de mostrar algo do que propõem. As perguntas lhes serviram de escada, a famosa “levantada” para o sujeito chutar. Isso pode ser visto aqui, na primeira pergunta feita por William a Aécio Neves. Ou aqui, na primeira pergunta feita a Eduardo Campos por Patricia Poeta. Já na primeira pergunta a Dilma, a palavra “corrupção” foi mencionada SETE vezes ao todo foram treze (confira aqui). Com Aécio foram três; com Eduardo, nenhuma.

Dilma ficou sob fogo cerrado sem pausa. Absolutamente todas as perguntas vieram de maneira negativa e adjetivada, sem a sobriedade esperada de jornalistas “isentos”. Com Aécio e Eduardo, as perguntas duras serviram para dar ao candidato o direito de se explicar diante de milhões de espectadores, e à Globo, uma chance de se mostrar “imparcial”. Imparcialidade demonstrada, os dois apresentadores impuseram à presidenta-candidata acusações em vez de perguntas: “seu partido teve um grupo de elite de pessoas corruptas”, “corrupção não é o único problema”, “o resultado (da economia) é muito ruim”. Nenhum dos rivais de Dilma, ex-governadores de Estado, foi acusado desse jeito nem rebatido enquanto respondia. Na verdade, Bonner e Patricia “bateram” mesmo foi em Dilma; nos outros dois, foi direito de resposta, “outro lado”.

Dilma, uma técnica, após 4 anos de presidência continua com dificuldade de se expressar de forma fluida, ao contrário de seus oponentes, com longa carreira política. Mas esta técnica de “imparcialidade” usada com petistas no Jornal Nacional não facilita nem para um candidato com maior traquejo. Com Lula foi a mesma coisa em 2006: ele passou a maior parte do tempo contra as cordas, sem chance de transmitir qualquer conceito positivo. Mas, diferentemente de sua sucessora, Lula é um orador experiente e tem timing (assista à primeira entrevista de Lula candidato a reeleição em 2006 aqui). Fora de seu habitat, a dupla de entrevistadores também titubeou, e Dilma pôde emplacar pelo menos algumas defesas incisivas, como quando citou o “engavetador-geral da República” de FHC mas não projetos.

Se você quer ser “imparcial”, coisa que duvido existir, deve pelo menos se preparar para fazer uma boa entrevista elencando temas polêmicos, claro, mas focados no futuro do País, nas propostas do candidato, e não no passado. Por exemplo: Aécio Neves concorda com seu coordenador econômico Arminio Fraga que o salário mínimo “subiu demais”? Ou seja, pretende acabar com o gatilho do salário mínimo? E Dilma, vai fazer algo a respeito da violência policial, que ela mesma disse considerar um dos mais graves problemas do Brasil hoje? São questões que despertam o interesse de milhões de brasileiros e não foram nem sequer mencionadas na “principal” entrevista do “principal” telejornal da “principal” emissora. Fraco.

Acho que, para começar, 15 minutos é pouco tempo para uma entrevista. Um jornalismo de fato sério, consequente, exigiria no mínimo 30 minutos para cada candidato. Nos Estados Unidos, que nossos telejornais tanto imitam, o programa que faz as mais famosas entrevistas com candidatos à presidência chama-se justamente 60 Minutes. Eu sempre digo que as coisas bacanas dos EUA ninguém copia… Com esse tempo exíguo, só com muito boa vontade dos entrevistadores o que não houve com Dilma se consegue transmitir alguma ideia de fato. A presidente é favorita à reeleição, mas se ganhar, o que pretende fazer? No que depender do Jornal Nacional, continuaremos na dúvida.

 

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Entrevistas históricas: Georges Simenon entrevista Leon Trótski em 1933

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(Leon Trótski em seu escritório em Prinkipo, Turquia, ao redor de 1930. Foto: David King Collection)

“O fascismo não é provocado por uma psicose ou ‘histeria’, mas por uma crise econômica e social profunda que devora o corpo da Europa sem piedade”. Pronunciadas em 1933, as palavras de Leon Trótski (1879-1940) soam mais atuais do que nunca diante do recrudescimento dos partidos neonazistas na Europa novamente em crise. O revolucionário russo estava em seu desterro de quatro anos na Turquia quando foi entrevistado pelo então jovem escritor belga Georges Simenon (1903-1989).

