Dilma, o único antídoto contra o fundamentalismo é o confronto

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(Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Entendo que Lula deseje pacificar Dilma com o PMDB para que, afinal, eles não acabem participando da trama do impeachment. Entendo que a própria presidenta queira isso. Mas há PMDBs e PMDBs. Não existe mais a possibilidade de Dilma dialogar com o PMDB que Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, representa. O PMDB dos fundamentalistas religiosos, dos que querem transformar o País numa teocracia. Esta gente odeia Dilma, odeia tudo que ela representa. E quer tomar o seu lugar.

A história do PT o empurra para a obrigação de deter a escalada dos fundamentalistas, cujo alvo principal é a presidência da República. Ou Dilma e Lula têm a ilusão de que em 2018 terá este PMDB a seu lado novamente? Em nome da tal governabilidade, o PT dilapidou seu patrimônio ético e político ao longo dos anos que está no poder. Para agradar setores à direita, eliminou os “radicais” do partido, quando em muitos aspectos eles eram o que de melhor o PT tinha. Que falta eles fazem hoje!

Será que o PT acalenta o sonho de permanecer no poder em 2018? Ou melhor: será que o PT será reeleito em 2018? Tenho minhas dúvidas. Mas tanto para permanecer no poder quanto para se preparar para deixá-lo, o partido deveria começar a fazer o que tem de ser feito. Dar ao Brasil de presente a entrada no primeiro mundo de fato, onde a civilidade supera a barbárie. Neste quarto mandato à frente do País, o PT precisa garantir seu lugar na história, como fez Pepe Mujica no Uruguai e mesmo Barack Obama nos Estados Unidos. E acredito que Dilma sairá fortalecida se o fizer. O PT cresce quando confronta.

O contra-ataque no Congresso deveria se basear em quatro projetos basicamente:

1. Imposto sobre grandes fortunas: é um assunto que conta com o apoio de grande parcela da população. Só é polêmico, na verdade, para quem possui grandes fortunas.

2. Legalização da maconha para uso medicinal: segundo pesquisa Datafolha de novembro do ano passado, 56% dos brasileiros se manifestaram contrários à venda da maconha para uso medicinal. Mas e os outros 44%? Uma boa campanha não seria capaz de modificar o pensamento de quem se opõe? Se o próprio ex-presidente FHC, que é da oposição, participa de campanhas a favor… Este é um tema caro à esquerda brasileira, tão menosprezada pelo PT nos últimos anos. E o ideal é que fosse um projeto que abarcasse também o uso e o plantio para consumo próprio, o que elimina o narcotráfico.

3. Reforma política: um projeto próprio e avançado, com tudo que o PT sempre quis colocar em pauta. Voto em lista, financiamento público de campanha e aumento da participação da mulher. Nada mais perfeito para mostrar quem está mesmo preocupado com a ética na política.

4. Criminalização da homofobia: pesquisa do Ibope de setembro do ano passado mostrou que 53% dos brasileiros são contra o casamento gay, mas 40% são a favor. Trata-se de uma parcela muito significativa da população que se mostra partidária da tolerância com o semelhante e que precisa ser atendida em seu desejo de que o País avance no combate ao preconceito. Sem contar que os cidadãos LGBTs votaram em Dilma, ela lhes deve isso.

Ao apresentar estes projetos no Congresso, Dilma iria recuperar imediatamente a simpatia da parcela mais progressista do eleitorado, que é formadora de opinião e foi importantíssima para sua reeleição. E, assim como Obama fez, dará um xeque-mate no conservadorismo religioso, porque é uma dessas ocasiões em que, mesmo se for derrotada, Dilma ganha. Se perder, o Congresso sairá com uma imagem extremamente retrógrada não só diante do Brasil como do mundo. A presidenta, ao contrário, sairá como a mulher que tentou colocar o País no rumo das nações mais civilizadas do planeta e foi derrotada por políticos atrasados, dignos de república de bananas.

Aposto que seria uma boa briga e que só faria bem à popularidade da presidenta. Um antídoto contra o golpismo dos fundamentalistas, que dificilmente conseguiriam levantar a cabeça de novo. Se, em vez disso, o PT e Dilma resolverem baixar a cabeça, cedendo cargos e espaço no governo para o conservadorismo, nada mais farão que dar um tiro no próprio pé e enterrar o partido de vez. Além de colocar o Brasil no rumo das trevas.