Simenon tinha acabado de criar seu mais célebre personagem, o inspetor Maigret, que marcaria presença em mais de 70 romances e 30 contos do escritor. Atuava como correspondente para o jornal Paris-Soir e corria o mundo escrevendo reportagens, uma hora na África, outra na União Soviética, ou nas ilhas Príncipe (Prinkipo), onde vai encontrar Trótski vivendo uma tranquila vida de aposentado que não duraria muito: em seguida partiria para a França e de lá para a Noruega, de onde seguiria para o México encontrar a morte, encomendada pelo rival Stalin.

As análises de Trótski, judeu, sobre raça, e a previsão, seis anos antes, de que a Alemanha de Hitler iria levar a Europa à guerra demonstram sua profunda visão estratégica e o desprezo dos comunistas pelos conceitos e “ideias” nazistas. O texto de Simenon, é claro, flui deliciosamente, como as águas azuis e tranquilas que cercam a ilha e que ele, amante do mar, faz questão de destacar. Quanto o jornalismo de hoje tem a aprender com o passado… Eu traduzi para vocês (original aqui). De bônus, um documentário feito na Turquia sobre a passagem de Trótski por lá, narrado pela atriz Vanessa Redgrave. Espero que desfrutem.

***

Com Trótski

Por Georges Simenon

(publicado pelo Paris-Soir nos dias 16 e 17 de junho de 1933)

Encontrei Hitler dez vezes no Kaiserhof quando, tenso e febril, já chanceler, fazia sua campanha eleitoral. Vi Mussolini contemplar incansavelmente um desfile de milhares de jovens. E uma tarde em Montparnasse reconheci Gandhi em uma silhueta branca que caminhava colada ao muro, seguido por jovenzinhas fanáticas.

Para entrevistar Trótski eu me vi na ponte que conecta a velha e a nova Constantinopla, Istambul e Gálata, uma ponte mais cheia de gente que a Pont-Neuf em Paris. Por que tenho a sensação de um bonito domingo no Sena perto de St. Cloud, Bougival ou Poissy? Não sei.

Todos os barcos ao redor dos piers emaranhados me lembram bateaux-mouches. Eles são maiores? Certamente. Há inclusive um ar marinho, e as hélices batem contra a água salgada. Mas é uma questão de proporção. O cenário inteiro é mais vasto, o próprio céu é mais distante.

Aqui uma margem é chamada Europa e a outra, Ásia. No lugar dos rebocadores e barcaças do Sena há muitos navios de carga e de passageiros com bandeiras de todos os países do mundo que saem para o Mar Negro ou navegam através do Dardanelos.

Qual a importância disso? Eu mantenho minha impressão de um domingo bonito, de subúrbios, de tabernas. Há amantes na ponte de embarque do navio, camponeses transportando galinhas e frangos em gaiolas, marinheiros de folga que sorriem adivinhando os prazeres que irão oferecer a si mesmos.

Trótski? Escrevi para ele anteontem para pedir uma entrevista. Ontem pela manhã já acordei com o timbre do telefone.

“Monsieur Simenon? Aqui é o secretário de Monsieur Trótski. M. Trótski irá recebê-lo amanhã às 4 da tarde. Antes disso eu preciso lhe dizer que M. Trótski, cujas declarações têm sido frequentemente deturpadas, gostaria de receber suas perguntas por escrito antecipadamente. Ele irá respondê-las por escrito…”

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(O escritor Georges Simenon à época da entrevista)

Fiz três perguntas. O céu é azul, o ar tão límpido como as águas profundas onde se podem ver os movimentos das algas verde-escuras. Abaixo, no Mar de Mármara, a uma hora de Constantinopla, quatro ilhas emergem, as “Ilhas”, como elas são chamadas aqui, e já estamos tocando o ancoradouro da primeira delas.

Meudon ou St. Cloud, com as cores da Côte d’Azur. As encostas são suaves e verdes, sombreadas por pinheiros. Mas isto são os subúrbios. Lá estão as datilógrafas sonhadoras e as balconistas dentro dos barquinhos remados pelos namorados. Vende-se chocolate e sorvete, e fotógrafos param os passantes enquanto uma mulher plácida cuida de uma tenda de tiro-ao-alvo.

A distância entre as ilhas é pouco maior do que entre as margens do Sena. O verde é polvilhado de vilas brancas erguidas nas encostas. Uma outra parada. Mais uma. Quase todos os casais já deixaram o barco.