Ninguém aguenta mais a covardia que o PT está demonstrando no governo. Afinal, a presidenta tem coração valente ou era só truque de marketing? Vai para cima deles, Dilma!

(Mais para o final do mandato, a presidenta Dilma deveria apresentar ao País um bom projeto para a legalização do aborto. Está mais do que na hora e ela é a pessoa certa para fazê-lo e passar à história. Tenho certeza disso.)

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O filtro de barro, o capitalismo e a seca em SP

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Uma das maiores sacanagens do capitalismo, em minha opinião, é criar necessidades. Ou seja, fazer você acreditar que precisa de alguma coisa e então passar a não viver mais sem ela. Outra, pior ainda, é conseguir convencer as pessoas de que algo antigo, durável e que funciona perfeitamente na verdade é obsoleto e portanto deve ser substituído. Ambas as situações ocorreram com os filtros de barro no Brasil.

O filtro de barro é, segundo especialistas, a maneira mais segura e eficiente de se filtrar a água de beber que existe. Ela sai do filtro 95% livre do cloro, parasitas, pesticidas, metais como ferro, chumbo e alumínio e o que é melhor, fresquinha, porque a cerâmica diminui a temperatura da água em até 5 graus centígrados. É ainda o único filtro de água que recebe a classificação P-I do Inmetro, capaz de reter partículas de 0,5 a 1 mícron (os demais só acima de 15 mícrons). Uma façanha “tecnológica” do tempo da vovó.

No entanto, a partir da década de 1990, fomos convencidos do contrário: que o filtro de barro era ineficiente e até mesmo “cafona”, e que a melhor água para o consumo humano é a engarrafada, pela qual desde então pagamos dinheiro, em vez de utilizar a que vem da torneira, pela qual também pagamos, e 2 mil vezes mais barato.

O truque da água engarrafada nos fez cair como patinhos. Como a indústria de bebidas sabia que a curva ascendente dos refrigerantes tinha tempo para terminar –já que uma hora as pessoas iam se dar conta de que fazem mal para a saúde–, passou a investir em engarrafar e vender a pura, leve e saudável água. Quem tem algo a dizer contra ela? Resultado: o comércio de água engarrafada é hoje um negócio multibilionário. Só a Nestlé, a maior vendedora de água do planeta, fatura 9 bilhões de dólares anuais com um produto que nem sequer precisa fabricar, basta retirar do subsolo. A multinacional suíça é dona de mais de 70 marcas de água mineral, inclusive as famosas Perrier e S.Pellegrino.

Na região Sudeste do Brasil, de acordo com números do IBGE, até a década de 1990 mais de 70% das casas possuíam filtros de barro. “Havia inclusive um item na construção, no canto da cozinha, a cantoneira, feita apenas para abrigar o filtro, como se fosse um objeto artístico ou de decoração”, lembra o economista Julio César Bellingieri, autor de uma tese de mestrado na Unesp sobre a indústria da cerâmica em Jaboticabal, terra dos filtros de barro. As fábricas foram atraídas para lá no início do século 20 em virtude de uma abundante jazida de argila na região.

Segundo Bellingieri, o filtro de cerâmica existe no Brasil desde 1910, quando começa a ser produzido por famílias de imigrantes italianos e portugueses. O tradicional filtro São João, de barro vermelho e com vela porosa que ilustra esta reportagem, foi criado entre 1926 e 1928 pela Cerâmica Lamparelli, de Jaboticabal. Em 1947, quatro irmãos da família Stéfani adquiriram a fábrica e continuaram a produzir os filtros com o mesmo nome e aparência até hoje. Com a queda da procura pelos filtros a partir da década de 1980, as demais fábricas faliram e a Cerâmica Stéfani se tornou a maior produtora de filtros de cerâmica do País e quiçá do mundo.

A Stéfani chegou a vender 80 mil filtros de barro por mês, mas quase fechou na última década, diante da concorrência da água engarrafada. Acabou contratando um executivo, Emilio Garcia Neto, para recuperar a empresa, que há quatro anos saiu do vermelho e atualmente exporta filtros de cerâmica para 45 países, 8 deles na África. “Tem gente que acha o filtro antigo, outros acham vintage”, brinca Emilio. A Stéfani fez algumas modificações no design de alguns filtros, substituindo a parte de cima por plástico, mas o São João continua um clássico. 50% do processo de fabricação ainda é feito manualmente.