E eis Prinkipo (Príncipe), a ilha onde, em algum lugar, está a casa de Trótski.

Falou-se de um retiro suntuoso, uma vila de luxo, uma propriedade paradisíaca.

Também ao longo do Sena, à medida que saímos de Paris, o nível social sobe, mansões substituem os cafés e barcos a motor substituem os barquinhos a remo alugados.

O ancoradouro em Prinkipo é mais elegante e rodeado por restaurantes cujas toalhas de mesa brancas reluzem ao sol. Carroças com dois cavalos estão à espera, cobertas com um toldo de lona, que enfrentam a concorrência de burros selados que aguardam sem impaciência. Há 50, talvez uma centena na pequena praça.

Sexta-feira, dia de descanso na Turquia, eles estarão sobrecarregados. E em qualquer lugar onde houver sombra e grama, no pequenino riacho, atrás dos arbustos, nos morros, a multidão irá se reunir, espalhar seus alimentos, e se embriagar em risadas, música e amor.

Trótski? Uma carroça me leva por um caminho ladeado de casas. Muitas estão à venda ou para alugar, porque a crise está brava na Turquia, também. As cortinas estão fechadas, mas os jardins estão cheios de rosas tão gordas que parecem obesas. Do outro lado, se vê o tranquilo mar azul. O cocheiro estende seu braço. Tudo que tenho a fazer é descer por um beco. Tudo é tão calmo, tão imóvel, o ar, a água, as folhas, o céu, que ao passar se tem a impressão de romper os raios do sol.

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(A casa de Trótski em Prinkipo. Foto: James Hughes)

Há um homem detrás da grade. Sua túnica de policial turco está aberta sobre uma camiseta branca e, como um pacífico aposentado em seu jardim, ele está usando pantufas.

Outro policial se aproxima, este à paisana, ou melhor, em mangas de camisa, pois acaba de se lavar e está secando suas orelhas com a ponta da toalha.

“Monsieur Simenon?”

Estou em um jardim de luxo que tem somente 100 metros por 50. Um cãozinho rola na poeira. Um jovem desgrenhado, em uma rede, lê um panfleto inglês sem nem mesmo levantar o olhar em minha direção.

E lá, na varanda, há um outro jovem. Ele também está de chinelos e em mangas de camisa. E dois outros tomam café na primeira sala, que está mobiliada apenas com uma mesa e algumas cadeiras.

Tudo isso acontece em slow-motion. Acho que é por causa do ar. Estou em slow-motion também, sem nenhuma pressa; ia dizer sem curiosidade.

“Monsieur Simenon?”

Um dos jovens se aproxima, sua mão estendida, e logo estamos ambos sentados no terraço enquanto na outra ponta do jardim o policial termina sua toalete.

Pode-se estar ali por horas fazendo nada, dizendo nada, talvez pensando nada.

“Se você não se importa, primeiro nós dois falamos. E então você verá M. Trótski.”

O secretário não é russo. Ele é um jovem do norte, cheio de saúde, as bochechas rosadas, com olhos claros. Ele fala francês como se tivesse nascido em Paris.

“Estou bastante surpreso que M. Trótski tenha aceitado recebê-lo. Normalmente ele evita jornalistas.”

“Você sabe por que recebi esta distinção?”

“Não faço ideia.”

Nem eu. E continuarei sem saber. Talvez minhas questões coincidam com o desejo de Trótski de fazer uma declaração sobre determinado assunto?

Conversamos, e ao redor de nós tudo está quieto na imobilidade do ar. Os dois jovens no jardim são convidados; um inglês e um sueco. Eles irão embora após uma semana ou um mês e então outros virão, de outras partes do globo, amigos ou discípulos, que irão viver durante um tempo na intimidade da casa em Prinkipo. Uma verdadeira intimidade, quase a intimidade total de uma caserna.

Lá em cima, na estrada, carroças passam.

“Nunca houve um ataque?”

“Nunca. Como você vê, a vida é simples. Os dois policiais vivem neste barraco, ao fundo do jardim. M. Trótski raramente vai a Constantinopla, somente para ver seu médico ou dentista. Ele toma o barco que trouxe você aqui e o policial o acompanha.”

Esta é mais ou menos a inteira vida externa da casa. Trótski e Mme. Trótski vão ao médico.

No demais eles nem mesmo descem para o vilarejo. Que bem isto iria fazer? As pessoas precisam estar lá para entender, naquele terraço com vista para o jardim e para o mar, com, como horizonte próximo, a Ásia de um lado e a Europa do outro.

“Quer vê-lo agora?”

As paredes estão nuas nos quartos, brancas, e há apenas estantes de livros para quebrar a monotonia. Há livros em todos os idiomas, e eu distingo um Viagem ao Fim da Noite (de Céline) com a capa desgastada.

“M. Trótski acaba de lê-lo e ficou profundamente emocionado. A propósito, quando se trata de literatura é a francesa que ele conhece melhor…”

Trótski se levanta para me dar a mão, então se senta em sua escrivaninha, pesando docemente seu olhar sobre minha pessoa.

Ele foi descrito um milhão de vezes, e eu não gostaria de tentar fazer o mesmo. O que eu gostaria de fazer é transmitir a mesma impressão de calma e serenidade que tive, a mesma calma, a mesma serenidade que há no jardim, na casa, no cenário.

Trótski, simples e cordial, me estende as páginas datilografadas que contêm as respostas às minhas questões.

“Eu as ditei em russo e meu secretário as traduziu esta manhã. Eu gostaria apenas de perguntar se você assinaria uma segunda cópia que ficará comigo.”

Há jornais de todo o mundo sobre sua mesa, e o Paris-Soir está no topo da pilha. Será que Trótski o folheou antes da minha chegada?

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Através da janela aberta para a baía vejo um minúsculo cais no final do jardim onde dois barcos flutuam: um pequeno caiaque turco e um bote a motor.

“Veja”, Trótski sorriu, “estive pescando desde as seis horas da manhã”.

Ele não me diz que é forçado a levar um dos policiais, mas eu sei disso.

Com um gesto ele aponta as montanhas da Ásia Menor, que estão a pouco mais de 5 quilômetros dali.

“Lá há caça no inverno…”

Sobre a mesa, perto dos jornais, há um artigo que ele começou a escrever.

Esta é toda a vida da casa. Uma, às vezes duas vezes ao dia, Trótski joga a sua linha nas águas calmas do Mar de Mármara.

O resto do tempo ele fica no escritório, ao mesmo tempo tão longe e tão perto do mundo.

“Infelizmente, eu recebo os jornais somente muitos dias depois.”

Ele sorri. Seu rosto está relaxado, o olhar tranquilo. Mas não é graças a um esforço? Ele não é forçado a guardar suas forças? Para continuar sua obra, ele não se força a levar esta vida prudente, que lembra os gestos hesitantes de um convalescente?

Mas talvez não seja nada além de sabedoria.

“Você pode me fazer perguntas.”

É verdade. Mas o que será dito agora eu prometi não publicar. Trótski comenta sobre as declarações que me deu. Sua voz, seus gestos, em uníssono com a paz ambiente.

Conversamos longamente sobre Hitler. O assunto o preocupa. Pode-se sentir quanto. Repito para ele as opiniões contraditórias que ouvi ao redor da Europa, não sobre a atuação de Hitler, mas sobre sua personalidade, seu valor próprio.

Não acho que esteja traindo minha promessa ao repetir algumas das frases que me impressionaram na casa em Prinkipo, tão longe de Berlim.

“Pouco a pouco Hitler construiu a si mesmo ao mesmo tempo que fazia seu trabalho. Ele aprendeu passo a passo, etapa por etapa, ao longo da luta.”

As respostas às minhas perguntas? Nós as leremos juntos.

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(Simenon, ao centro com a cantora Josephine Baker, em 1927)

II

Perguntei a Trótski:

“O senhor acha que a questão racial irá predominar na evolução que virá da turbulência atual? Ou será a questão social? Ou a econômica? Ou a militar?”

Trótski responde:

“Não, eu não acho que a raça será um fator decisivo na evolução da próxima era. Raça é um assunto estritamente antropológico – heterogêneo, impuro, misturado (mixtum compositum) –, um assunto a partir do qual o desenvolvimento histórico criou produtos semi-acabados que são as nações… Classes e agrupamentos sociais e as correntes políticas que nascerão desta base decidirão o destino da nova era. Não nego, obviamente, o significado e as qualidades distintivas e características das raças; mas, no processo evolutivo, elas estão em segundo plano, atrás das técnicas do trabalho e do pensamento. Raça é um elemento estático e passivo, e a historia é dinâmica. Como um elemento imóvel em si mesmo pode determinar movimento e desenvolvimento? Todos os traços distintivos entre as raças se desvanecem diante do motor de combustão interna, para não mencionar a metralhadora.