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(Propaganda do filtro São João. Fonte: Julio César Bellingieri)

O economista Bellingieri não sabe afirmar com certeza, mas é possível que o filtro de barro, neste formato, seja invenção brasileira. Já se usavam na Europa filtros de louça e cerâmica, mas iguais aos daqui, de barro vermelho, não –talvez sejam uma evolução das moringas, de origem indígena. Quando foi lançado no mercado, na década de 1920, o filtro de barro chegou a ser símbolo de status. “O público-alvo do filtro São João era formado por indivíduos com uma renda mais alta. Se o público consumidor da Cerâmica Lamparelli fosse ordenado em cinco ‘classes’ de ‘poder de compra’, poder-se-ia dizer que o filtro São João era comprado pelas classes A e B; as classes C e D compravam uma talha com torneira ou um ‘filtro reto’; e a classe E comprava um pote ou moringa sem torneira”, escreveu o pesquisador em sua ótima tese.

Durante os anos 1980, os filtros de barro passaram a sofrer a concorrência dos filtros de carvão ativado, que pareciam a coisa mais moderna do mundo, mas que não purificam a água melhor do que os filtros de barro –e sem usar energia elétrica. Nos anos 1990, as classes média e alta começam a substituir a água filtrada pelos galões de água mineral entregues em domicílio e o velho e bom filtro de barro é aposentado de vez. “A partir dos anos 2000 a venda de água mineral chega ao auge e passa a ser considerado ‘coisa de pobre’ ter um filtro em casa”, diz Bellingieri.

Este aspecto do “status” conferido a quem toma água mineral é curioso. No documentário Bottled Life (2012), do diretor suíço Urs Schnell, se comenta como jovens do Paquistão foram seduzidos pela ideia de que tomar água em garrafinha é cool, e assim a Nestlé conquistou mais um mercado. O documentário investiga o controle da multinacional suíça sobre a água mineral bebida em vários países do mundo, inclusive nos Estados Unidos.

Lá, a Nestlé é dona da marca de água mais vendida do país, a Poland Spring. Em uma passagem do filme, moradores de Fryeburg, no Maine, resolvem proibir que a empresa extraia a água para vender porque estaria poluindo o rio da cidade, e a Nestlé incrivelmente vai à Justiça… contra os cidadãos. E ganha. Em Nova York, a água mineral em garrafinha Poland Spring também é campeã de vendas e virou símbolo do life style saudável e esportista dos novaiorquinos sendo que, ironiza uma especialista no documentário, eles têm na torneira, grátis, a água limpíssima que vem das montanhas Catskill…

É chocante ver como o chairman da Nestlé, o austríaco Peter Brabeck-Lemathe, fala com jeito de galã e voz melíflua sobre a “importância” da água para o planeta como se fosse um ambientalista, enquanto a empresa explora o líquido para gerar lucro. Ninguém na Nestlé deu entrevista ao documentarista em nenhuma parte do mundo. (Vale a pena assistir, está no Netflix. Nunca mais você vai comprar nada da Nestlé depois, muito menos água.)

No Brasil, um grupo de moradores da cidade de São Lourenço, em Minas Gerais, e o Ministério Público se mobilizam contra a exploração do Parque das Águas da cidade pela Nestlé há 14 anos, sem sucesso (leia aqui reportagem da Agência Pública sobre o caso).

Na Europa, é comum as pessoas beberem água diretamente da torneira. Em São Paulo, como em algumas capitais do Brasil, a água que vem da torneira pode ser consumida, embora seja mais aconselhável que passe antes pelo filtro. A questão é que a indústria de bebidas nos convenceu que só a água de garrafinha é “segura”, ainda que na verdade não saibamos muito bem a origem dela. É um esquema que, como sempre, copiamos dos Estados Unidos. Em 2010, a ambientalista Annie Leonard criou este documentário onde explica como isto ocorreu.

Agora pensem em São Paulo, uma megalópole cuja região metropolitana concentra 20 milhões de habitantes, consumindo água mineral engarrafada sem parar e que agora está passando por uma falta d’água histórica. Não é de ficar com uma pulga atrás da orelha que estes dois eventos possam estar relacionados?

O Brasil é hoje o quarto maior consumidor de água mineral do mundo –só fica atrás dos EUA, México e China. São 7,1 bilhões de litros de água engarrafada por ano, quase 3 bilhões deles só em São Paulo. O consumo de água mineral cresce 10% por ano no país e, em 2014, com a Copa do Mundo e a seca, a ABINAM (Associação Brasileira da Indústria de Água Mineral) fazia previsões de chegar a um consumo de 14 bilhões de litros. Como saber se retirar essa água toda do subsolo não está causando alguma espécie de desequilíbrio?

“Na minha opinião há, sim, uma correlação, mas não há como provar porque simplesmente não existe fiscalização eficiente da água mineral no Brasil”, diz o economista Pedro Portugal Júnior, autor de uma tese de mestrado na Unicamp sobre as empresas de água mineral. “Temos um problema institucional: aqui, a água mineral é considerada um minério, como o ferro, a bauxita, e portanto é fiscalizada não pelos órgãos que regem os recursos hídricos, mas pelo DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral). E o próprio DNPM admite que estes números sobre o consumo são subestimados”.

De acordo com Portugal, as águas minerais deveriam ser integradas à gestão de recursos hídricos o mais rápido possível para que a fiscalização seja descentralizada. “Agora, por exemplo, está chovendo pouco. E se há uma estiagem, o DNPM tinha obrigação de exigir que as empresas diminuíssem a extração”, defende.

Pois o que está acontecendo em São Paulo é o contrário. As empresas de água mineral, que já são isentas do pagamento do PIS/Cofins desde 2012, receberam um presente de Geraldo Alckmin no início do mês de fevereiro: por decreto e atendendo ao pedido da ABINAM, o governador de São Paulo colocou a água mineral na cesta básica e concedeu uma redução no ICMS de 18% para 7% sobre o galão. Quer dizer, enquanto os paulistas choram com a falta d’água, o setor comemora a seca. A expectativa é que a redução do ICMS estimule a produção e que extraiam ainda mais água mineral do exaurido solo de São Paulo.

Se na cidade do México, outra gigante populacional e enorme consumidora de água mineral, o solo está afundando 2,5 centímetros por mês devido à retirada de água dos subsolos, por que São Paulo não sofreria nenhum efeito dessa exploração toda? Será coincidência que a falta de água seja mais grave nos Estados do Sudeste, onde mais se consome água mineral engarrafada no Brasil? Tentei fazer estas perguntas à ABINAM e não fui atendida. Tampouco o DNPM respondeu a meus questionamentos. Não encontrei estudos sobre o impacto da extração de água mineral em São Paulo, mas o professor de Geociências da USP, Reginaldo Bertolo, me tranquilizou dizendo que o volume é “relativamente irrisório”. Será?

Entrevistei o hidrogeólogo José Luiz Albuquerque Filho, chefe do Laboratório de Recursos Hídricos e Avaliação Geoambiental do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), a quem expus minhas dúvidas.

Socialista Morena – Como mensurar o impacto ambiental em São Paulo da retirada de toda esta água mineral?

José Luiz Albuquerque Filho – O impacto ambiental vai estar associado ao local da extração. Se o proprietário seguiu as orientações técnicas, se explorou com racionalidade, teoricamente não teria impacto. Agora, em situações clandestinas, pode haver algum tipo de impacto, sim. O problema é a dificuldade de fiscalizar. Se retiram água da beira de um riacho, por exemplo, é fácil ser pego pela fiscalização. Mas uma fonte de água mineral é possível esconder com uma facilidade imensa. 

SM – O senhor achou correto que o governador Geraldo Alckmin tenha reduzido o ICMS da água mineral, estimulando o aumento da produção, em plena seca?

JLAF – Qualquer decisão que for tomada neste momento tem que ter muito cuidado porque pode ser um tiro no pé. Talvez não precisasse ter baixado, porque o mercado está aquecido. O governador fez uma medida popular, apostando que o preço da água engarrafada irá cair. Mas será que eles vão mesmo baixar o preço?

SM – As chuvas foram suficientes para repor as reservas?