“Quando Hitler se preparou para estabelecer um regime de Estado adequado à pura raça germano-nórdica ele não fez nada mais que plagiar a raça latina do Sul. Em seu tempo, durante a luta pelo poder, Mussolini utilizou claro, virando de ponta-cabeçaa doutrina social de um alemão, ou melhor, um judeu alemão, Marx, a quem, um ou dois anos antes, chamou de “o professor imortal de todos nós’. Se hoje, no século 20, os nazistas propõem virar as costas para a história, para a dinâmica social, para a civilização, para retornar à ‘raça’, por que não ir mais atrás? Antropologia não é verdade? é só uma parte da zoologia. Quem sabe talvez no reino dos anthropopithecus os racistas irão achar a maior e mais incontestável inspiração para sua atividade criativa?”

Ditaduras e democracias

Pergunta:

“O agrupamento de ditaduras pode ser considerado um embrião do reagrupamento de povos ou isso é só uma fase passageira?”

Resposta de Trotsky:

“Não acho que o agrupamento de países acontecerá, por um lado, sob o signo da ditadura e por outro, da democracia.

“Com a exceção de uma pequena parte de políticos profissionais, nações, povos e classes não vivem da política. Formas de estado são só um meio diante de determinadas tarefas, especialmente as econômicas. Obviamente uma certa similitude entre regimes de Estado predispõe à aproximação e torna isso mais fácil. Mas em última instância são as considerações materiais que decidem: interesses econômicos e cálculos militares.

“Se eu considero o grupo de ditaduras fascistas (Itália, Alemanha) e as quase-bonapartistas (Polônia, Iugoslávia, Áustria) episódicas e temporárias? Por desgraça, eu não posso fazer uma previsão tão otimista. O fascismo não é provocado por uma psicose ou “histeria” (é assim que se consolam os teóricos de salão como o conde Sforza), mas por uma crise econômica e social profunda que devora o corpo da Europa sem piedade. A atual crise cíclica só fez mais agudos os processos orgânicos mórbidos. A crise cíclica irá inevitavelmente ceder seu lugar a uma reanimação conjuntural, apesar de que será em um grau menor do que o esperado. Mas a situação geral da Europa não ficará muito melhor. Após cada crise, as empresas pequenas e fracas ficarão ainda mais fracas ou irão morrer completamente. As empresas fortes irão ficar ainda mais fortes. Perto do gigante econômico dos Estados Unidos, a Europa rota em pedaços representa uma combinação de pequenas empresas hostis umas às outras. A situação atual da América é muito difícil: o próprio dólar está de joelhos. No entanto, após a crise atual as relações de forças irão mudar a favor da América e em detrimento da Europa.

“O fato que o velho continente como um todo está perdendo a situação privilegiada que teve no passado leva a uma excessiva exacerbação de antagonismos entre os Estados europeus e entre as classes dentro dos Estados. Naturalmente, nos diferentes países estes processos levam a um diferente nível de tensão. Mas eu falo de uma tendência histórica geral. O crescimento de contradições sociais e nacionais explica, no meu ponto de vista, a origem e a relativa estabilidade das ditaduras.

“Para explicar meu pensamento permita que me refira ao que tive ocasião de dizer anos atrás sobre esta questão: por que democracias dão lugar a ditaduras e isso dura tanto? Vou lhe dar uma citação literal do artigo escrito em 25 de fevereiro de 1929:

“Costuma-se dizer neste caso que estamos lidando com nações retrógradas ou imaturas. Esta explicação se aplica apenas à Itália. Mas mesmo nos casos em que esta explicação é correta, isto não esclarece nada. No século 19 era quase uma lei que países atrasados alcançassem a democracia. Por que então o século 20 os empurra no caminho da ditadura? As instituições democráticas mostram que não suportam a pressão das contradições contemporâneas, ora externas, ora internas, mas mais frequentemente ambas ao mesmo tempo. Isto é bom? Isto é ruim? Em todo caso, é um fato.