JLAF – Não. Estou muito preocupado. A chuva está passando, os mananciais estão a meia carga e há dois volumes mortos que foram utilizados no Cantareira e precisam ser repostos. E a gente não ouve falar em um plano de contingência, de emergência. Isso não vai dar certo. As pessoas com maior poder aquisitivo poderão recorrer à água mineral, aos caminhões-pipa. Mas e quem mora na periferia? Vai cavar um buraco no fundo da casa e tomar a primeira água que brotar, o que é um perigo. Mas é natural que procurem uma solução. Ninguém fica sem água.

Pelo sim, pelo não, aqui na minha casa não entra mais garrafão algum. O governo, se fosse responsável, deveria estimular os cidadãos a fazer o mesmo. E viva o filtro de barro.

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A suavidade esquecida dos pelos pubianos

xoxota

(Theodoor Thomas, Nu Feminino, 2013)

“Mas ela é um livro místico e somente
a alguns (a que tal graça se consente)
é dado lê-la”
(John Donne em tradução de Augusto de Campos)

Fetiche masculino pela vagina sem pelos, sempre houve. Na carta de Pero Vaz de Caminha, em 1500, já apareciam os portugueses botando reparo nas xoxotas lisinhas das índias do Brasil, ao descoberto. “Suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam”, escreve o gajo, embevecido. Caminha chega a apostar que, de tão “graciosa”, a vergonha das índias causaria inveja às mulheres europeias, “por não terem as suas como ela”…

Na arte barroca e renascentista, porém, por pudicícia ou moralismo, as mulheres sempre apareceram glabras, inteiramente desprovidas de pentelhos, como se a ausência destes fosse sinônimo de ausência de malícia. O púbis pelado, qual o de uma criança, era quase a personificação da pureza em forma de boceta. Ao que tudo indica, a primeira vez que os pelos pubianos femininos aparecem na pintura ocidental é no óleo sobre tela La Maja Desnuda (1795-1800), de Goya, um dos quadros mais famosos da história. A penugem é discreta.

maja

O tabu seria rompido de forma gloriosa e, digamos, Ohaniana, pelo francês Gustave Courbet (1819-1877) com sua Origem do Mundo, de 1866.

courbet

Já no século 20, o austríaco Egon Schiele (1890-1918) tampouco abriria mão de retratar suas musas au naturel, sem retoques.

schiele

(Nu Feminino com as Pernas Afastadas, 1914)

Assim como, anos mais tarde, o espanhol Pablo Picasso (1881-1973).

odalisque

(Odalisque, 1951)

Sabe-se que o hábito de afeitar a xoxota não é recente, pelo contrário, existe desde tempos remotos. É ainda cultural: no islamismo, homens e mulheres são encorajados a depilar as partes íntimas. Mas quando foi que, entre nós, o monte-de-Vênus peludo se tornou um pária, um proscrito? Culpa das brasileiras, que apresentaram ao mundo, no final da década de 1980, uma técnica de depilação que ficaria famosa justamente com o nome de “brazilian wax” –aqui, “cavadinha”. Era a depilação ideal para usar biquínis cada vez menores e que, com o tempo, foi ficando mais cavada do que a própria tanga, até não restar quase nenhum pelo no púbis e até no ânus.

O que eu tenho contra a depilação? Nada. Faz quem quer. O que me incomoda é a obrigatoriedade que se estabeleceu em torno do assunto. Vejo homens por aí dizendo que “não aceitam” mulher que não se depila, quando eu acho que homem que gosta de mulher, gosta de qualquer jeito, com pelos ou sem (já falei uma vez e repito: quem gosta mesmo de manga não se importa com fiapo).

Para começo de conversa, não acho que a depilação de uma mulher ou a falta dela seja assunto para homens opinarem. E, ridiculamente, são eles que costumam ser convocados a falar sobre depilação, até mesmo nas revistas femininas. Ora, o corpo é da mulher e a última palavra sobre isso deve ser dela: se quer depilar a xoxota (inclusive para agradar ao parceiro), quem decide é a mulher. Ao homem, neste momento, cabe aceitar ou, no máximo, pedir para que a parceira ceda a seu capricho. Jamais querer impor sua opinião, até porque podemos passar a exigir que os homens também se depilem, que tal?

Outro aspecto é que os pelos estão ali para proteger a vagina. Espalhou-se a falsa ideia de que depilar é “mais higiênico”, quando, ao contrário, a ausência da penugem deixa a vagina literalmente nua. Não é à toa que, desde que as mulheres passaram a arrancar tudo, aumentaram as ofertas de sabonetes e desodorantes íntimos: é para compensar a falta que os pelos fazem ali. Com uma vantagem extra: os pentelhos também funcionam como difusores dos feromônios, os hormônios sexuais. Há ginecologistas, aliás, que advertem que mascarar odores da xoxota com produtos específicos pode fazer mal à flora vaginal. Tanta higiene e assepsia, no final das contas, não combina com sexo.

O mais importante: na ânsia pela “limpeza”, esqueceu-se que os pelos pubianos podem ser suaves e macios ao tato, além de esteticamente bonitos, ao contrário de certas depilações por aí. Há um mistério gozoso na penugem encaracolada (castanha, negra, loira, ruiva) que envolve o sexo da mulher, e desbravadores dedicados destas matas encontrarão prazer em descobri-lo. Todas as xoxotas são lindas à sua maneira, depiladas ou não –mas não é tão óbvia, me permitam, a beleza de uma xoxota coberta de pelos.

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“Guardem este nome”: um perfil de Eduardo Cunha que escrevi em 2013

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(Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Pouco conhecido da opinião pública, ainda atuando nos bastidores da Câmara, a figura do deputado federal Eduardo Cunha me chamou a atenção. Era tido como “gênio” por colegas que cobriam o Congresso e começava a galgar postos significativos na Casa. Escrevi algumas notas sobre ele em CartaCapital e, em fevereiro de 2013, quando ganhou a liderança do PMDB, eu o entrevistei para um pequeno perfil também publicado na revista.

De lá para cá, o deputado, que era calvo, ganhou cabelo e poder: se transformou no presidente da Câmara dos Deputados. Sua briga com a Globo (e a imprensa em geral) também arrefeceu desde que prometeu derrubar qualquer tentativa de regulação da mídia. Fundamentalista religioso, vai fazer o impossível para impedir pautas progressistas e mergulhar o País no obscurantismo. Não se subestima o inimigo. Regra básica na guerra e na política que, pelo visto, o PT não soube respeitar.

Vale a pena ler de novo.

***

O poderoso Cunha e suas “brigas”*

Henrique Eduardo Alves na presidência da Câmara foi dentro do esperado, Renan Calheiros no comando do Senado era tido como barbada, mas o que a presidenta Dilma Rousseff menos queria se concretizou. O deputado federal Eduardo Cunha, por quem Dilma não morre de amores há longa data, ganhou a liderança do PMDB. Guardem este nome: é um personagem forte nos bastidores de Brasília que agora, sob os holofotes, promete crescer –mesmo que não crie problemas para o governo, como se espera.

Aos 54 anos, calvo, grisalho e com uma coluna curvada que lhe confere alguns anos a mais sobre as costas, o carioca Eduardo Cunha está há tempo demais na política para continuar relativamente desconhecido. Em 1982, era um jovem admirador da candidata Sandra Cavalcanti e pensou em se lançar vereador pelo PTB, mas desistiu. Em 1990, aos 30 anos, assumiria a presidência da Telerj no governo Fernando Collor de Mello. Sete anos mais tarde, cometeu “a asneira”, como diz, de se juntar a Anthony Garotinho, em cujo governo se tornaria presidente da Companhia de Habitação e, em 2002, eleito deputado federal, seu porta-voz em Brasília.

Foi em virtude da aliança com Garotinho, com quem atualmente está “rompido”, conta, que viria sua inimizade com as organizações Globo, a quem acusa de perseguição por mantê-lo na mira de diversas denúncias nos últimos anos. Diz que processa vários jornalistas do jornal O Globo, entre eles um repórter veterano de Brasília com quem protagonizou, em 2011, um bate-boca público, via twitter, ao chamá-lo de “homossexual”. “Devo ter falado mesmo”, admite Cunha. “Por quê? Ele não se assume? Isso é segredo?”

Os veículos da Globo não lhe dão trégua também, afirma, por causa de um processo trabalhista que sua mulher, a jornalista Cláudia Cruz, moveu contra a emissora carioca. “Minha esposa era apresentadora da Globo e eles demitiram”, afirma Cunha. “Como ela era pessoa jurídica, a Globo não pagava direitos trabalhistas. Meti um processo e ganhei 5 milhões de reais.” O novo líder do PMDB não esconde de ninguém que gosta de briga. “Você dá beijo em quem te dá beijo. Sabe como é briga de rua, né? Você começa a brigar e não pára.”