“Por analogia com a eletricidade, a democracia pode ser definida como um sistema de interruptores e isolantes contra correntes muito fortes da luta nacional ou social. Nenhuma era na história humana foi tão saturada de antagonismos como a nossa. Um excesso de corrente é crescentemente sentido em diferentes pontos da rede européia. Sob uma grande pressão de contradições de classe e internacionais os interruptores da democracia vão derreter ou explodir. São os curto-circuitos das ditaduras. Os interruptores mais fracos são obviamente os primeiros a falhar.

“Quando escrevi estas linhas, a Alemanha ainda tinha um social-democrata no comando do governo. Está claro que a subsequente marcha de acontecimentos na Alemanha – um país que ninguém pode considerar atrasado – não foi capaz de modificar minha apreciação da situação.

“É verdade que durante este tempo o movimento revolucionário na Espanha varreu não só a ditadura de Primo de Rivera, mas também a monarquia. Correntes contrárias deste tipo são inevitáveis no processo histórico. Mas o equilíbrio interno está longe de acontecer na Península mais além dos Pirineus. O novo regime espanhol ainda não demonstrou sua estabilidade.”

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(Trotski indo para o exílio na Turquia em 1928)

Guerra ou paz?

Pergunta:

“O senhor acredita em uma possível evolução gradual ou considera um choque violento necessário? Por quanto tempo a indecisão atual pode ser prolongada?”

Resposta:

“O fascismo, particularmente o nacional-socialismo alemão, coloca a Europa em um indiscutível perigo de um choque bélico. E, talvez eu esteja errado, mas parece que não estamos suficientemente conscientes do perigo. Como temos à vista uma perspectiva não de um mês, mas de anos e certamente não dezenas de anos, considero absolutamente inevitável uma explosão bélica da Alemanha fascista. É precisamente esta questão que poderá se tornar decisiva para o destino da Europa. Espero muito em breve escrever mais sobre isso na imprensa.

“Talvez você ache minha apreciação da situação muito sombria. Estou só tentando desenhar conclusões a partir de fatos, tomando como guia não a lógica de simpatias e antipatias, mas a lógica do processo objetivo. Espero que não seja necessário provar que nossa era não é uma era de prosperidade calma e pacífica e de conforto político. Mas minha apreciação da situação só pode parecer pessimista para quem mede a marcha da história com uma régua curta. De perto, todas as grandes eras pareciam sombrias. O mecanismo do progresso, deve-se reconhecer, é bastante imperfeito. Mas não há razão para pensar que Hitler, ou uma combinação de Hitlers, irão ter sucesso sempre ou talvez por alguns anos fazendo este mecanismo ir para trás. Eles irão quebrar muitos dentes da engrenagem, vão torcer muitas alavancas, irão fazer a Europa ir para trás por alguns anos. Mas não tenho dúvida que no final, a humanidade irá achar seu caminho. Todo o passado é uma garantia disto.”

“Você tem outras questões a fazer?” Trótski pergunta pacientemente.

“Só uma, mas temo que possa parecer indiscreta.”

Ele sorri e, com um gesto, me encoraja a prosseguir.

“Os jornais dizem que o senhor recebeu recentemente emissários de Moscou com a missão de chamá-lo para retornar à Rússia.”

O sorriso se acentua.

“Não é verdade, mas eu sei a fonte desta história. Um artigo de minha autoria que apareceu dois meses atrás na imprensa norte-americana. Eu disse, entre outras coisas, que dadas as políticas atuais na Rússia eu estaria pronto a servir de novo se algum perigo ameaçasse o país.”

Ele está calmo e tranquilo.

“O senhor poderia voltar à ativa?”

Ele diz sim com a cabeça, enquanto um dos jovens, sem dúvida para a pesca da tarde, instala redes no barco.

De volta a Saint-Cloud, quer dizer, Prinkipo, e bateau-mouche.

Naquela noite eu jantei no Régence. O prospecto dizia: “O elegante restaurante onde você será bem recebido por damas da aristocracia russa…”

Há ainda um milhar de emigrantes russos em Constantinopla e como em Paris, Berlim e outras partes, a noite tem a nostalgia das balalaikas, piroyoks, vodca e chachliks.

Naquela hora, em sua ilha que as balconistas e os ambulantes desertaram, Trótski dorme.

Assista também ao documentário sobre o exílio de Trótski na Turquia narrado por Vanessa Redgrave

Em Camaradas

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