Esse gosto pela briga, que atribui ao sangue italiano (seu sobrenome do meio é Cosentino), é que leva o deputado a enfiar em todas as medidas provisórias do governo uma emenda em favor do fim da prova obrigatória da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Virou folclore na Casa. Por que o senhor faz isso, é advogado? “Não, sou economista. Mas foi bom você ter me lembrado”, diz, e liga para a secretária. “Olha, faça a emenda da OAB em todas as MPs”, ordena, ao telefone. E novamente para mim: “Não existe isso em nenhuma outra profissão, é um absurdo. Me sensibilizei com essa causa e sou apaixonado pelas brigas que compro.”

Com Dilma Rousseff, seus problemas começaram em 2007, quando ela era ministra da Casa Civil do governo Lula. Dilma queria pressa na votação da prorrogação da CPMF; Cunha, relator do projeto, sentou em cima durante seis meses. Resultado: o governo perdeu e Dilma, claro, não gostou. Em 2011, já presidente, encarou de frente Eduardo Cunha ao trocar todo o comando de Furnas, ligado ao deputado, por nomes técnicos. No final do ano passado, Dilma enfrentaria a oposição do parlamentar justamente à sua “medida” dos olhos, a MP que tornou possível a redução da conta de luz.

Cunha não só nega ter atuado contra a aprovação da MP como  que seja o representante do setor elétrico no Congresso Nacional. “Não tenho nenhuma relação com o setor elétrico, nada”, jura, de pés juntos, o deputado, repetindo um cacoete que retorna todas as vezes em que pronuncia alguma frase difícil de acreditar: fala de olhos fechados, fugindo do olhar do interlocutor. “A vida é isso, não é, querida? Sempre tem três versões, a das partes e a verdadeira”. Fecha os olhos. “Não corresponde à verdade que eu tinha cargos em Furnas.”

Mas como é que, como líder do PMDB, vai se relacionar com a presidenta, sendo que todo mundo fala que ela não gosta do senhor? É de olhos fechados que Cunha responde: “Sempre que a encontrei, ela me tratou com a maior gentileza.” Ganha a eleição para a liderança no domingo à noite, o governador Sérgio Cabral garantiu à presidenta novos tempos na relação de seu aliado Eduardo Cunha com ela. Mas, antes do desfecho, Dilma fez o possível para que o deputado não ganhasse –melhor dizendo, seu vice, Michel Temer, e Henrique Eduardo Alves, fizeram o possível.

Henrique, vizinho de prédio de Cunha em Brasília, com quem costumava tomar o café da manhã quase diariamente, chegou a trabalhar pela eleição do deputado Sandro Mabel para a liderança do partido. Quando, porém, viu que o peemedebista carioca ameaçava arrecadar votos para sua rival, Rose de Freitas, à presidência da Câmara, ele e o vice jogaram a toalha. Mabel contou apenas com os votos de parlamentares ligados aos senadores José Sarney e Renan Calheiros. Entre eles, o grupo conhecido como “menudos”, integrado por filhos de políticos e liderado pelo deputado Renan Filho, que agora ameaça criar um “PMDB do B” na Casa, sob o comando de Mabel e ignorando Cunha.

Difícil. Se Eduardo Cunha entrou na rota de colisão com a Globo, o mesmo não se pode dizer dos jornalistas que cobrem o Congresso –inclusive os da Globo. Nove entre dez repórteres o descrevem como “ótima fonte”, o que significa que não é moleza se tornar seu inimigo. Foi só arrumar confusão com Cunha que, coincidentemente, Renan Filho se tornou alvo da imprensa.Na quarta-feira 6, o jornal O Estado de S.Paulo revelou que “Renanzinho” teria usado recursos da verba indenizatória (dinheiro público) para pagar advogados que atuam para si próprio e o pai em causas privadas. O deputado afirmou não haver irregularidades. Quem teria sido a fonte?

Outra razão para os parlamentares não desejarem criar atrito com Eduardo Cunha são os contatos do novo líder com doadores de campanha no meio empresarial. “Ele ajudou financeiramente a campanha de metade do Congresso”, afirma um parlamentar. Evangélico, o líder do PMDB é ligado à rádio Melodia FM, na qual apresenta um programa, mas diz que a emissora não lhe pertence. “Não é minha, é de um amigo, Francisco Silva (ex-deputado federal), mas como ele está doente, praticamente… Eu coordeno a parte política da rádio”, diz.

Seu eleitorado é evangélico, de classe baixa. “Sou humilde, muito humilde. Tenho eleitorado pobre, não peço voto na zona Sul, não quero voto de rico”, esnoba. “Humilde”, mas ambiciosíssimo, Eduardo Cunha admite que quer voar alto. “Meu objetivo é crescer. Se eu não crescer, qual o estímulo que tenho para continuar?” E cargo executivo? “Nem pensar, esquece. É inviável ser administrador público neste país. Você fica quatro anos e passa 30 respondendo ação do Ministério Público, é só aporrinhação.”

De frente para o deputado, na sala de reuniões do amplo gabinete da liderança do PMDB na Câmara, há um painel com fotos de ex-líderes, como Tancredo Neves, Michel Temer, Luiz Henrique e Geddel Vieira Lima, um grande aliado de Cunha na disputa. Pergunto ao deputado com qual deles desejaria se parecer ao se tornar líder do partido na Casa. “Quero ter a temperança de Michel com o arrojo de Geddel.” É um poeta.

*Texto publicado originalmente na edição 753 de Carta Capital.

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Mulheres do candomblé contra a intolerância

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(Mãe Carmem do Gantois em cena do documentário)

De vestido branco rendado e sorriso maroto no rosto, Mãe Carmem de Oxaguiã, a sucessora da célebre Mãe Menininha do terreiro do Gantois, na capital baiana, analisa o poder feminino na religião afro-brasileira: “As mulheres dão conta do candomblé. A mulher sabe mandar… Com carinho, ela manda”. E vai desfiando os nomes das matriarcas antes dela, antes de sua mãe, e antes ainda… Guardiãs dos segredos dos orixás.

Lançado em 2013, o livro Mulheres de Axé reuniu perfis de mais de 200 ialorixás (mãe-de-santo) de Salvador, região metropolitana e Recôncavo. E foi transformado em um documentário que o Socialista Morena reproduz com exclusividade. No tom calmo de falar, no jeito doce, a sabedoria das mulheres do candomblé contrasta com a perseguição e a intolerância que até hoje sofrem no Brasil os seguidores das religiões de matriz africana.

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Embora desde 1939 tenha sido garantida a liberdade de culto no País, não é mais a polícia quem pretende destruir os terreiros de candomblé e umbanda –mesmo com o decreto de Getúlio Vargas, até 1976 havia uma lei na Bahia que obrigava os terreiros de candomblé a se registrarem na delegacia. Atualmente, quem persegue os seguidores das religiões afro-brasileiras é gente dita “cristã”: fundamentalistas evangélicos que disseminam o preconceito e o ódio aos fiéis do candomblé e também da umbanda.

No ano passado, o Disque 100, número disponibilizado pelo governo para denunciar agressões aos direitos humanos, registrou 149 casos de intolerância religiosa, quase todos relacionados às religiões de matriz africana. Em 2007, foi instituído o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (21 de janeiro), em homenagem à mãe-de-santo Gildásia dos Santos, a Mãe Gilda, do Ilê Axé Abassá de Ogum, no bairro de Itapuã.

Em outubro de 1999, Mãe Gilda teve sua imagem estampada na primeira página da Folha Universal, da Igreja Universal do Reino de Deus, sob os dizeres: “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. No dia seguinte, seu terreiro foi invadido e depredado. Mãe Gilda acabaria morrendo dois meses depois, vítima de um infarto. A família da mãe-de-santo acabou obtendo indenização na Justiça contra a Universal, condenada a pagar 145 mil reais por danos morais.

Agora que temos um fundamentalista evangélico no poder na Câmara dos Deputados, é preciso ficar alerta. Que bom seria se todo mundo pensasse como a Mãe Jaciara de Oxum, herdeira de Mãe Gilda: “Não existe uma religião melhor do que a outra. Seja Deus, Olorum, Javé ou Buda”. Assistam ao documentário de Marcos Rezende, é muito bacana.

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